Informação Alternativa

América Latina

10/01/2006

 

É necessário queimar Hugo Chávez?

 

Thierry Meyssan *, Cyril Capdevielle

Réseau Voltaire

 

Uma organização de defesa dos direitos humanos, o Centro Simon Wiesenthal, e os diários franceses Libération e Le Monde lançaram um rumor difamatório contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez: seria anti­‑semita. Manipulando com uma má fé evidente uma citação truncada, tentaram desacreditar uma personalidade política que se impôs como a referência anti­‑imperialista simultaneamente para os movimentos progressistas latino­‑americanos e para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

 

A POLÉMICA

 

O centro Simon Wiesenthal, principal organização judaica de defesa dos direitos humanos, dirigiu no dia 4 de Janeiro de 2006 um carta ao presidente venezuelano Hugo Chávez Frías para exigir desculpas públicas na sequência das declarações anti-semitas que teria tido. Paralelamente, a associação escreveu aos presidentes da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai para lhes pedir que bloqueassem o processo de integração da Venezuela no Mercosul (mercado comum latino-americano) enquanto Hugo Chávez não apresentasse desculpas públicas [1].

 

Imediatamente, o correspondente da agência Reuters em Caracas (Venezuela) publicou um despacho. Contudo, agiu com precaução. Salvaguardou que o texto oficial das declarações presidenciais difere da citação publicada pelo Centro Wiesenthal e reproduziu a passagem incriminada. A versão inglesa da comunicação, publicada 15 horas mais tarde, foi reescrita pela direcção. A citação não mais foi reproduzida, o jornalista apontou que o presidente Chávez não falou dos judeus, mas deixou pensar que ele exprimiu o seu anti­‑semitismo de maneira alusiva [2].

 

O comunicado do Centro Wiesenthal foi retomado por alguns diários da direita dura na Argentina e na Venezuela, mas perante a citação exacta difundida pela Reuters, a maior parte dos jornais abstiveram-se e a polémica esvaziou­‑se.

 

Uma nova tentativa foi tentada pela Voz da América. A rádio do departamento de Estado dos Estados Unidos contentou­‑se em dar a versão do Centro Wiesenthal e evitou com cuidado reproduzir a citação incriminada [3]. Aí ainda, não houve reacções.

 

Foi finalmente o diário francês Libération, propriedade de Edouard de Rothschild, que conseguiu relançar a controvérsia. Não sem audácia, citou as declarações do presidente Chávez... mas mutilando­‑as [4]. Para reforçar a acusação, o Libération acrescentou que o presidente venezuelano teve como conselheiro durante um ano o sociólogo argentino Norberto Ceresole, que apresentou simultaneamente como um revisionista e um partidário da ditadura militar.

 

O jornalista francês que assinou o artigo, Jean-Hébert Armengaud, é conhecido pela sua oposição pessoal à revolução bolivariana, como de resto a todos os regimes progressistas da América Latina. É nomeadamente o autor de artigos dirigidos contra as políticas de Fidel Castro e de Jean­‑Bertrand Aristide.

 

O artigo de Armengaud foi retomado pela Associated Press, e depois pelo Le Monde [5]. O rumor difamatório estava lançado.

 

MANIPULAÇÕES

 

De acordo com o Centro Simon Wiesenthal, o presidente Chávez teria declarado: «O mundo pertence a todos, contudo minorias, os descendentes daqueles mesmos que crucificaram Cristo, apropriaram-se das riquezas do mundo». Estas declarações retomariam velhos refrãos anti-semitas acusando simultaneamente os judeus de serem deicidas e de monopolizarem as riquezas.

 

De acordo com o Libération, o presidente Chávez teria identificado os «mestres do mundo» declarando «Mais do que nunca, Cristo falta­‑nos (...), mas verifica-se que uma minoria, os descendentes dos que crucificaram Cristo (...) se apropriaram das riquezas do mundo (...) e concentraram estas riquezas entre algumas mãos».

