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15/02/2005 Eleições na sociedade da
meta‑informação Fernando Penim Redondo Antes de mais convém explicar
o que é a sociedade da meta-informação. É a sociedade actual em que recebemos
muito mais meta-informação do que informação. E o que é meta-informação? É
informação que se destina principalmente a condicionar a forma como “lemos” a
informação. Vejamos um exemplo simples:
alguém que viva numa sociedade agrícola numa região remota pode encontrar
durante uma jornada no campo, em contacto directo com a natureza, vários
factos que não sabe interpretar (informação). Quando chega a casa poderá
eventualmente consultar os mais velhos ou, se tal não resultar, colocar a
questão na aldeia quando for à missa no Domingo seguinte. As explicações
obtidas, certas ou erradas, que passarão provavelmente a servir de padrão de
“leitura do real” constituem meta-informação. Verifica-se uma proporção entre
informação e meta‑informação que é largamente favorável à primeira. Hoje vivemos quase todos em
ambientes urbanos, com grande intensidade tecnológica na área da comunicação,
e pode dizer-se que a “invasão” da meta‑informação é quase
inescapável; o outdoor, o jornal, a televisão e quase tudo o que nos
rodeia emite meta-informação para nós praticarmos, consumirmos, votarmos, em
suma, para obter de nós comportamentos em resultado de uma determinada
“leitura” do mundo que nos é proposta. As tecnologias digitais
vieram, pela facilitação brutal da produção de réplicas, acelerar este
processo que está ainda em desenvolvimento. É claro que toda a vida em
sociedade pressupõe esse condicionamento mas na época actual, com o
surgimento de actividades e sectores económicos especializados e dedicados, a
meta-informação alcançou proporções esmagadoras. Os pobres humanos, que se
debatem há milénios com os limites das suas percepções na captação do mundo
real, são assim ainda mais desmoralizados por mensagens que constantemente se
propõem ensinar-lhes a ver o que parecia óbvio. E o que tem isso a ver com as
eleições ? Os políticos são alguém que considera ter a missão de levar-nos a determinados comportamentos sociais, nomeadamente a determinadas escolhas eleitorais. A persuasão baseia-se no
pressuposto de que tais pessoas apreenderam a realidade social (e até a
natural) de forma mais completa e mais fidedigna do que nós e se propõem
trazer-nos vantagens com base nisso. É um processo em que nós somos
convidados a ver o real pelos olhos de outrém em troca de hipotéticos
benefícios. Como se tal não bastasse
existem os comentadores políticos. Estes propõem‑se ensinar‑nos
a “ler” aquilo que os políticos dizem. Acontece frequentemente o
cidadão assistir a uma intervenção produzida por um político, com a duração
de dez minutos, e depois estar durante uma hora a escutar três comentadores
que caridosamente lhe “explicam” aquilo que acabou de ouvir. É caso para
dizer que deveríamos passar a votar nos comentadores. Recapitulando: o político
“explica-nos” o mundo em que vivemos e o comentador “explica‑nos” a
explicação produzida pelo político. Estamos portanto a receber meta‑informação
de segundo grau, pelo menos, porque também há comentadores que discorrem
sobre as “explicações” dadas por outros comentadores e assim sucessivamente. Por este processo o mundo
real vai ficando cada vez mais longe, soterrado em camadas sucessivas de
“explicações” e a sua existência torna-se, no essencial, uma matéria de fé. Trata-se
da mais forte ameaça ao materialismo de que há memória. Os comentadores estão no
mesmo patamar dos videntes. Se é verdade que não “viram” uma qualquer
divindade também é verdade que se lhes “revelou” o mundo, o que não é feito
menor. E também eles, como os videntes, são comentadores por razões que
escapam aos comuns mortais, são por que são. No ponto a que as coisas
chegaram podemos vir a deparar com uma situação em que os políticos deixam de
se preocupar em agradar ao povo e passam a concentrar‑se na tarefa de
“ganhar” os comentadores; o resto virá por acréscimo. Já não estamos longe. Já há
quem assista a um atropelamento no Rossio mas precise de se convencer da
existência do facto dando um “salto” ao blog do Pacheco Pereira. Na fase final poderemos até correr o risco de ver o Sócrates decretar dois dias de luto nacional pela morte do ABRUPTO (Vá de retro Santanaz!!!). |