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Abril 2008 O que De Gaulle queria em 1966 Dominique Vidal Le Monde diplomatique –
edição portuguesa Ao abandonar o comando militar integrado da OTAN, o
general De Gaulle tinha como objectivo relançar a política externa francesa
de forma totalmente independente, e não tanto reformar a Aliança. «A França considera que
as mudanças concretizadas ou em vias de o serem, desde 1949, na Europa, na
Ásia e noutras regiões, bem como a evolução da sua própria situação e das
suas próprias forças, já não justificam, no que lhe diz respeito, as
disposições de ordem militar assumidas após a conclusão da Aliança.» Foi
assim que, a 7 de Março de 1966, Charles De Gaulle – reeleito presidente da
República três meses antes, mas por sufrágio universal directo, com 55 por
cento dos votos, contra 45 por cento de François Mitterrand – anunciou ao
presidente norte-americano Lyndon Baines Johnson a retirada de Paris do
comando militar integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN,
criada em 1949). Concretamente, a França
– sublinhou o general – «propõe-se recuperar, em todo o seu território, o
pleno exercício da sua soberania, actualmente limitado pela presença
permanente de efectivos militares aliados ou pela utilização costumeira do
seu espaço aéreo, cessar a sua participação nos comandos integrados e deixar
de pôr as suas forças à disposição da OTAN». A França estava, naturalmente,
«disposta a entender-se com [os seus aliados] no tocante às bases militares a
conceder mutuamente no caso de um conflito em que venha a envolver-se a seu
lado». Em suma, a França «considera que deve, no que lhe diz respeito,
modificar a forma da Aliança, sem lhe alterar o fundo». Um ano depois, isso
concretizou-se. A 14 de Março de 1967, o general americano Lyman Lemnitzer,
comandante supremo das forças aliadas na Europa (SACEUR) e das forças
americanas na Europa, presidiu, em Saint‑Germain-en-Laye [região
parisiense], à cerimónia da partida. A bandeira das estrelas, retirada e
cuidadosamente dobrada, foi depois erguida na nova sede de Casteau, perto de
Mons, na Bélgica. Os Estados Unidos tiveram de evacuar um total de 27.000
soldados, 37.000 empregados e 30 bases aéreas, terrestres e navais. Por
último, a 22 de Agosto, os generais Lyman Lemnitzer e Charles Ailleret, chefe
do estado-maior do exército francês, assinaram um protocolo que previa a
manutenção das forças francesas na Alemanha sob o controlo operacional da
OTAN, para missões e períodos de tempo determinados, em caso de agressão
externa… Para os observadores,
essa decisão não deveria ter sido uma surpresa. Já em 17 de Setembro de 1958,
menos de três meses após o seu regresso ao poder, De Gaulle enviara – em vão
– ao americano Dwight David Eisenhower e ao britânico Harold MacMillan um
memorando exigindo uma «direcção tripartida» da Aliança. E desde então tinha
vindo a distanciar-se. No entanto, a carta que dirigiu a Lyndon Johnson
parece ter surpreendido a imprensa parisiense. O diário L’Aurore, de direita mas antigaullista, foi o primeiro a
reagir, a 8 de Março: «Não devemos contentar‑nos com palavras»,
escreveu André Guérin. «A presença americana foi para nós e para os países
nossos vizinhos, durante anos, a única garantia das nossas liberdades
nacionais. Considerará agora o general que deixou de haver o perigo de uma
absorção comunista? Não», prossegue o editorialista, «mas ele exige que os
americanos se vão embora. Esperemos, ao menos, que não se esqueça de lhes
agradecer». No dia 11, o mesmo jornal acusa De Gaulle de dar «uma punhalada
nas costas» aos americanos «no preciso momento em que os Estados Unidos se
encontram por completo mobilizados na guerra do Vietname, bastião avançado do
mundo livre na Ásia». Pró-gaullista, o diário
Le Figaro esperou pelo dia 11 de Março
para reagir, receando André-François Poncet não apenas o ressurgimento do
«perigo russo» («Amanhã pode renascer um Estaline», escreveu ele), mas também
«outros perigos»: «Mao Tsé-tung é um outro Hitler. Em seu lugar pode surgir
um Gengis Khan, um Tamerlão, um Maomé, que, apetrechado com armas atómicas,
levará atrás de si as populações esfomeadas da Ásia e de África ao assalto
dos povos ricos e prósperos, ao assalto dos brancos e da sua civilização». A 12 de Março, o jornal
Combat defendeu uma orientação
diametralmente oposta a essa antecipada filosofia do “choque das civilizações”.
