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11/02/2005 «Vietname: 83% de
participação apesar do terror Vietcong» Jack
Naffair; Arthur Lepic Em plena campanha de
bombardeamentos sobre o norte do Vietname em 1967, os Estados Unidos
organizavam eleições para que uma parte da população do Vietname do Sul sob
ocupação escolhesse um presidente. Onze anos mais cedo, tinham violado
abertamente os acordos de Genebra anulando eleições gerais sob controlo
internacional que teriam indubitavelmente levada Ho Chi Minh ao poder.
Pervertendo abertamente a resolução N.° 1546 da ONU em 2004, Washington
organizou de novo uma operação eleitoral em situação de guerra de ocupação,
para tentar fazer aceitar uma ocupação ilegal. Mas desta vez a maior parte
dos líderes de opinião curva‑se face a esta «etapa para a democracia».
Nguyen Van Thieu,
presidente “eleito” do Vietname em 1967, a sul do paralelo 17, por uma parte
da população sob ocupação estadunidense
Qualquer operação de propaganda, sobretudo em situação de guerra, deve ser encarada sob ângulos diferentes de acordo com o público receptor da mensagem. A luz verde é dada geralmente pelas instâncias de decisão quando consideram que a operação proposta tem um efeito suficientemente positivo sobre as diferentes partes. No caso da organização de “eleições” num país ocupado militarmente, dentro deste país o efeito procurado é geralmente aliviar o fervor da resistência; quer porque teme a autodeterminação de uma população que controla pelo terror, quer porque espera sair reforçada e não deseja por conseguinte sacrificar combatentes inutilmente antes do prazo. Mas é também a ocasião de convencer a opinião pública, fora do país, das boas intenções do ocupante para justificar à posteriori uma invasão. Uma vez franqueada a cortina da propaganda estadunidense que domina os meios de comunicação social ocidentais, evidencia-se claramente que a opinião pública iraquiana, sobretudo nos meios xiita do Sul e curdo no norte, se prestou ao jogo das eleições até um certo ponto, esperando tirar proveito disso. O embaraço da administração estadunidense perante as reivindicações de vitória dos líderes xiitas sublinha de resto toda a ambiguidade da operação: brilhante manobra de comunicação junto da opinião pública ocidental, poderá muito bem tornar-se o selo da segunda principal derrota militar estadunidense da história, quando estes mesmos «iraquianos médios», que até aí tinham dado uma hipótese ao projecto de “democracia” estadunidense e votado pelo que acreditavam ser a retirada das tropas de ocupação, perderem as suas ilusões e se juntarem ao «exército das sombras».
Com efeito, as recentes declarações de John Negroponte, o “embaixador dos EUA” que governa verdadeiramente o Iraque através das armas, evitam com cuidado a questão da retirada das tropas. Falta, frente a ele, um líder da têmpera de Ho Chi Minh que possa explicitar os objectivos estratégicos da potência ocupante sob um ângulo diferente (bases estratégicas permanentes e petróleo), despertando assim a consciência do povo iraquiano. Apercebemo‑nos assim até que ponto as técnicas de propaganda e de divisão se aperfeiçoaram desde então, mas também até que ponto o apoio de uma grande potência estrangeira falta à Resistência iraquiana.
Quando tiveram lugar as eleições iraquianas organizadas pelos Estados Unidos a 30 de Janeiro de 2005, bloguistas, depois sítios de informação alternativa tiveram a boa ideia de as pôr em paralelo com outras eleições em situação de ocupação militar, desta vez no Vietname do Sul em 1967. Se as duas situações apresentam com efeito muitas similaridades, merecem no entanto uma iluminação ainda mais ampla, remontando até aos acordos de Genebra de 1954, para que esta posta em paralelo revele toda a sua pertinência.
