Informação Alternativa

Mundo

15/10/2005

 

As culpas do “Katrina”

 

Antonio Tabucchi

DN

 

É curioso ver as reacções psicológicas que o furacão que se abateu recentemente sobre Nova Orleães provocou na imprensa que manifesta admiração por Bush. Sobretudo em Itália, que se caracteriza por uma imprensa controlada na sua maior parte por Berlusconi e é, talvez, o país mais pró-Bush da Europa (pelo menos no papel). O sentimento é na sua maioria de irritação. Porque, à parte o sucedido, as vítimas, a morte e a destruição que semeou, o furacão Katrina tem “contra si” o ter dado a entender, a quem não o soubesse ainda, que George W. Bush é um senhor de cérebro algo lento e o seu Governo um gang of crocks and a shits, como dizem os americanos, ou um bando de idiotas chapados, como se traduziria em português corrente.

 

E a afronta do Katrina não é coisa de pouca monta para essa imprensa de que falamos. Pela simples razão de que Bush era aquele­‑que-estava-a-salvar-o-mundo, o redentor de uma Humanidade turbulenta, brigona, afectada por ditaduras e pela injustiça, a ponto de se autodestruir com armas mortais de destruição em massa que tinham sido escondidas nos lugares mais impensáveis, impossíveis de encontrar pela incompetente da ONU.

 

Mas, por sorte, ali estava Bush. Este, tendo recebido (após a sua cura de desintoxicação) directamente de Cristo a missão de implantar em todos os lugares a paz e a democracia, voltava a pôr tudo no sítio, trazendo ordem e progresso a este mundo desengonçado. Aparecia aqui ou ali uma manifestação do Mal? Calma, que o Bem de Bush logo se encarregava de espantar o Mal. A nação mais poderosa do mundo, armada com tudo o que se possa desejar, da bomba atómica à bomba H, aparecia com os seus porta-aviões, os seus caças, os seus marines, os “seus rapazes” e resolvia qualquer problema que pudéssemos ter. Naturalmente, a acção de limpeza requeria certos sacrifícios, mas a verdade é que, meus senhores, escrevia a imprensa entusiasta da empresa Bush e Companhia, inclusive numa operação realizada com laser, a mais milimétrica como se sabe, o paciente não deixa de sentir uma dorzinha. No Afeganistão estavam os talibãs (e continuam a estar), mas, evidentemente, não se concentravam todos numa zona com uma tabuleta municipal que rezava hic sunt talebanos: estavam espalhados por todo o lado, como a mafia, que não reside só na Sicília e, por isso, é compreensível que para os neutralizar fossem necessários bombardeamentos, chamemo-lhes assim, “sistemáticos” (era assim que esse tipo de imprensa os chamava). E no Iraque? Pois ali acontecia o mesmo. E em Abu Ghraib, com os prisioneiros com queimaduras de cigarros e levados a passear nus, de trela, pelas marinettes? Deplorável, sem dúvida, dizia esse tipo de imprensa, mas às vezes coisas como estas são inevitáveis; será que “eles” não atacam, como se atreveu a dizer no seu programa um corajoso jornalista do nosso país, difundindo um vídeo que as televisões excessivamente respeitosas do anémico Ocidente se negaram a transmitir? Além do mais, continuavam, temos como compensação o prazer de observar essas orgulhosas mulheres iraquianas que com o dedo tingido de azul se encaminhavam pela primeira vez na vida para a cabina de voto. É verdade que não houve observadores internacionais e que nunca se chegou a saber a verdadeira percentagem de votantes; mas a percentagem de mulheres iraquianas que votavam em Londres e em Estocolmo, essa sim, soubemo-la.

 

Mas, de repente, chega o Katrina, do qual ninguém estava à espera. Porque, como dizia Emile Benveniste, que da linguística extraiu uma lei aplicável aos destinos humanos, «o inevitável não acontece nunca, o inesperado sempre». Como nos filmes do cinema negro, quando ele e ela estão a transportar no porta-bagagens do carro o cadáver do marido dela (um tipo do mais sinistro, de quem convinha desembaraçarem-se) para receber o seguro, e ele, para evitar um gato, dá uma guinada e o carro acaba num barranco. Um gato imprevisto, que ninguém tinha convidado, ao estilo de O Carteiro Toca sempre Duas Vezes. Mas os políticos não reflectem muito sobre a História e crêem que podem domesticá-la segundo os caprichos deles, planificando-a com os números, que são o ponto forte dos políticos: cálculos, sondagens, gráficos, contas. Que no papel são perfeitos, mas isso não significa que os contabilistas sejam todos uns Einstein. Não é preciso mais do que recordar a personagem interpretada por Dustin Hoffman em Rain Man. O irmão perguntava-lhe a raiz quadrada de 2.900.425 e ele dizia­‑lhe a resposta em dois segundos. Mas quando tem de fritar um ovo pouco lhe falta para incendiar o andar.

