Informação Alternativa

Portugal

14/12/2006

 

José Dias Coelho, artista militante e militante revolucionário

 

Margarida Tengarrinha

Avante!

 

O pintor, desenhador, escultor e poeta José Dias Coelho – o homem a quem José Afonso dedicou a canção “A morte saiu à rua” – foi assassinado pela PIDE há 45 anos, em Lisboa, com um tiro à queima-roupa. A data foi assinalada com um suplemento no jornal Avante!, do qual reproduzimos o texto de Margarida Tengarrinha, a artista com quem partilhou a vida, inclusive na clandestinidade.

 

José Dias Coelho tinha 38 anos quando uma brigada da PIDE o assassinou a tiro na antiga rua da Creche, que hoje tem o seu nome, em Alcântara.

 

Uma vida curta, desde muito cedo marcada por dois traços que iriam definir a sua personalidade: um raro talento artístico e a revolta contra as injustiças sociais e a opressão. Com treze/catorze anos, ainda estudante liceal, já era notado pela invulgar qualidade dos seus desenhos e a expressividade das caricaturas de colegas e professores. Vivia então em Castelo Branco, onde, pela proximidade da fronteira, se sentia fortemente a Guerra Civil de Espanha que seu pai, velho republicano, denunciava como um crime contra a Frente Popular e a República livremente eleita pelo povo espanhol.

 

A Guernica de Picasso (arrasada pelo bombardeamento da aviação nazi em 1937), assim como a pomba por ele desenhada para o Movimento Mundial da Paz, iriam ser para o Zé referências marcantes no seu percurso artístico e na sua opção política. Por isso, desde a primeira biografia do Zé que escrevi para a edição de A Resistência em Portugal editada em 1963 na União Soviética, lhe chamei Artista Militante e Militante Revolucionário, os dois traços indissociáveis do seu carácter, que iriam marcar o seu percurso de vida.

 

Escrevi então: «Artista militante e militante revolucionário, chegou a um momento da sua vida em que decidiu conscientemente sacrificar a sua actividade artística para continuar, no quadro de funcionários do Partido Comunista Português, o combate pelo derrubamento do fascismo e por um Portugal socialista. Foi um grande sacrifício. Mas nunca o ouvi pronunciar a palavra sacrifício.»

 

O ARTISTA MILITANTE

 

Como artista militante, José Dias Coelho teve uma participação activa na organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAPs), fazendo parte do núcleo inicial desde a primeira realizada em 1946 e expositor desde a segunda.

 

No decurso dos dez anos em que estas exposições decorreram ficou bem claro o importante papel que elas desempenharam quer na renovação do panorama artístico português, quer na unidade antifascista dos intelectuais.

 

José Dias Coelho tinha-se matriculado na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1942, e foi contemporâneo de Júlio Pomar, Victor Palla, Sá Nogueira, Fernando Azevedo, Vespeira e outros, que iriam influenciar o percurso das artes plásticas em Portugal. Desde logo mostraram o seu inconformismo com os padrões fossilizados que então vigoravam na EBAL.

 

Em 1943, Júlio Pomar publica um artigo intitulado “Da necessidade de uma Exposição de Arte Moderna” e em 1945 organiza com Victor Palla a “Exposição Independente”, em Lisboa, onde participam outros jovens artistas. Tornava­‑se premente a necessidade de um espaço mais amplo e mais aberto a novas correntes e à liberdade de expressão artística, o que levou à organização da primeira Exposição Geral de Artes Plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA). Isto tornou-se possível porque a direcção da SNBA tinha sido renovada, no decurso de um trabalho persistente para a alteração da correlação de forças através da adesão de sócios jovens e progressistas. Trabalho a que José Dias Coelho não foi alheio.

