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28/02/2007 A nova lei do petróleo no Iraque Alejandro
Nadal Esta semana, a administração títere do Iraque aprovou a chamada Lei
do Petróleo, com a qual mostra uma vez mais a verdadeira razão da invasão estadunidense.
Esta nova peça da ocupação preenche uma lacuna muito polémica. O espectáculo
não é agradável. Para começar, a Lei do Petróleo não é de todo compatível com a
Constituição aprovada em 2005, pois enquanto a legislação afirma que o
petróleo é propriedade do povo do Iraque (artigo 109), a Lei do petróleo
estabelece que a propriedade do petróleo e do gás natural no Iraque é do
Conselho Iraquiano do Petróleo e do Gás (CIPG). Entre os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(OPEP), o Iraque ocupa o terceiro lugar em reservas provadas (115 mil milhões
de barris), atrás da Arábia Saudita e do Irão. De quem é o petróleo? Do povo
do Iraque ou do Conselho? A hierarquia das leis poderia indicar que deve
prevalecer a Constituição: o petróleo pertence ao povo do Iraque. Mas no fim
de contas, o debate é irrelevante porque a Constituição nada diz sobre a
gestão destes recursos. Isso converte o CIPG no órgão chave da política
petrolífera no Iraque. O mal é que o CIPG é uma estrutura criada por um
governo que não pode respirar sem o apoio do invasor. Para rematar a abertura ao petróleo iraquiano, a nova lei estabelece
que no CIPG estarão representadas as «principais companhias relacionadas com
o petróleo» (artigo 5.C). Podemos facilmente adivinhar quais são estas
empresas. Estiveram à margem da indústria petrolífera do Iraque durante os
anos da ditadura de Saddam Hussein. Agora as coisas mudaram e podem
regressar. O interessante é que George W. Bush assegurou‑nos uma e
outra vez que a guerra contra o Iraque nada tinha a ver com o petróleo. A nova lei estabelece que o Conselho de Ministros é a autoridade que
aprova a política petrolífera. Mas na prática, o CIPG é o organismo chave que
tem a iniciativa de propor, aplicar, supervisionar e reformar as políticas
que se decidiriam no Conselho de Ministros. O CIPG deve definir os critérios
e as condições para as concessões de exploração e produção primária,
construção e operação de oleodutos, transferências destas concessões,
direitos e regalias. Claro, a Lei do petróleo também assinala que tudo isso
se fará seguindo as «melhores práticas» da indústria do petróleo a nível
mundial. Isto sim faz-nos sentir optimistas. Em matéria de solução de conflitos, a lei do petróleo parece-se com
os acordos bilaterais de investimentos que o Banco Mundial e a OMC tanto
promovem. As disputas resolvem-se de acordo com a lei iraquiana, mas em lugar
de tribunais desse país, os problemas serão resolvidos por meio da arbitragem
internacional, seja pelos Procedimentos de Paris ou pelos da Câmara de
Comércio de Genebra. Neste ponto, a lei do petróleo é clara: no país ocupado
não existe Poder Judicial. Um tema que prima pela ausência é o das divisas para as transacções
(exportações de crude e gás) realizadas pelas companhias que operarem no
Iraque. Perante a omissão da lei, podemos supor que ficarão excluídos os
pagamentos em euros ou noutras divisas diferentes do dólar estadunidense. Os
curdos cederam neste ponto e para efeitos práticos o Iraque será um baluarte
da economia dos petrodólares. Segundo a lei, o Ministério do Petróleo fica encarregue de
representar o Iraque nos fóruns internacionais e assinar acordos bilaterais
ou internacionais (artigo 5). Mas não se faz menção à OPEP, criada
precisamente na Conferência de Bagdade em 1960. Oficialmente, o Iraque
continua a ser membro do cartel do petróleo: em certo sentido, isso converte
os Estados Unidos num membro de facto da OPEP. Ironia ou efeito deliberado da
invasão de Março de 2003? O certo é que, desde que a guerra no Iraque começou, os Estados
Unidos apoiaram uma política de preços altos para o crude mundial. O delegado
do Iraque/Washington nas reuniões da OPEP votou sempre a favor de cortes na
produção. Num oligopólio, isso prejudica os consumidores e beneficia os
produtores e intermediários. No próprio Iraque, a produção foi reduzida 40 por cento em relação
aos níveis dos tempos de Saddam Hussein (grosso modo, de 2,9 a
1,7 milhões de barris diários). Os principais beneficiários desta política de
preços altos do crude são as grandes companhias petrolíferas dos Estados
Unidos e da Europa Ocidental. Assim, enquanto o Pentágono prepara planos de bombardeamento do Irão, a administração Bush favorece o lóbi petrolífero mundial. Com razão, Cheney (antes do atentado no Afeganistão) tinha declarado que com a nova lei se tinha conseguido um grande avanço no longo caminho para a estabilidade democrática no Iraque. |