 

Está aí a razão pela qual a imprensa, que tinha feito de Bush um génio global e do seu Governo os sábios destinados a resolver os problemas da Humanidade, se mostra irritada. Porque essa mesma gente que devia assegurar ao globo terrestre as indispensáveis medidas de segurança face ao incêndio causado por uma omeleta doméstica carecia de extintores. E não é apenas isso; essa gente, que tanto e de modo tão filantrópico se preocupa com os problemas alheios, descuida os problemas de casa, dando razão ao dito evangélico de quem vê o argueiro no olho alheio e não vê a trave no seu próprio olho. E, efectivamente, Bush, que estava de férias como antes de o 11 de Setembro o pôr em movimento, permaneceu tranquilamente onde estava; Condoleezza Rice continuou às compras na Quinta Avenida e Cheney estava à caça (provavelmente grossa, dados os gostos do personagem). «É esta a atitude certa de um estado-maior que se sente, justamente, em guerra?», perguntava um conhecido jornalista nesses dias. Apressemo-nos a resolver a sua angustiante dúvida: nem por sombras. A única objecção diz talvez respeito ao advérbio “justamente”. Os americanos invadiram o Iraque contra a vontade da ONU e da opinião pública mundial, porque, segundo diziam, aquele país tinha armas de destruição em massa. Que na realidade não tinha. Ben Laden e os seus terroristas não estavam no Iraque, mas sim nas montanhas do Afeganistão e no Paquistão, que é um aliado dos Estados Unidos. E ali continua Ben Laden. O seu braço-direito, o mullah Omar, fugiu de motocicleta. Será que se dirigiu para o Iraque? Isso nunca nos foi dito. Foi­‑nos dito que, dado que não encontravam as armas de destruição em massa, os americanos, já que ali estavam, aproveitaram para levar para esse país a democracia, depondo um feroz ditador. E que Saddam Hussein era um feroz ditador não há a menor dúvida, da mesma forma que os há em muitos outros países da Ásia e da África. Mas o que tem isso a ver com o 11 de Setembro, onde começa toda esta história? É por isso que os Estados Unidos estão “justamente” em guerra? Mas à parte esse pequeno pormenor sobre o qual não estamos de acordo, há que dar razão noutra coisa ao jornalista quando começa o seu artigo com esta afirmação: «O racismo não tem nada a ver com a catástrofe natural de Nova Orleães». No entanto, no que respeita à segunda parte da frase «nem com a penosa falta de reacção face à emergência», tenho as minhas dúvidas. Com isto o racismo pode ter algo a ver, ou assim o afirmam pelo menos milhares de cidadãos de Nova Orleães afectados na primeira pessoa, que não estão de acordo com o jornalista. Mas a primeira observação, que certa está! O racismo, com a catástrofe natural não tem absolutamente nada a ver, da mesma forma que com o terramoto no Irão nada teve a ver o fundamentalismo islâmico. Digamos que com o desastre de Nova Orleães tem a ver o clima, essa variável que o Governo de Bush não tinha tomado em consideração, e talvez tenha algo a ver o aquecimento da atmosfera, ao qual a política de Bush deu uma ajudinha.

 

Seja como for, estamos perante um grande dilema. Agora que o furacão Katrina assumiu a responsabilidade de dar a conhecer a América de Bush, uma América com enormes bolsas de pobreza, de desigualdade social, uma América marcada pelo cinismo, o liberalismo desenfreado e o fanatismo religioso, a América da desarticulação social, onde o Estado está ausente e os cidadãos abandonados à sua sorte; e sobretudo agora que sabemos que George W. Bush, que tinha carregado sobre os ombros a tarefa de conduzir o mundo, nem sequer sabe conduzir o seu próprio automóvel, o que fará o mundo? A resposta é muito simples: fará o que sempre fez, quando George W. Bush não estava. E talvez até passe melhor. Mas o que fará a imprensa que tem vivido e prosperado porque George W. Bush existia? E os neoconservadores e as suas teorias, nascidos como cogumelos depois da chuva, que fim os espera depois da inundação?

 

Não teria sido a ocasião certa para o Governo italiano organizar uma verdadeira “missão de paz” em Alabama e no Mississipi? Ah, quantas interrogações nos colocou o Katrina, esse hóspede inesperado que nos veio recordar que nós, os pobres seres humanos, estamos aqui sobre a superfície terrestre e por cima de nós, grandes e pequenos, está a abóbada celeste com o Sol que nos queima e a chuva que nos molha. E às vezes há também algum meteorito, como aquele que fez com que se extinguissem os dinossáurios.