«Os terroristas matam 26
pessoas durante a votação» Por um lado, os acordos de Genebra que foram assinados em 1954, no seguimento da derrota humilhante da França em Dien Bien Phu, não diziam respeito tanto a Paris como a Washington, que era a única verdadeira força de negociação face ao Vietminh. Ao permitir à França salvar a face, Washington envolveu‑a ao mesmo tempo a sério na sua política de “contenção” da URSS, mesmo se desde 1950, com a guerra da Coreia, o conflito se tinha transformado numa cruzada anticomunista franco‑estadunidense. As grandes linhas dos acordos de Genebra eram um cessar‑fogo sem condições, uma divisão do país em dois ao nível do paralelo 17 e a organização de eleições livres no conjunto do país.
Ho Chi Minh demonstrou uma boa vontade exemplar até ao fim das negociações, e mostrou mesmo um certo optimismo quanto à celebração das eleições, pois tinha confiança no desejo de independência do sul, onde fora de Saigão era de resto muito popular. Estima-se com efeito que teria ganho amplamente o escrutínio, com provavelmente mais de 70% dos votos. Depois confiou progressivamente nas suas dúvidas, de 1954 até 1956, data em que as eleições gerais no Vietname foram anuladas por decisão de Washington. Entretanto, a polícia do regime fantoche de Diem tinha-se dedicado a pôr a saque e a incendiar as salas da Comissão internacional de controlo encarregada de velar pela boa aplicação dos acordos de Genebra [1]. Não podemos deixar de recordar as circunstâncias misteriosas do assassinato em 2003 de Sérgio Vieira de Mello, representante da ONU no Iraque, antes dos Estados Unidos bloquearem o processo político e chamarem em seguida de novo a ONU para que desempenhasse um papel secundário, sem papel de supervisão, na organização das “eleições”. Notaremos de resto neste ponto que não houve mais observadores internacionais (ou pelo menos independentes de Washington) em 30 de Janeiro no Iraque, do que em 3 de Setembro de 1967 no Vietname. Eleições, sim, mas não democracia: contrariamente às que deviam realizar-se em 1954, as eleições de 1967 diziam respeito apenas ao Vietname do Sul, e tratava-se de escolher entre os candidatos autorizados pelas forças de ocupação. A partir do momento em que todo o representante da Resistência foi considerado como “terrorista” e por conseguinte criminoso, não pôde com efeito participar no processo eleitoral. Também é importante repetir que uma eleição em território ocupado que não envolve as forças políticas da Resistência não pode em caso algum assemelhar-se à “democracia”.
A Resolução N.° 1546 (2004) da ONU, adoptada em 8 de Junho de 2004 pelo Conselho de segurança, previa «o fim da ocupação» e que «um governo temporário inteiramente soberano e independente assume a plena responsabilidade e a plena autoridade no país daqui até 30 de Junho de 2004». A única possibilidade para que a ocupação se prolongasse era, de acordo com esta mesma resolução, que um governo soberano o pedisse. Assistimos por conseguinte a uma habilidade de trapaça jurídica exemplar: a “transferência de soberania” para o governo nomeado pelo ocupante que por sua vez pediu a prolongação da ocupação. A mesma resolução (Artigo 4 c) exigia «A celebração de eleições democráticas de sufrágio directo, antes de 31 de Dezembro de 2004 se possível, e em qualquer caso a 31 de Janeiro de 2005 o mais tardar». Aí está por conseguinte como os Iraquianos tiveram que sofrer esta fraude democrática em plena ocupação estrangeira, infelizmente com o concurso da ONU.
«Os Iraquianos desafiam as
ameaças enquanto milhões de pessoas votam»
«As eleições vietnamitas
aclamadas pelos EUA como um “passo decisivo”» Nada surpreende então que um regime fantoche militar, o de Nguyen Van Thieu, tenha saído vencedor no Vietname. Quanto à autenticidade do escrutínio, os raros investigadores que trabalharam sobre este acontecimento quase esquecido pela história comentam [2]:
«Numerosos vietnamitas tinham dúvidas quanto à integridade do processo eleitoral. Um homem de negócios vietnamita comentou: “99% das pessoas pensam que é uma eleição fraudulenta, mas votam porque é o que se espera delas”. Sinais davam a pensar que a participação maciça se devia sobretudo a pressões e ameaças de represálias sofridas por aqueles que não se apresentariam nas urnas». Dado que os responsáveis eleitorais tinham carimbado os bilhetes de identidade, suspeitava‑se geralmente que a ausência deste “símbolo de lealdade” para com o governo fosse a causa de problemas ulteriores, até mesmo de suspeitas de pertença ao Vietcong.
