Informação Alternativa

Mundo

14/01/2006

 

Crises humanitárias são ignoradas pelos meios de comunicação

 

Fernanda Sucupira

Carta Maior

 

Para chamar a atenção do mundo para casos de extrema gravidade que estão relegados ao esquecimento, a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou, esta semana, uma lista com as dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia em 2005. No Uganda (foto), mais de 1,6 milhões de pessoas estão em campos de refugiados.

 

Países destruídos por guerras, conflitos internos ou desastres naturais. Regiões afectadas por constantes ondas de violência, que resultam em milhares – ou milhões – de deslocamentos forçados e em pessoas amontoadas durante anos em campos de refugiados. Países onde a falta de comida, de água e de condições básicas de sobrevivência, somadas à total desestruturação do sistema de saúde, geram a proliferação de doenças tratáveis, como a malária, a tuberculose e o sarampo. Locais em que as mortes de crianças por desnutrição e os ataques de grupos armados fazem parte do quotidiano da população. Ainda assim, a maior parte dessas situações não recebem nenhuma atenção dos meios de comunicação e estão completamente invisíveis aos olhos da população mundial. Para chamar a atenção da comunidade internacional para casos de extrema gravidade que estão relegados ao esquecimento, a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou, nesta semana, uma lista com as dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia em 2005.

 

No norte do Uganda, onde a população local enfrenta um violento conflito há quase duas décadas, mais de 1,6 milhões de pessoas, quase 80% da região, estão em campos de refugiados sem praticamente nenhuma assistência. A pobreza, a alta prevalência de doenças como HIV/SIDA e emboscadas violentas contra civis e profissionais de ajuda humanitária, no final de 2005, agravaram ainda mais o quadro que já era desesperador. No Sudão, em Janeiro do ano passado, o governo e o Exército Popular de Libertação assinaram um acordo de paz, colocando fim a vinte anos de guerra civil, mas a total falta de infra-estrutura, os combates esporádicos e um provável retorno em massa de refugiados para áreas com pouco ou nenhum acesso a cuidados aprofundam a crise no país, onde cerca de 6 milhões de pessoas ainda dependem de doações de alimentos para sobreviver.

 

Na Costa do Marfim, a guerra iniciada em 2002 causou a morte de milhares de civis e forçou centenas de milhares de habitantes a fugirem das suas casas. No final de 2004 e início de 2005 a violência reiniciou­‑se, causando ainda mais mortes e deslocamentos. Hoje, a ameaça de violência ainda é constante mesmo com a presença de forças da ONU e francesas. A separação de familiares e a chegada de soldados deixaram muitas mulheres e meninas vulneráveis à violência sexual, prostituição e doenças sexualmente transmissíveis.

 

Somam-se a esses três casos, na lista elaborada pelo oitavo ano consecutivo, a situação da República Democrática do Congo, da Chechénia, do Haiti, da Somália, da Colômbia e do Norte da Índia. Além disso, também é dado destaque à ausência de atenção à quase total falta de pesquisa e desenvolvimento de novos instrumentos específicos para os portadores de HIV/SIDA de baixo rendimento que vivem em países pobres, justamente as pessoas mais afectadas por essa crise. Isso porque mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com HIV/SIDA, e a cada dia 8 mil pessoas morrem de doenças relacionadas com a SIDA, entre elas 1,4 mil crianças. «Diagnosticar o HIV em bebés, por exemplo, requer altíssima tecnologia, portanto, poucas crianças infectadas pelo HIV podem iniciar o tratamento que prolonga as suas vidas e metade morre antes de completar dois anos de vida. Mesmo que a criança seja diagnosticada a tempo, não há formulações pediátricas fáceis de tomar de anti-retrovirais, como as combinações três-em-um que existem para adultos», afirma o documento.

 

Segundo Simone Rocha, directora da ONG Médicos Sem Fronteiras no Brasil, a ideia de organizar e divulgar essa lista anual surgiu quando eles perceberam que, apesar do trabalho constante feito por organizações internacionais ao longo dos anos para inserir essas crises humanitárias na pauta da mídia, algumas situações muito sérias e extremas passam anos a fio no esquecimento. Algumas das crises que constam da lista de 2005 já estiveram presentes em diversas outras versões do mesmo documento, como é o caso do Sudão, da Colômbia e da República Democrática do Congo.

 

As dez crises mais esquecidas pela mídia foram escolhidas a partir do conhecimento dessas situações pela MSF, que está presente em cerca de 70 países, e de uma análise dos noticiários nocturnos das três maiores redes de TVs dos EUA em 2005. De um total de 14.529 minutos, apenas oito se referem a essas dez situações, sendo que seis minutos dizem respeito à República Democrática do Congo e dois à Chechénia. As outras oito não foram sequer mencionadas no ano passado.

 

«Quando a mídia se interessa, a população também se interessa e cobra uma reacção dos seus dirigentes. Isso ocorre principalmente nos países europeus e nos EUA e, em escala bem menor, no Brasil e em outros países da América Latina. A mídia tem o poder de revelar coisas que desconhecemos e de dar voz a populações que normalmente a não teriam», acredita Simone. Nas crises humanitárias os meios de comunicação podem ter um papel bastante importante, por despertarem a atenção das pessoas para tais problemas. Segundo a directora da MSF, esse foi o caso de Kosovo, na antiga Jugoslávia, situação que contou com ampla cobertura da mídia internacional, por se tratar de um conflito no coração da Europa e que poderia ter consequências graves, já que as duas guerras mundiais se iniciaram nos Bálcãs.

 

São vários os factores que levam a essa negligência por parte dos meios de comunicação. A dificuldade de cobrir esses acontecimentos, que ocorrem, na maioria das vezes, em locais de difícil acesso e de pouca segurança para os jornalistas, já que normalmente são regiões marcadas pela violência, é um dos aspectos que explicam esse quadro. Há também uma escassez de imagens desses contextos que complicam a realização de matérias jornalísticas, principalmente na televisão. Além disso, há a limitação do espaço físico onde são veiculadas as notícias e acabam prevalecendo os assuntos que servem mais aos interesses directos e indirectos dos países onde os veículos se localizam.

 

«No geral, a mídia internacional pauta­‑se pela mídia e pelos interesses dos EUA, por isso o espaço dedicado ao Iraque e ao Médio Oriente é tão grande, quando, na verdade, a política internacional vai muito além disso», diz Simone. A própria mídia brasileira não foge desse padrão, é bastante influenciada pela norte­‑americana. «Outros países com os quais o Brasil teria maior afinidade histórica, como Angola e Moçambique, só aparecem nos noticiários quando existe um facto de extrema relevância, mas é muito pouco», completa. Ainda que na Europa essa relação seja um pouco diferente, por causa da relação histórica que os países europeus têm com os países africanos e asiáticos, há também uma crescente tendência de relegar ao esquecimento certos contextos e situações sem implicações mais próximas à vida da população local. Há ainda o desinteresse de jornalistas e editores por falta de informação ou por causa da linha editorial de cada veículo.

 

No entanto, existem informações suficientes disponíveis para ao menos suscitar o interesse desses profissionais, produzidas tanto por ONGs internacionais, como é o caso da MSF, e pela Organização das Nações Unidas (ONU), quanto pelo mundo académico. «Esses assuntos só se tornam notícia quando uma celebridade internacional se envolve com eles, como o Bono do U2. Nesse caso, o espaço que esses países ganham na mídia aumenta substancialmente. É uma pena que o facto em si não seja suficiente para chamar a atenção da mídia, que tem uma função pública importante, de dar a conhecer a situação de outras partes do mundo», lamenta Simone.