 

Com a sua perspicácia política e a sua capacidade para desenvolver os largos consensos que as EGAPs implicavam, ele soube dinamizar um trabalho colectivo em que participaram, ao longo de dez anos, artistas de várias correntes e sensibilidades. E assim, as EGAPs abriram as suas portas e congregaram unitariamente desde neo-realistas a surrealistas, naturalistas e abstractos, que de comum tinham o facto de negar­‑se a pactuar com a orientação definida por Salazar como a “política do espírito”, e que António Ferro procurava levar à prática no campo da cultura e particularmente nas artes plásticas, com o seu Secretariado de Propaganda Nacional (mais tarde Secretariado Nacional de Informação – SNI), que fora criado em 1933 segundo a matriz nazi, adaptada inteligentemente às nossas condições nacionais. Sem que se exercessem pressões nem censuras de carácter político ou estético, nas EGAPs reuniam-se os artistas que tinham, de forma mais ou menos explícita, ideais antifascistas.

 

E é um facto incontroverso que elas conglomeraram o que de mais válido e significativo surgiu então nas artes plásticas em Portugal. Constituíram, como era objectivo do núcleo organizador, uma ampla abertura para a apresentação de manifestações artísticas que lutavam pela conquista da expressão livre, pelo que a cada artista interessava exprimir como fundo e forma. Acolheram pela primeira vez a fotografia como expressão artística e deram um incremento enorme à gravura nas suas várias modalidades, dentro do critério de que a gravura é uma das formas de arte que mais facilita a multiplicação e a divulgação ampla entre as camadas populares. Também pela primeira vez foram expostos maquetes e projectos arquitectónicos modernos e inovadores.

 

NOVOS ARTISTAS

 

Com as EGAPs, a arte portuguesa encontrou o veículo adequado para o embate contra os obscurantismos estéticos, contra as limitações impostas por um meio restritivo e preconceituoso. E é assim que nas EGAPs, ao lado de artistas consagrados e mais idosos como o Mestre Abel Manta, Carlos Botelho, Mário Dionísio, Arlindo Vicente, Avelino Cunhal e o arquitecto Keil do Amaral, surgem com a força e a pujança da juventude novas camadas de artistas que iriam afirmar-se no futuro como artistas marcantes na arte portuguesa. Entre eles Júlio Pomar, Rolando Sá Nogueira, Rogério Ribeiro, João Hogan, João Abel Manta, Alice Jorge, Cipriano Dourado, Lima de Freitas, Maria Keil, Pavia, António Alfredo, Querubim Lapa, Jorge Vieira, Vasco da Conceição, Maria Barreira, Lagoa Henriques, Guilherme Casquilho, os arquitectos Castro Rodrigues, Victor Palla, Sena da Silva, Celestino de Castro, Conceição e Silva, Torres e muitos outros que se contavam entre os amigos de Dias Coelho e junto dos quais manteve uma influência política, quer no âmbito do Partido, quer do MUD Juvenil, na luta pela Paz, ou simplesmente na consciência antifascista.

 

Com muitos deles irá travar batalhas contra os métodos pedagógicos arcaicos na Escola de Belas Artes e pela eleição de júris idóneos e abertos à modernidade das exposições na Sociedade Nacional de Belas Artes, lutas de grande amplitude unitária, que levaram à demissão do director da ESBAL, o incompetente Cunha “Bruto”, da cadeira que leccionava e à expulsão de sócio da SNBA do pintor do regime Eduardo Malta, no decurso de uma provocação por ele montada contra Dias Coelho, incidente que levou ao encerramento da SNBA como retaliação.

 

Quando a décima e última Geral de Artes Plásticas se realizou em 1956, já Dias Coelho militava há cerca de um ano na clandestinidade. Os colegas e amigos que a organizaram fizeram questão de marcar a presença do ausente expondo uma escultura sua, para que o seu nome figurasse no catálogo. Com esta acção de solidariedade discreta, mas significativa, eles quiseram prestar assim homenagem ao colega que tinha partido para outras batalhas.

 

O MILITANTE REVOLUCIONÁRIO

 

Dias Coelho teve uma activa participação em todas as lutas políticas e estudantis dos anos quarenta e cinquenta, com maiores responsabilidades de direcção a partir da criação do MUD Juvenil, em 1946. É nessas lutas que conhece e se liga com profunda amizade a jovens que iriam encabeçar os movimentos de libertação colonial como Agostinho Neto, Vasco Cabral, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral e Orlando Costa.