 

Nem o Centro Wiesenthal, nem o Libération indicam as circunstâncias nas quais estas declarações foram feitas, nem a qual audiência se dirigiam.

 

Na realidade, Hugo Chávez Frías exprimia-se na véspera de Natal frente a uma associação católica de esquerda. Declarou: «O mundo pertence a todos, contudo minorias, os descendentes daqueles mesmos que crucificaram Cristo, os descendentes daqueles mesmos que expulsaram Bolívar daqui e o crucificaram de certa maneira em Santa­‑Marta, na Colômbia; uma minoria apropriou-se das riquezas do mundo; uma minoria apropriou­‑se do ouro do planeta, do dinheiro, dos minerais, da água, das boas terras, do petróleo, das riquezas em suma, e concentrou-as entre algumas mãos: menos de 10% da população mundial é proprietária de mais de metade das riquezas do mundo» [6].

 

Questionado pelo Réseau Voltaire, o director do Centro Wiesenthal de Buenos Aires, Sergio Widder, admitiu que «existe uma margem de ambiguidade nas declarações» incriminadas [7]. Reconheceu:

– que o presidente Chávez não falava dos judeus, nem de maneira explícita, nem de maneira implícita.

– que os teólogos da libertação, que animam o Centro de Desenvolvimento Local Humano Integral [8] onde o presidente Chávez se exprimia nesta véspera Natal, não consideram os judeus como responsáveis pela morte de Cristo, mas o Império Romano; e que eles desenvolvem uma espiritualidade segundo a qual Cristo mostrou o caminho de libertação interno e político face ao imperialismo.

– que a minorias que Chávez estigmatizou como animadas pelas mesmas intenções que os assassinos de Cristo eram a classe dirigente venezuelana que expulsou Bolívar e o deixou morrer na Colômbia, e o sistema global actual que concentra as riquezas nas mãos de 10% da população mundial.

 

Seja como for, Widder manteve parcialmente as suas acusações pelo motivo de que o importante não seria o que o presidente Chávez disse, mas o que o seu auditório corre o risco de compreender; um dirigente desta importância deve fazer declarações claras e privadas de ambiguidades. Contudo, Widder admitiu que o discurso do presidente Chávez era claro para o seu auditório e não que estava em condições de citar exemplos de grupos, excepto o Centro Wiesenthal, que teriam interpretado estas declarações como anti-semitas. Além disso, Widder precisou que o centro Wiesenthal não se pronunciou sobre a política geral de Chávez.

 

O QUE ESTÁ EM JOGO

 

Esta polémica, não assentando em elementos sérios, reflecte elementos em jogo precisos e consideráveis. O Centro Simon Wiesenhtal, longe de ser unicamente uma associação judaica de defesa dos direitos humanos conhecida por ter conduzido com sucesso a caça aos criminosos nazis, também se tornou um órgão de apoio à política israelita. É por isso que, se Réseau Voltaire se orgulhosa de ter agido ao lado do Centro Simon Wiesenthal para lutar contra a ressurgência do anti-semitismo, não pode dar crédito a todas as suas declarações.

 

Em meados dos anos 80, o Centro organizou colóquios sobre o terrorismo que eram com efeito tribunas contra a resistência palestina. No início dos anos 90, o Centro forneceu um relatório montado de todas as peças que acusavam firmas francesas e alemãs de fornecer gases mortais a Saddam Hussein para gasear a população iraquiana. Em 1992, o Centro lançou uma petição para apoiar a facção do líder bósnio Alia Itzetbegovic e fazer intervir a NATO; no entanto, Itzetbegovic é um antigo militante nazi, mas é apoiado por Israel. Hoje, o Centro milita por acções contra o Irão. No seu sítio Internet, o Centro propõe viagens a Israel que incluem encontros com «os dirigentes israelitas presentes e futuros» (sic) e uma visita de uma base militar de Tsahal.

