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05/06/2005 – Intervenção no Encontro Internacional contra o Terrorismo, pela verdade e a justiça. Havana, 5 de Maio de 2005 – Pascual Serrano Uma das acções repressivas das ditaduras do século passado era silenciar os intelectuais, académicos e líderes sociais que se posicionavam na busca de um modelo social justo e igualitário. Hoje, sob o formato de democracia representativa, essa função está a ser cumprida pelos meios de comunicação. O nome desta mesa redonda é “Terrorismo: A conjura dos meios de comunicação”, eu creio que estamos ante uma omertá, esse pacto de silêncio da máfia italiana para ocultar o que não é desejado. Quero recordar que em Espanha, e na Europa em geral, até dois meses depois de o autor da explosão de um avião civil anunciar a sua presença nos EUA pedindo asilo, não foi notícia nos meios de comunicação. A omertá pôde manter o silêncio dois meses, mas um povo e um líder acabaram por rompê‑lo. Na Europa, a omertá mediática continua eficaz no caso de cinco cubanos encarcerados por lutar contra o terrorismo. Na Europa, cinco pessoas fomos impedidas de alugar um espaço para um comunicado na grande imprensa pela morte de mil iraquianos em Falluja. Há umas semanas uns espanhóis de uma delegação de solidariedade entrevistaram o director médico do hospital dessa cidade. Vários meses depois dos bombardeamentos, nenhum jornalista tinha entrado em Falluja para contar ao mundo a situação. Os grandes meios não são cúmplices do terrorismo, do mesmo modo que os EUA ou os grandes grupos económicos também não são cúmplices do terrorismo. E digo que não são cúmplices porque eles são o terrorismo. Se a morte de milhares de pessoas no mundo por fome ou doenças é terrorismo. Silenciá‑lo nos meios de comunicação, também é terrorismo. E se terrorismo é fazer explodir um avião cubano com inocentes a bordo, manter o silêncio sobre os seus responsáveis e as ânsias de justiça de um povo, também é terrorismo. E se também é terrorismo querer encarcerar perpetuamente cinco cubanos que têm como único delito lutar contra o terror. Silenciar essa injustiça faz parte das estruturas do terrorismo. Hoje, em 2005, já não há um golpe de Estado ou um crime de Estados ou um massacre que não conte com a sua correspondente cumplicidade mediática. E se para enfrentar esse terrorismo fazem falta cidadãos valorosos e consciencializados e organizações sociais eficazes e comprometidas, também precisamos criar uma rede de meios e métodos de comunicação que permitam juntar-se ao clamor da luta contra esse terrorismo. Um clamor que diga que terrorismo não é levantar‑se contra uma ocupação no Iraque mas derrubar aviões com inocentes. Que terrorismo não é manifestar‑se contra as instituições económicas ao grito de outro mundo possível, mas contaminar os cultivos de uma pequena Ilha para fazer passar fome um povo. Um clamor e uns meios de comunicação que digam que terrorismo não é alfabetizar a Nicarágua mas desviar fundos procedentes da venda de armas ao Irão para financiar a Contra que assassina camponeses na fronteira da Nicarágua com as Honduras. Que terrorismo não é ser solidário e acolher os líderes sociais do mundo como faz Cuba, mas assassiná-los como fazem os EUA. Para o poder, informar é ter jornalistas embutidos entre as suas tropas, informar é organizar um escândalo mediático contra um presidente norte-americano por uma felação, mas não por invadir ou massacrar um país. E para eles terrorismo é toda a iniciativa popular que enfrente o império. Por isso dizem que Cuba faz terrorismo biológico quando pesquisa vacinas contra o cancro ou que o partido que hoje vai ganhar as eleições no Líbano, o Hezbolá, é um grupo de terroristas. Não esqueçamos que aos 18 anos Nelson Mandela era considerado pelos meios de comunicação e pelos EUA como “terrorista” enquanto os guerrilheiros mujaidines no Afeganistão, entre cujas filas estava Osama Bin Laden, eram qualificados de “heróis lutadores pela liberdade” pelo seu lavor na guerra contra a União Soviética. Do mesmo modo, nos anos 30, as forças clandestinas judias na Palestina eram consideradas como uma organização “terrorista”, e foram oferecidas recompensas no Reino Unido de cem mil libras esterlinas pela captura de Menahem Begin, homem que mais tarde foi o primeiro‑ministro eleito de Israel. Anos mais tarde, quando os poderosos criaram o estado de Israel, os terroristas passaram a ser os palestinianos para os grandes meios de comunicação, em especial a OLP. No entanto, quando se iniciaram os diálogos palestino‑israelitas, o líder da organização, Yasser Arafat, passou de ser terrorista a ser o dirigente internacional mais vezes recebido pelo presidente Bill Clinton. Não esqueçamos também que George Washington e as suas tropas foram considerados “terroristas” pelo império britânico. Consideração similar à que tinham de Gandhi. Mais recentemente, o eleito presidente de Timor Oriental, Xanana Gusmão, foi um terrorista separatista aos olhos das potências ocidentais e dos seus meios de comunicação, amigos do ditador indonésio Suharto. A sua hipocrisia é tão grande que Eden Pastora passou de ser terrorista sandinista a ser herói da Contra nicaraguana. Na sua época “terrorista” lutava contra a ditadura de Somoza, e na sua “heróica” fase na Contra guerreava contra o legítimo governo sandinista que tinha ganho umas eleições gerais. Também foram frequentes os casos daqueles que, como Bin Laden, passaram de ser “lutadores pela liberdade” a ser “terroristas”. De Saddam Hussein, a Noriega no Panamá ou Montesinos no Peru. E é que a verdade nunca a vai dizer a CNN, nem o El País, nem o The New York Times. Ou a dizemos os povos com os nossos meios de comunicação alternativos e comunitários ou quererão aplicar-nos o terrorismo, o terrorismo do silêncio. |