 

Com a sua capacidade de mobilização, Dias Coelho dirige as grandes movimentações dos estudantes de Belas Artes pela Paz, particularmente quando da reunião ministerial do Pacto do Atlântico, em 1952, no Instituto Superior Técnico, pelo que é expulso, quer como aluno, quer da Escola Marquês de Pombal onde lecciona.

 

Adere ao Partido Comunista em finais dos anos quarenta, sendo preso pela PIDE em 1949 como activista na campanha eleitoral de Norton de Matos.

 

No decurso das variadas actividades antifascistas em que ia participando ou dirigindo, Dias Coelho foi reatando antigas ligações, ou criando novas amizades com intelectuais do meio literário como Manuel Mendes e sua mulher “Bá”, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, do teatro como Manuela Porto, Artur Ramos e Rogério Paulo, da música como Fernando Lopes Graça e João Freitas Branco, entre outros, que mobilizava para acções comuns. O seu papel constituiu assim um importante factor de alargamento da frente intelectual antifascista, que nunca permitiu espaço de manobra e de credibilidade aos intelectuais servidores do regime.

 

ENTRADA PARA A CLANDESTINIDADE

 

Quando Pires Jorge o convidou para passar à clandestinidade, José Dias Coelho estava num momento da sua carreira de escultor em que se abriam boas perspectivas, não só porque começava a ser conhecido e a receber críticas muito elogiosas, como aconteceu com as cabeças de Alves Redol, Fernando Namora e outras obras, como porque tinha recebido várias e importantes encomendas públicas e particulares de grupos escultóricos e baixo­‑relevos.

 

Foram estas perspectivas promissoras e esta carreira artística que ele abandonou em 1955, com a certeza de que não poderia (nem queria) voltar atrás, para encetar um caminho de dedicação total como funcionário do Partido, sabendo que a sua tarefa iria ser montar uma oficina de falsificação de documentos, bilhetes de identidade, licenças de bicicleta, cartas de condução, passaportes, etc., para defesa dos militantes clandestinos no trabalho de organização e nas relações internacionais do Partido. Tinha também à sua responsabilidade parte do aparelho de passagem de fronteira. Tudo tão diferente da sua vida de escultor e dos seus hábitos de convívio e tertúlias da agitada vida cultural da Lisboa de então.

 

Foi um trabalho que encetámos com a consciência da importância que representava para a defesa dos quadros funcionários; assim como compreendemos a necessidade de fotografar o arquivo histórico do Partido, para a sua redução a menores dimensões, mais fáceis de transportar e esconder e, por sugestão do camarada Álvaro Cunhal, aproveitámos a informação disponível de parte do arquivo para escrevermos um livro, que serviu para a divulgação da luta antifascista e do papel histórico do PCP na vanguarda desse duro combate. Livro que irá ser lançado no próximo dia 19 de Dezembro, na sua sétima edição e quarta em língua portuguesa.

 

Quando, em fins de 1960, inícios de 61, mudámos definitivamente de tarefa, José Dias Coelho passou a integrar a direcção partidária de Lisboa, com a responsabilidade do sector intelectual. Tomou então uma nova dimensão a sua extraordinária capacidade de alargar a influência política do Partido, factor fundamental para o fortalecimento da oposição ao fascismo no seu conjunto. Viviam-se tempos difíceis para a unidade antifascista, quando Salazar concentrava todas as forças do seu brutal aparelho repressivo contra o Partido e visava as principais personalidades da oposição democrática não comunista que considerava susceptíveis de alinhar com os comunistas, criando-lhes dificuldades a nível profissional, de emprego e carreira, fazendo-lhes uma marcação cerrada, com a sua eficaz táctica de intimidar e de tirar o pão aos adversários. Era notória a retracção entre muitos intelectuais e oposicionistas em relação aos contactos com militantes ou funcionários do Partido, além de que surgiam justificações de teor ideológico, que não eram mais do que cobertura para o medo da repressão.

