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01/01/2006 Quando a imprensa serve o poder Mumia Abu
Jamal As recentes notícias que reportam que cadeias de informação se mantiveram mudas no que respeita às prisões secretas americanas na Europa de Leste durante quase um ano, irromperam no meio do escândalo de espionagem da NSA (National Security Administration). Ambos os eventos reflectem o imenso poder do Estado; um poder para calar a imprensa quando lhes convém; e um poder para tranquilamente violar a Constituição dos Estados Unidos à vontade. Hoje, a administração Bush ressuscitou uma velha ideia nixoniana: privilégio executivo; ou a noção de que o que quer que o Presidente faça é inerentemente constitucional. O que é surpreendente é a surpresa! Esta não é a primeira vez que a Casa Branca matou, ou atrasou uma história; nem será a última. Nem é nova a ideia de que os presidentes procuram expandir o seu poder, sem consideração séria das cláusulas na constituição. Presidentes, tanto republicanos como democratas, espiaram americanos, invadiram a sua privacidade, colocar escutas nos seus telefones e invadiram as suas casas. A este respeito, o FBI serviu como uma espécie de polícia presidencial, que espiou, escutou qualquer pessoa que o seu patrão na Casa Branca quisesse. Qualquer pessoa que duvide deste facto só precisa de ler o meu novo livro sobre a história dos Panteras Negras, intitulado We Want Freedom (South End Press, 2004). Fomos todos criados com o dogma da Primeira Emenda, que “garante” (entre outras coisas) a liberdade de imprensa. O que é menos conhecido é quantas vezes a imprensa entregou essas liberdades à Casa Branca, ao FBI, à CIA ou a alguma outra entidade governamental. Lembram-se da infame Baía dos Porcos? Esta era uma invasão apoiada pela CIA a Cuba, com exilados cubanos como testas‑de‑ferro. A invasão de 17 de Abril de 1961 foi esmagada pelo exército cubano e é lembrada na ilha como a batalha da Bahia de Cochinos, uma vitória que tem toda a importância de David e Golias para o povo cubano. O New York Times soube da invasão e planeou denunciá-la editorialmente. O presidente John F. Kennedy persuadiu o Times a não publicar a sua denúncia, alegando segurança nacional. O resto é história.
A CIA (secretamente) era dona de centenas de centros noticiosos, e assim empregou muitos jornalistas que não sabiam (ou não queriam saber) para quem trabalhavam. Usou os serviços de pelo menos 50 jornalistas tanto cá como no estrangeiro, entre eles escritores para a Newsweek, TIME, The New York Times, United Press International, CBS News e outros periódicos publicados em inglês em todo o mundo [1]. Como o historiador Howard Zinn documentou no seu livro Declarations of Independence (1990), os casos são, muito literalmente, uma legião nos quais o governo mudou histórias, fez com que fossem transferidos repórteres ou fez com que outras histórias fossem mortas. Mesmo agora, no meio do escândalo de espionagem da NSA de “milhares” de americanos, as elites políticas tomaram os jornalistas como alvo, não aqueles que cometeram a espionagem ilegal! Existe uma razão pela qual a circulação na maioria dos jornais está a descer rapidamente; e enquanto a maioria aponta a falta de interesse entre os jovens, seguramente outro elemento é a desconfiança. Só é preciso olhar para esta guerra e para o papel dos media como acompanhantes do poder imperial, para ver porque razão existe tanta desconfiança massiva. A imprensa, demasiado frequentemente, reflecte o mundo dos poderosos, não o do povo. Começa observando os festins dos famosos e dos poderosos, e depois, através do poder dos media, torna-se num convidado do festim. Os interesses dos poderosos passam a ser os seus interesses, e a cobertura certamente o reflecte. As maiores cadeias de notícias lançaram apresentadores e jornalistas que se tornaram personalidades ricas, a milhas de distância do melhor jornalismo, ou do jornalismo de rua que iniciou as suas carreiras. À medida que se afastavam cada vez mais das ruas, assim também o seu produto, que deveria agora ser chamado de “escolha limitada”. Chamar a isto uma imprensa livre não é mais do que rebaixá-la. (Trad. Bruno Teixeira) ________ [1] Howard Zinn, Declarations of
Independence: Cross-Examining American Ideology, N.Y.: Harper Perennial,
1990, pp. 215-17. |