Informação Alternativa

Mundo

13/10/2004

 

Quando a verdade é substituída pelo silêncio,

o silêncio é uma mentira

 

John Pilger

Retirado de resistir.info

Em Outubro de 1999 visitei um hospital com crianças a morrerem em Bagdade em companhia de Denis Halliday, que no ano anterior renunciara ao cargo de assistente do secretário-geral das Nações Unidas. «Através das Nações Unidas estamos a travar uma guerra contra o povo do Iraque. Estamos a atingir civis. Pior, estamos a atingir crianças... O que dizer disto tudo?», perguntou ele.

Halliday estivera 34 anos na ONU. Como funcionário internacional muito respeitado no campo de «ajudar as pessoas, não prejudicá-las», como ele coloca, ele fora enviado ao Iraque para pôr em execução o programa petróleo por alimentos, o qual posteriormente denunciou como uma impostura. «Estou a renunciar», escreveu, «porque a política de sanções económicas está a destruir toda uma inteira sociedade. Cinco mil crianças estão a morrer todos os meses. Não quero administrar um programa que cumpre a definição de genocídio».

O sucessor de Halliday, Hans von Sponeck, outro assistente do secretário-geral com mais de trinta anos de serviço, também resignou em protesto. Jutta Burghardt, a responsável do Programa Mundial de Alimentos no Iraque, acompanhou-os, dizendo que não podia mais tolerar o que estava a ser feito ao povo iraquiano. A sua acção colectiva foi inédita, mas mereceu apenas uma atenção passageira por parte dos media. Não houve investigação séria de jornalistas às suas graves acusações contra os governos britânico e americano, os quais efectivamente prosseguiram o embargo.

A revelação de Von Sponek de que as sanções obrigavam os iraquianos a viverem com pouco mais de US$100 por ano não foram relatadas. «Estrangulamento deliberado», chamou ele a isto. Nem tão pouco o facto de que, até Julho de 2002, mais de US$ 5 mil milhões de valiosos abastecimentos humanitários, os quais haviam sido aprovados pelo comité de sanções da ONU e pagos pelo Iraque, foram bloqueados por George W. Bush, com o apoio de Tony Blair. Eles incluíam produtos alimentares, remédios e equipamento médico, bem como itens vitais para abastecimento de água, saúde pública, agricultura e educação.

O custo em vidas era estarrecedor. Entre 1991 e 1998, relatou a Unicef, morreram 500 mil crianças iraquianas com menos de cinco anos. «Se você incluir adultos», afirmou Halliday, «o número agora é quase certamente bem superior ao milhão». Em 1996, numa entrevista ao programa americano 60 minutos, sobre assuntos actuais, perguntaram a Madeleine Albright, então embaixadora americana na ONU, «Ouvimos que meio milhão de crianças morreu... valeu a pena pagar esse preço?» Resposta de Albright: «Nós pensamos que valeu a pena». Desde então a rede CBS de televisão tem-se recusado a permitir que o videotape daquela entrevista fosse mostrado outra vez, e o repórter não discutiu o assunto.

Halliday e von Sponek têm sido persona non grata na maior parte dos media americanos e britânicos. Aquilo que estes denunciantes haviam revelado é demasiado desagradável: não só o embargo era um grande crime contra a humanidade como realmente reforçava o controle de Saddam Hussein. A razão porque tantos iraquianos se sentem ressentidos em relação à invasão é também porque recordam o embargo anglo-americano como um cerco medieval, incapacitante, que os impediu de derrubar a sua ditadura. Isto quase nunca é relatado na Grã-Bretanha.

Halliday apareceu no Newsnight da BBC2 logo após a sua renúncia. Vi o apresentador Jeremy Paxman permitir a Peter Hain, então ministro do Foreign Office, ofendê-lo como um «apologista de Saddam». A vergonhosa actuação de Hain não era surpreendente. Na véspera da conferência daquele ano do Partido Trabalhista ele afastou o Iraque como uma «questão marginal».