 

O ANO DE 1961

 

É neste quadro que José Dias Coelho consegue fazer um importante trabalho unitário de preparação para as eleições de 12 de Novembro de 1961, graças, em grande medida, ao prestígio que ainda mantinha no meio, à sua capacidade de diálogo, num clima de tolerância e abertura, que não excluía a firmeza de princípios e convicções. A campanha da oposição decorreu num clima de uma larga agitação política que tinha como fulcro o repúdio e desmascaramento da guerra colonial iniciada no princípio do ano.

 

O ano de 1961 foi um ano de forte abalo no regime fascista, com o assalto ao paquete “Santa Maria” por Henrique Galvão, a guerra colonial, as manifestações contra a burla eleitoral em que foi assassinado um camarada em Almada, a fuga em 4 de Dezembro de um grupo de dirigentes comunistas no carro blindado de Salazar da prisão de Caxias, a queda de Goa, início da derrocada do império colonial português.

 

Salazar, desesperado e raivoso pelos sucessivos reveses que o regime vinha sofrendo, exigiu ao chefe da PIDE a intensificação dos métodos repressivos.

 

A partir de 15 de Dezembro foram efectuadas sucessivas prisões de camaradas da direcção do Partido.

 

José Dias Coelho, responsável de um sector extremamente vulnerável, foi detectado pela brigada da PIDE chefiada pelo criminoso José Gonçalves, especialista da vigilância de rua, e, já agarrado por dois agentes, Manuel Lavado e Pedro Ferreira, assassinado com um tiro disparado no peito, à queima roupa, pelo pide António Domingues.

 

Um mês antes, ele tinha feito duas gravuras para o Avante! da segunda quinzena de Novembro: uma representava Cândido Martins caído na frente da manifestação de Almada contra a burla eleitoral e o retrato deste camarada. Foi o Zé que escreveu a legenda para a gravura: «De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz nascer as mais copiosas searas».

 

A ARTE DE DIAS COELHO

 

Quer na escultura, quer no desenho de José Dias Coelho, nota-se uma busca constante da simplicidade formal. É isto que transmite uma grande força às suas esculturas, compactas, densas, despojadas de pormenores inúteis, em planos e curvas modelados pela luz.

 

A sua escultura, sempre figurativa, desenvolve no entanto um jogo de volumes e perfis muito sóbrios, que conferem à composição uma simplicidade quase geométrica. Esta característica é acentuada pelo facto de, na maior parte das cabeças e em todos os grupos escultóricos, a modelação do barro ser lisa. Na passagem ao gesso as superfícies são quase polidas, permitindo que a luz as percorra sem entraves. Excepção a este tratamento são as cabeças de Fernando Namora e de Tomás de Figueiredo, cuja modelação permite visualizar o movimento dos dedos modelando o barro, o que naturalmente se deve ao propósito de caracterizar o modelo.

Grande parte das suas esculturas são retratos de amigos, colegas e familiares, extraordinariamente bem conseguidos, com uma semelhança notável e uma grande economia de meios. Dias Coelho consegue marcar o carácter do retratado pelos seus traços essenciais, como acontece com as cabeças de Alves Redol, Fernando Namora, Maria Eugénia Cunhal, de sua mãe, da irmã Maria Sofia e tantos outros.

 

No desenho, quer a carvão, quer a tinta da china, a procura da simplicidade permite que se revele a sensibilidade de traço rara e de grande delicadeza.

 

Foram particularmente apreciados alguns, como os retratos a carvão da mãe e de sua irmã Maria Emília, que obtiveram uma menção honrosa e uma medalha, respectivamente, nos Salões da SNBA.

 

Um tipo de desenho especialmente bem conseguido são os grupos de pares a que deu o título geral de “Líricas”, a tinta da china e com um traço muito puro.

 

As gravuras para a imprensa clandestina, executadas durante os anos em que viveu na clandestinidade, são hoje amplamente divulgadas e representam uma participação importante para a melhoria gráfica da imprensa do Partido. Estas linogravuras ilustraram e sublinharam muitos artigos do jornal Avante!, do boletim Portugal­‑URSS, e muitas foram executadas para servir de cabeçalhos a vários órgãos da imprensa clandestina para sectores específicos, como para A Voz das Camaradas, e jornais A Terra, O Ferroviário, Amanhã.