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03/06/2005 Wilson Sobrinho Na América Latina, o
confronto entre os que resistem à globalização neoliberal e aqueles que a
impõem acaba de chegar a uma área antes quase que exclusiva dos últimos: as
telecomunicações. Com as suas bases fincadas na capital venezuelana Caracas e
ambicionando transmitir para todo o continente, está no ar, via satélite,
desde o dia 24 de Maio passado, o sinal de teste da Nueva Televisión del
Sur ou simplesmente Telesur. A alternativa
latino-americana aos grandes conglomerados de televisão mundiais é descrita
pelo seu director como «o primeiro projecto de mídia contra-hegemónico que a
América do Sul irá conhecer em termos de televisão». Segundo Aram Aharonian,
jornalista uruguaio radicado na Venezuela, trata‑se de um projecto de
integração continental. A Telesur «nasce da necessidade de dar voz aos
latino-americanos no meio da acumulação do pensamento único – que é o que
transmitem os meios de comunicação comerciais – da urgência de nos vermos com
os nossos próprios olhos e dar soluções próprias aos nossos problemas», disse
em entrevista ao diário mexicano La Jornada. «Se não começarmos por
aí, o sonho da integração latino-americana não será mais que um projecto». Oitenta por cento do
financiamento inicial – de 2,5 milhões de dólares – necessário para fazer
funcionar a empresa veio do governo venezuelano. O presidente argentino
Nestor Kirchner, num acordo feito em Fevereiro, enviou 20% do investimento.
Além disso, a Argentina irá ceder os seus satélites para retransmitir o sinal
da TV e fornecer programação para a emissora. Do Uruguai, o recém eleito
presidente Tabaré Vasquez foi um dos primeiros a abraçar a ideia, garantindo
10% dos custos iniciais. Participam ainda Brasil e Cuba, compartilhando
programação e tecnologia. A televisão deve entrar em
funcionamento completo no segundo semestre deste ano, mas não espere
apresentadores de terno e gravata nessa nova emissora. Uma das âncoras da
Telesur, Ati Kiwa, indígena colombiana, aparecerá nas telas vestindo roupas
da sua cultura. Cerca de 40% da grade de programação da Telesur será de cunho
jornalístico/informativo. A emissora, cujo slogan é “O Nosso Norte é o Sul”,
terá correspondentes na Argentina, Colômbia, Cuba, Brasil, Estados Unidos,
México e Uruguai. Os outros 60% da programação
devem ser preenchidos por produções audiovisuais próprias e independentes,
programas de TVs comunitárias, de universidades ou programas produzidos por
organizações populares e sociais. «O nosso enfoque será o contrário do da
televisão comercial. Vamos buscar o protagonismo dos movimentos sociais, das
pessoas das comunidades, dos povos», explicou Aharonian. Material para ir para o ar
não será problema, segundo o jornalista colombiano Jorge Enrique Botero, director
de conteúdos da Telesur. «Existem centenas de documentaristas e criadores de
televisão que produzem um material muito original e que acabam frustrados por
não ter oportunidades para chegar aos meios de massa. Existe uma geração
inteira esperando. E nós queremos essas pessoas». Botero diz ainda que as
diferenças para as televisões comerciais irão além do conteúdo. «Vamos diferenciar‑nos
em muitos sentidos: estilo, tom, movimento de câmera. Os nossos
apresentadores terão um estilo coloquial, teremos jornalistas que irão contar
histórias, serão repórteres, não bonecos que apenas sabem ler teleprompter.
Teremos câmeras em acção nas ruas, buscando ângulos que as outras não pegam». Obviamente, pelo historial
recente de confrontos na região, um projecto como esse não passaria sem vozes
contrárias – na Venezuela e, principalmente, nos EUA. «Uma rede ao estilo da
Al-Jazeera na América do Sul soa como se Chávez quisesse envenenar a mente de
pessoas que desejam ser livres», vociferou um deputado republicano eleito
pela Flórida, segundo noticiou o site independente norte‑americano Alternet. Segundo Aharonian, não há o que temer. Embora a empresa seja financiada por estados, isso não se dará eternamente. Existem planos de em pouco tempo cortar o cordão umbilical do financiamento estatal. Além disso, os critérios jornalísticos estarão acima dos políticos, segundo o director da Telesur. «Chávez estará na TV quando for notícia», disse ao The New York Times, em meados de Maio. O único membro político do quadro administrativo da empresa será Andrés Izarra, ministro da Informação da Venezuela. O resto da direcção será formada por jornalistas: entre eles Aharonian, Botero, Ana de Escalom (Canal 7, da Argentina), Beto Almeida (Brasil), Olvidio Cabrera (Cuba). |