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12/02/2007 O negócio dos mercenários no Iraque Juan
Carlos Díaz Guerrero El Corresponsal de Medio
Oriente y Africa Não importa a sua origem nem de que países provêm: são uma massa de
homens bem treinados no ofício de matar por dinheiro que, em número de cem
mil, cumprem as mais diversas missões no Iraque. Os chamados contratados fazem parte desse bem organizado negócio no
qual a administração de George W. Bush converteu esse país árabe desde a sua
invasão e posterior ocupação em Março de 2003. As suas obrigações laborais estão concentradas na segurança pessoal
de políticos iraquianos e dos EUA, de homens de negócios, de empresários, e
abarcam também a segurança das instalações petrolíferas e militares ou outros
serviços. Muitas destas prestações, ainda que pouco se fale deles, estão
ligados a funções antes reservadas às forças castrenses, tais como a
construção de bases, logística, interrogatórios e acções de combate. No âmbito iraquiano, são acusados de intervir em operações secretas
dos organismos de informações norte‑americanos e noutros trabalhos
sujos destinados a promover o terror, o medo, as diferenças religiosas e,
inclusive, a organização de esquadrões da morte para semear o caos. Peruanos, chilenos, colombianos, hondurenhos e equatorianos, sul-africanos,
irlandeses, estadunidenses, iraquianos, russos, filipinos, turcos, nepaleses,
hindus, ucranianos, entre outros, compõem a variada gama de nacionalidades
desses elementos especializados nas tenebrosas artes da subversão. A versão electrónica do jornal The Washington Post, que cita
um censo do Comando Central dos EUA, revelou que pelo menos cem mil
assalariados operam no país árabe contratados pelo governo dos Estados
Unidos. O número quadruplica os existentes em 2003; deles, 48.000 trabalham
como soldados privados, indicou um informe do Escritório Geral de Contabilidade
(GAO, em inglês). O Departamento de Trabalho norte‑americano admite que 650
desses empregados morreram desde o início da guerra, a maior parte de
nacionalidade desconhecida e com funções também ignoradas. NEGÓCIOS E EMPRESAS O chefe de Operações Militares do Ministério do Interior iraquiano,
Mohamed Niama, estima em 236 o número de empresas privadas, estrangeiras e
nacionais, que cumprem tarefas de segurança na nação do Golfo Pérsico. É significativo que a maior parte, 200, sejam consideradas ilegais
por se desconhecerem as suas funções e carecerem de registo legal. Niama
reconhece que a maioria dos seus proprietários estão implicados em actos
terroristas. A contratação desses especialistas estende-se a todo o país, mas em
Bagdade adquire especial predomínio pela falta de segurança que prevalece, a qual
obriga políticos e empresários a recorrer a esses mercenários estrangeiros «para
impedir infiltrações» de nacionais, comentou o porta-voz do Congresso de
Deputados. Em Janeiro passado, o presidente do Parlamento, Mahmud Mashhadani,
disse que uma comissão de segurança contratará os serviços de uma empresa
sul-africana para a sua protecção e a do resto dos deputados. Outra modalidade, muito em voga entre as autoridades iraquianas, é
utilizar familiares, amigos ou pessoas do mesmo grupo étnico ou confessional
como guarda-costas. Um exemplo: a ministra dos Direitos Humanos, Uichdan Salem,
contratou por sua conta 20 escoltas, recomendados pelos seus familiares ou
seus conhecidos. As grandes empresas de contratadores têm sede na Grã-Bretanha e nos
Estados Unidos; neste último país, estima‑se que haja três dezenas de
companhias dedicadas a esse lucrativo negócio. Uma dessas empresas é a Blackwater Consulting Company, especializada
em contra‑terrorismo e combates urbanos, e uma das maiores com
operações no Iraque: conta com um exército multinacional calculado em três
mil membros. A empresa é considerada a maior base militar privada do mundo, com
campos de treino sofisticados, dezenas de aviões, 20 mil soldados treinados e
vínculos muito estreitos com as altas esferas do Pentágono e da Casa Branca. O negócio da contratação abarca, além disso, outras empresas que se
encarregam de fornecer apetrechos bélicos ao exército dos Estados Unidos e de
ajudar na “reconstrução”, como as corporações Lockheed Martin, General
Dynamics, Northrop Grumman e a famosa Halliburton. Informações indicam que a imensa maioria das empresas destinadas à
produção de armamentos triplicaram as acções desde o começo da ocupação do
Iraque e os seus lucros cresceram em mais de 10 por cento. Analistas consideram que o aumento dos activos destas corporações
está ligado em parte ao aumento do orçamento da Secretaria da Defesa. Desde 2001, as verbas destinadas à Defesa cresceram mais de 50%, de
300.000 milhões a 445.000 milhões em 2007. Em 2005, responsáveis da CIA revelaram ao Washington Post que
50% do orçamento da instituição, 20 mil milhões de dólares, foi destinado a pagar
contratados privados. O livro publicado pelo Brookings Institution refere que o fenómeno
da contratação gera por ano uns 100.000 milhões de dólares e há estimativas
que apontam para que suba para o dobro em 2010. ILEGALIDADES, VIOLAÇÕES E MAUS TRATOS A total impunidade com que operam os contratados no país árabe
converte esta força, a segunda maior em homens depois das tropas americanas
de ocupação (140.000 homens), numa máquina de destruição e de morte. O analista diplomático Pedrag Simic vaticina que à medida em que os
aliados da coligação se retirem, mais mercenários tomarão os seus postos. Para o Exército e para o governo dos EUA, o negócio é muito
vantajoso se se tiver em conta que são simples assalariados em busca de
fortuna e que ao morrer não entram na grande lista oficial de baixas, nem são
envolvidos em discussões legais ou pressionados pela opinião pública. Estes soldados da fortuna arriscam-se a morrer no Iraque por
salários que ascendem aos mil dólares por dia, impossíveis de conseguir nas
suas nações de origem. Na recente visita a países latino-americanos, o Grupo de Trabalho da
ONU sobre o uso de mercenários verificou que as contratações são possíveis
graças a enormes irregularidades e vazios legais existentes, como é o caso do
Peru. José Luis Gómez del Prado, membro do grupo de trabalho, disse que
mais de mil peruanos oferecem os seus serviços em condições incertas no país árabe,
onde predomina o risco para as suas vidas, as longas jornadas de trabalho e
vivem amontoados. O especialista exprimiu a falta total de transparência nas
contratações pela inexistência de controlos sobre a forma como são recrutados
ou sobre as condições em que trabalham. Um informe publicado pelo diário El Mercurio, de Lima,
denunciou que a violência não é o único risco que correm os peruanos no
Iraque; também sofrem maus tratos, discriminações e humilhações por parte da empresa
empregadora estadunidense Triple Canopy. Ainda que o fenómeno do mercenarismo não seja novo, este cresceu com
a chegada de Bush à Casa Branca, cujo filho a fez florescer a níveis
imprevistos com a sua chamada guerra ao terrorismo em 60 ou mais países, que
identificava como “cantos obscuros” do mundo. Com outros tantos regulamentos, a administração estadunidense converteu em letra morta a Convenção Internacional contra o Recrutamento, a Utilização, o Financiamento e o Treino de Mercenários, aprovada pela ONU em 1989 e assinada até agora por 28 países. |