«Que a Aliança Atlântica se perpetue com base na hipótese, cada vez menos
verosímil, de uma agressão soviética, ainda vá. Mas que ela arraste a França
para todas as aventuras em que os Estados Unidos possam lançar-se, é o que o
general De Gaulle recusa. Porque, inebriados pelo seu poderio militar e
prosseguindo o caminho habitual, os Estados Unidos querem fazer reinar as
suas concepções em toda a parte.» Aludindo ao risco de uma guerra com a
China, o autor do artigo, Jean Fabiani, interrogava-se: «Em nome de que
obrigação competirá à França lançar-se nessa aventura?». O diário L’Humanité, logo a 8 de Março, sublinhou a singularidade dos
comunistas (que nesse tempo ainda representavam um em cada cinco eleitores):
«É certo», escrevia Yves Moreau, «que a nossa oposição ao pacto atlântico tem
um carácter fundamentalmente diferente da do poder gaullista. Nós denunciámos
o bloco atlântico, desde a sua criação, como uma nova Santa Aliança
reaccionária». O editorialista, no entanto, acrescentava: «Sejam quais forem
as razões que inspiraram a declaração do general De Gaulle ao presidente
Johnson, nós aprovamo-la, visto ela ir no sentido da desmilitarização e da
coexistência pacífica». Quatro décadas depois,
como podemos nós deixar de nos sentir impressionados, não só com a espantosa
actualidade desses debates, mas também com a coerência, a longo prazo, do
pensamento estratégico de De Gaulle? O general não era, evidentemente, anti‑americano;
provam-no a sua indefectível solidariedade com o grande aliado nas crises de
Berlim (1961) e de Cuba (1962). O que o motivou foi a defesa da soberania da
França e, portanto, da sua autonomia de decisão, contra quem quer que fosse
que a pusesse em causa, inclusive os Estados Unidos. Chefe da França livre,
fez fracassarem as tentativas anglo-saxónicas que visaram reduzir a França do
pós‑guerra a um estatuto de protectorado [1]. Chefe do governo
provisório da República francesa, assinou em Moscovo, em 10 de Dezembro de
1944, um «tratado de aliança e assistência mútua» que classificou como uma
«bela e boa aliança». Era preciso levar a cabo, explicou ele, «uma política
francesa de equilíbrio entre duas muito grandes potências, política que creio
ser absolutamente necessária aos interesses do país e até mesmo aos da paz»
[2]. A sua saída do governo, no início de 1946, e depois o início da Guerra
Fria, voltaram a pôr a França no regaço da Aliança Atlântica, nomeadamente
através da OTAN a partir de 1949. Quando em 1958 voltou
ao poder, De Gaulle continuou a sua busca de soberania apoiando-se num
contexto em plena mutação. As relações de forças entre o Leste e o Ocidente
evoluíram em função – entre outras coisas – do reforço da URSS, inclusive no
plano militar. Moscovo, que fez explodir uma bomba A em 1949 e uma bomba H em
1953, podia doravante (provou-o o voo do satélite Sputnik em 1957) atingir o
território dos Estados Unidos. E estes substituíram então a sua estratégia de
“represálias maciças” por uma “resposta flexível” (flexible response), baseada na utilização de armas nucleares no
campo de batalha. Essa viragem agravou um
receio: expostos aos mísseis soviéticos, iriam os americanos mover guerra à
URSS… até ao aniquilamento do último europeu? Como considerou De Gaulle, a
consciencialização dos limites da garantia nuclear americana deveria incitar
os vizinhos da França a desejar um reequilíbrio dos poderes no seio da
Aliança. Tanto mais que, segundo Washington, «a solidariedade ocidental,
pedra angular da Aliança, não deve ser “limitada aos problemas da zona do
Atlântico Norte”, devendo também “abarcar o conjunto dos problemas
Leste-Oeste seja onde for”» [3] – inclusive na Ásia. A reconstrução das