«Os iraquianos entusiastas
comprimem-se nas urnas»
«3 peritos dos EUA
consideram a votação como “razoavelmente justa”» O método escolhido no Iraque foi desta vez a marca corporal: tinta azul sobre o dedo, fiança de lealdade após um ritual de passagem significando para os iraquianos a fidelidade ao ocupante, e para os mais ingénuos, do estrangeiro, a integração na grande comunidade “democrática” daqueles que votam. Pouco importa que os não‑votantes sejam estigmatizados publicamente pela sua escolha que é no entanto igualmente democrática; o facto de votar seria em si um acto de fé democrático.
«A taxa de participação no
Iraque desafia a violência»
«Os Estados Unidos
encorajados pelo voto vietnamita» Em Agosto de 1967, a popularidade nos Estados Unidos da guerra levada a cabo pelo presidente Johnson estava ao nível mais baixo (33% apoia esta política, para 53% que a rejeitam. Fonte: D. M. Barret, Uncertain warriors: Johnson and his Vietnam advisers). O Congresso e a opinião pública apoiavam a política que consistia em manter um Vietname do Sul “livre”, mas não os meios; a saber, os bombardeamentos maciços sobre o norte e sempre mais soldados no terreno (500.000 no momento mais forte da mobilização em 1968) com as perdas que isso implicava. Johnson procurou por conseguinte justificar o envolvimento militar como um sacrifício para o apoio de um governo «eleito e legítimo» que representava a vontade dos sul-vietnamitas. Sobre a taxa de participação, as conclusões dos investigadores foram igualmente eloquentes [3]: «Segundo as estimativas oficiais dos EUA, perto de um terço dos 17 milhões de habitantes do Vietname do Sul encontrava-se em território controlado pelo Vietcong e não pôde por conseguinte votar. O próprio governo desqualificou dezenas de milhares de eleitores, e numerosos budistas, vítimas de mau tratamento pela junta, boicotaram as eleições. Além disso, o bilhete militar de Thieu e Ky recebeu apenas 35% dos votos, distante de um mandato popular. Os regulamentos eleitorais impostos pela junta estipulavam também que por muito baixa que pudesse ser a percentagem de votos obtidos por um candidato vencedor, não haveria segunda volta, pois isso teria permitido a candidatos civis juntar as suas forças aquando dum segundo escrutínio».
Em 1 Setembro de 1966, mais de doze anos após os acordos de Genebra e quase um ano mais dia menos dia antes das “eleições” tragicómicas de Saigão, o general de Gaulle reafirmava na ocasião do seu “golpe de clamor” de Phnom Penh o seu compromisso a respeito destes acordos que deviam pôr termo a qualquer ocupação estrangeira antes da celebração de eleições livres no conjunto do Vietname. Exprimia além disso a sua apreensão a propósito da escalada militar estadunidense, que se tornava de acordo com ele «cada vez mais ameaçadora para a paz mundial». Poderíamos forçar a lógica do paralelelismo muito longe, e julgar a atitude do nosso governo actual, que se reclamava tradicionalmente da herança gaullista, confrontando-o com a do seu pai espiritual, intransigente numa situação similar no plano das leis e convenções internacionais. Mas não está aí toda a realidade. A realidade é igualmente que no Vietname não havia petróleo. ___________ [1] Jean Lacouture, Ho Chi Minh, éditions
du Seuil, 1969. [2] Em The Vietnam experience: America takes over, 1965-67, por um colectivo de investigadores, The Boston Publishing Company (esgotado), citado por Bill Christison em Counterpunch em 4 de Fevereiro de 2005. [3] The Vietnam experience: America takes
over, 1965-67, Op. Cit. |