Alan Rusbridger, o editor do Guardian, escreveu recentemente no New Statesman que alguns jornalistas «consideram mau costume empenhar-se em debates públicos sobre qualquer coisa que tenha a ver com ética ou padrões, que não importam para a finalidade fundamental do jornalismo». Isto constituía um bom ponto de partida da habitual conversa sociável que passa por comentário nos media mas que raramente se dirige à «finalidade fundamental do jornalismo» — e, especialmente, nunca aos seus silêncios letais e coniventes.

«Quando a verdade é substituída pelo silêncio», disse o dissidente soviético Yevgeny Yevtushenko, «o silêncio é uma mentira». Ele podia estar a referir-se ao silêncio sobre os efeitos devastadores do embargo. É um silêncio que transforma jornalistas em acessórios, assim como o seu silêncio contribuiu para uma invasão ilegal e não provocada de um país indefeso. Sim, havia muito ruído nos media antes da invasão, mas da versão fiada dominada por Blair, e os que diziam a verdade foram postos de lado. Scott Ritter era o inspector superior de armas da ONU no Iraque. Ritter começou a denunciar há mais de cinco anos quando declarou «Em 1998, a infra­‑estrutura de armas químicas [do Iraque] fora completamente desmantelada ou destruída pela Unscom... O programa de armas biológicas acabara, as maiores instalações foram eliminadas... O programa de mísseis balísticos de alcance longo estava completamente eliminado. Se eu tivesse de quantificar a ameaça do Iraque diria que é zero».

A verdade de Ritter mal foi reconhecida. Tal como Halliday e von Sponeck, ele quase nunca era mencionado nos noticiários da televisão, a principal fonte de informação da maior parte do povo. O estudado obscurecimento [obfuscation] de Hans Blix era muito mais aceitável como a “voz do equilíbrio”. Nunca foi questionado que Blix, tal como Kofi Annan, estivesse a efectuar os seus próprios jogos políticos com Washington.

Até à queda de Bagdade, a desinformação e as mentiras de Bush e Blair eram canalizadas, amplificadas e legitimadas pelos jornalistas, particularmente pelos da BBC, os quais definem a sua cobertura política pelos pronunciamentos, acontecimentos e personalidades de Whitehall e Westminster. Andrew Gilligan rompeu esta regra nas suas excelentes reportagens de Bagdade e posteriormente na revelação da mais importante fraude de Blair. É instrutivo que a maior parte dos ataques efectuados contra ele tivessem vindo dos seus colegas jornalistas.

Nos 18 meses cruciais que precederam o ataque ao Iraque, quando Bush e Blair estavam a planear secretamente a invasão, jornalistas famosos e bem pagos tornaram-se pouco mais do que canais, divulgadores dos divulgadores — aquilo que os franceses chamam de funcionários. O papel supremo dos jornalistas reais não é canalizar e sim desafiar, não é cair no silêncio e sim expor. Houve excepções honrosas, nomeadamente Richard Norton-Taylor no Guardian e o irrepreensível Robert Fisk no Independent. Dois jornais, o Mirror e o Independent , romperam as fileiras. Além de Gilligan e de mais um ou dois, os homens da comunicação fracassaram em reflectir o próprio assenso da consciência da verdade entre o público. Na rádio comercial, um importante jornalista que levantava demasiadas questões foi instruído a «baixar o tom do material anti-guerra porque os anunciantes não gostavam disso».

Nos Estados Unidos, nos chamados medias de referência do que é constitucionalmente a imprensa mais livre do mundo, a linha manteve-se, com o resultado de que as mentiras de Bush foram acreditadas pela maioria da população. Os jornalistas americanos estão agora a desculpar-se, mas é demasiado tarde. Os militares americanos estão fora de controle no Iraque, a bombardear áreas densamente populosas com impunidade. Quantas famílias iraquianas como a de Kenneth Bigley estão agora enlutadas? Não sentimos a sua angústia, nem ouvimos os seus apelos por misericórdia. Segundo estimativa recente, cerca de 37 mil iraquianos morreram nesta loucura grotesca.

Charles Lewis, o antigo repórter-estrela da CBS que agora dirige o Centre for Public Integrity, em Washington, DC, disse-me não ter dúvidas de que se os seus colegas tivessem cumprido a sua tarefa ao invés de actuarem como números (ciphers), a invasão não se teria verificado. Tal é o poder dos media modernos, um poder que deveríamos recuperar daqueles que o subvertem.