economias do Velho Continente e a fundação da Comunidade Económica Europeia
(nesse tempo com seis países membros [4]), na Primavera de 1957, criaram,
teoricamente, melhores condições para a afirmação da autonomia dos Estados
europeus relativamente aos Estados Unidos. Esperaria De Gaulle
ganhar essa batalha? Nas suas intervenções, tudo indica que ele não
subestimava a determinação de Washington de salvaguardar a sua hegemonia nem
a dificuldade que as capitais europeias tinham para se emanciparem dela. Em
relação aos seus vizinhos, a França tinha uma vantagem decisiva: em 1963
fizera explodir, no deserto do Sara, a sua primeira bomba atómica, possuindo
assim com que se defender – o Reino Unido também, mas este encontrava-se
visceralmente ligado a Washington. Quanto ao resto, o general sabia que
estava isolado; não sendo possível reformar a Aliança Atlântica, dar-se-ia
por satisfeito escapando a uma integração que espartilhava a sua política
externa. Não é pois de admirar
que na história desta última a retirada da OTAN surja como o eixo de uma
série de gestos espectaculares: – Paris foi a primeira
capital ocidental que estabeleceu relações diplomáticas com a China Popular
(27 de Janeiro de 1964); – De Gaulle fez uma
visita a Moscovo, onde, num discurso radiotelevisivo, apelou aos soviéticos e
aos franceses a «darem as mãos», para «procederem de maneira a que o nosso
velho continente, unido e já não dividido, volte a ter o papel capital que
lhe compete, com vista ao equilíbrio, ao progresso e à paz do universo» (30
de Junho de 1966); – em Phnom Penh, De
Gaulle assumiu que a guerra do Vietname «não terá uma solução militar»,
apelando aos Estados Unidos a «renunciarem, por sua vez, a uma expedição
longínqua, visto ela mostrar não ter benefícios nem justificação,
preferindo-lhe um acordo internacional que organize a paz e o desenvolvimento
de uma importante região do mundo» (1 de Setembro de 1966); – em Montreal, De
Gaulle concluiu uma alocução improvisada, na fronteira com os Estados Unidos,
formulando uma proposta chocante: «Viva o Quebeque livre!» (24 de Julho de
1967); – declarou que Israel,
depois da guerra de Junho, por ele condenada, «está a organizar, nos
territórios de que se apoderou, uma ocupação que necessariamente implica
opressão, repressão e expulsões, e onde se manifesta [contra o Estado
hebraico] uma resistência que este por sua vez classifica como terrorismo»…
(27 de Novembro de 1967). Mas essa notável
escapadela foi de curta duração. Depois da demissão do general, e
posteriormente, depois da sua morte, os seus sucessores – de Georges Pompidou
a François Mitterrand – voltaram a fazer esse caminho às avessas. E a França,
como se estivesse a preparar o trigésimo aniversário da carta a Lyndon
Johnson, reintegrou em 5 de Dezembro de 1995 o conselho dos ministros e o
comité militar da OTAN [5]. Herdeiro declarado do general De Gaulle, o
presidente Jacques Chirac abriu assim a porta a uma reintegração da França na
OTAN, que agora Nicolas Sarkozy tenta finalizar. ______ [1] Annie Lacroix-Riz, “Quando
os americanos queriam governar a França”, Le Monde diplomatique – edição
portuguesa, Maio de 2003. [2] Citado por Paul-Marie de La Gorce, “Le général de Gaulle et les
États-Unis”, Espoir, n.º 136, Paris,
Setembro de 2003. [3] Citado por Frédéric Bozo, “De Gaulle, l’Amérique et l’Alliance
atlantique. Une relecture de la crise de 1966”, Vingtième Siècle, n.º 43, Paris,
Julho-Setembro de 1994. [4] Alemanha Federal,
Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos. [5] Ler Paul-Marie de La Gorce,
“Retour honteux de la France dans l’OTAN”, Le Monde diplomatique,
Janeiro de 1996. |