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02/04/2007 O primeiro mês do resto da ocupação Jorge Costa Março foi rico em balanços. Revendo nos media quatro anos de guerra
e a evolução dantesca do Iraque ocupado, um sentimento de impotência assalta
qualquer pessoa de bem. Mas Março não foi só mês de retrospectiva: foi um dos
mais trágicos da aventura sangrenta de Bush. O mês terminou com a declaração
lapidar de um criminoso encartado: como refere Michael Moore, «sabes que
perdeste uma guerra quando Henry Kissinger diz que a perdeste». Num livro acabado de publicar em Portugal, Identidade e Violência
(ed. Tinta da China), uma voz moderada denuncia radicalmente o fundo da
guerra civil aberta no Iraque. Trata-se de Amartya Sen, economista indiano e
prémio Nobel: «a integridade do Iraque é dificultada por muitos factores
históricos, incluindo o carácter arbitrário das suas fronteiras, determinadas
por colonialistas ocidentais, e o carácter inevitavelmente divisor de uma
intervenção militar arbitrária e mal informada. Mas, para além disso, a
abordagem política dos líderes da ocupação, baseada nas seitas, tem
alimentado um fogo que já existia anteriormente». De facto, a libertação
imperial do Iraque cedo assumiu as práticas de sempre – dividir para reinar –
e esse foi o caminho para um lento mas seguro agravamento das tensões étnicas
e religiosas, exploradas e favorecidas por Washington. Em Março, esse processo teve momentos extremos, com o atentado de
Tal-Anfar (mais de 150 mortos) e mais de dois mil mortos, sobretudo civis, ao
longo do mês. Os números da “vivissecção do Iraque”, como lhe chama Amartya
Sen, são objecto de um estudo recente da revista científica britânica The
Lancet, que aponta para 600 mil pessoas (7% da população adulta do país)
mortas pela violência que a ocupação instalou. Os governos inglês e norte‑americano
começaram por recusar esta estatística, mas em Março foi o próprio
conselheiro científico de Tony Blair a reconhecer [1] que o método usado pela
universidade John Hopkins e pela Lancet é «próprio das melhores
práticas» e «amplamente testado na medição da mortalidade em conflitos». Em
suma, os ocupantes conhecem a dimensão do seu crime. Bush e Blair sabem que
os aguarda um lugar na galeria dos monstros que marcaram o século passado. Com a situação no Iraque no pior cenário, a indústria militar tem
razões para festejar: também em Março, foi conhecido o orçamento do Pentágono
para 2008, nada menos que metade da despesa militar mundial (não chegava a
30% há duas décadas atrás). Mesmo a braços com as dívidas gémeas da economia
norte‑americana, Bush não pára de gastar em morte e destruição. No
Iraque, os contribuintes norte-americanos esbanjam hoje mais do que no pico
da guerra do Vietname, dados ajustados à inflação. Dinheiro não falta, mas
degrada‑se o consenso político interno sobre estas opções. Tomam a
palavra o movimento contra a guerra, as famílias dos soldados, e mesmo o
Partido Democrata, hoje maioritário na Câmara de Representantes e no Senado,
incluiu na aprovação do orçamento para o Iraque uma data indicativa para a
retirada – Agosto de 2008. O léxico da derrota está cada vez mais presente
nos discursos em Washington: depois dos conselhos cépticos de James Baker, é
agora o próprio Henry Kissinger que anuncia que a guerra está perdida. Em
Março, o número de soldados norte-americanos mortos no Iraque atingiu os
3200. Não é um número redondo. Mas acaba de superar, no conflito iraquiano, o
número de vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001, momento fundador
da narrativa do “choque de civilizações” e da guerra infinita em que o
império está a lançar o mundo. Março foi um retrato forte da guerra. Na capital da super-potência,
o embaraço militar pode não evitar a irracionalidade total. No Iraque, a ocupação
recolhe a violência que ajudou a semear. Mas, na descida aos infernos, é o
povo pobre que dá o sangue e lá fica. As tropas de ocupação são... vítimas
colaterais, esperando a ordem de voltar para casa. ______ [1] Jill Lawless, British backtrack on Iraq death
toll, The Independent, 27/02/2007. |