 

No seu comunicado sobre as declarações atribuídas ao presidente Chávez, o Centro comparou-o com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinedjad. Mais directo, o Libération recordou que a primeira visita oficial de Ahmadinedjad ao estrangeiro deveria ter lugar... na Venezuela onde será hóspede de Chávez. O diário francês evocou de passagem o caso de Norberto Ceresole, um antigo conselheiro de Chávez, sublinhando que era revisionista. O Libération absteve-se de precisar, por um lado, que foi precisamente devido o seu revisionismo que Hugo Chávez o despediu [9], e, por outro lado, que Ceresole foi também conselheiro de dirigentes iranianos. A esse respeito, desempenhou um papel central na aproximação entre a Venezuela e o Irão na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

 

Por outras palavras, no momento em que os Estados Unidos e Israel preparam uma acção militar contra o Irão e tentam isolá-lo diplomaticamente, o Centro Wiesenthal acusou falsamente o presidente Chávez de anti­‑semitismo para o isolar por sua vez.

 

Para se assegurar do apoio do departamento de Estado dos Estados Unidos nesta manipulação, o Centro Wiesenthal não deixou de associar a sua diligência a uma tentativa de bloquear a adesão da Venezuela ao Mercosul, de modo a relançar o projecto de zona de livre comércio que o presidente George W. Bush tinha tentado em vão impor na cimeira de Mar del Plata.

 

As acusações difamatórias do Centro Simon Wiesenthal dão seguimento a uma longa lista de campanhas de imprensa conduzidas contra o presidente Chávez. Este com efeito tem sido sucessivamente qualificado pela imprensa atlantista de «golpista», de «gorila», de «ditador», de «populista», sem nunca chegar a confirmar estas injúrias.

 

Lamentamos que o Centro Simon Wiesenthal, cuja acção contra os nazis suscita uma viva admiração, se junte a estas campanhas e avilte assim a luta contra o anti-semitismo, reduzindo-a a uma simples manobra política para empurrar os interesses israelitas.

 

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* Thierry Meyssan é jornalista e escritor, presidente de Réseau Voltaire.

 

[1] “El Centro Simon Wiesenthal condena declaraciones antisemitas de Hugo Chávez y reclama disculpas publicas”, Centro Simon Wiesenthal, Buenos Aires, 4 de Janeiro de 2006.

[2] “Centro Wiesenthal condena declaraciones ‘antisemitas’ de Chávez”, Reuters, Caracas, 4 de Janeiro de 2006, 6h58 GMT. Versão inglesa: “Wiesenthal Center slams Chávez ‘antisemitic’ talk” às 21h55 GMT.

[3] “Jewish Group Accuses Venezuelan President of Anti­‑Semitic Comments”, Voice of America, 5 de Janeiro de 2006.

[4] Jean-Hébert Armengaud, “Le credo antisémite de Hugo Chávez”, Libération, 9 de Janeiro de 2006.

[5] “Le centre Wiesenthal accuse Hugo Chavez d’antisémitisme”, Le Monde, 9 de Janeiro de 2006.

[6] «El mundo tiene para todos, pues, pero resulta que unas minorías, los descendientes de los mismos que crucificaron a Cristo, los descendientes de los mismos que echaron a Bolívar de aquí y también lo crucificaron a su manera en Santa Marta, allá en Colombia. Una minoría se adueñó de las riquezas del mundo, una minoría se adueñó del oro del planeta, de la plata, de los minerales, de las aguas, de las tierras buenas, del petróleo, de las riquezas, pues, y han concentrado las riquezas en pocas manos: menos del diez por ciento de la población del mundo es dueña de más de la mitad de la riqueza de todo el mundo», Hugo Chávez Frias, 24 de Dezembro de 2006.

[7] «Existe un margen de ambigüedad en sus declaraciones», entrevista telefónica a Sergio Widder, 9 de Janeiro de 2006.

[8] Centro de Desarrollo Endógeno Integral Humano.

[9] Uma violenta polémica opôs a este respeito Norberto Ceresole ao vice-presidente José Vincente Rangel.