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22/03/2007 Mercenários no Iraque André Levy Em Janeiro, Bush anunciou o envio de mais 21.500 tropas
estadunidenses para o Iraque, uma escalada que recupera o nível de forças
presentes no final de 2005 (160 mil tropas [1]), o mais alto depois da
invasão. O anúncio teve particular impacto por contrariar a vontade popular
claramente favorável a uma retirada e expressa eleitoralmente em Novembro
passado: a administração Bush planeia ocupar o Iraque indefinidamente. A
escalada implica adicionalmente o envio de sete mil tropas de apoio,
incluindo 2200 polícias militares para lidar com os prisioneiros resultantes
das detenções previstas na cidade de Bagdade [2]. Face aos seus objectivos, este reforço tornava-se necessário já que
a “coligação dos dispostos” se está a desarticular. À retirada significativa
da Espanha, após a vitória de Zapatero, seguem-se as retiradas do Iraque dos
contingentes da Dinamarca e Polónia, e a redução dos da Correia do Sul e
Grã-Bretanha. Note-se, porém, que, em muitos destes casos, à redução de
tropas no Iraque correspondeu um aumento da presença desses mesmos países no
Afeganistão, onde a situação está progressivamente mais fora de controle dos
ocupantes. A ocupação estrangeira do Iraque, porém, não se resume ao nível das
tropas de combate. Igualmente significativo é a presença de 100.000 civis a
trabalhar para empresas privadas, incluindo 48 mil forças de segurança
privadas. O uso de empresas privadas pelas forças militares dos EUA remete
para o fim da Guerra Fria, quando o Pentágono, sob a liderança de Dick
Cheney, pensou manter algum nível de operacionalidade e poupar custos fazendo
o outsourcing de alguns aspectos logísticos. Contratou-se então a
Halliburton [3], empresa que Cheney viria a presidir após sair da Casa Branca,
e que actualmente, quer directamente quer através da subsidiária KBR, é o
principal fornecedor de apoio logístico das forças militares no Iraque, tendo
recebido já 20 mil milhões de dólares para garantir, por exemplo, a
respectiva alimentação, lavandaria e limpeza das latrinas. E não há
sentimento patriótico que iniba a ganância do capital: a KBR tem sido acusada
de cobrar por refeições nunca servidas, por cobrar em demasia pelo
combustível e por quase dois mil milhões de dólares em despesas não identificadas. Embora o uso de empresas privadas [4] não seja novidade, durante a
actual ocupação do Iraque estas têm sido usadas de forma mais extensiva e
central: durante a primeira guerra do Golfo, haveria um privado para cada 50
militares; na invasão de 2003, o rácio já seria de 1 para 10 (a KBR construía
bases militares no Kuwait um mês antes da invasão); e durante a ocupação esse
rácio ronda os 1 para 2. Significativo é também o uso de forças de segurança
privadas, ou mercenários, que constituem a segunda maior força de ocupação, não
estando articuladas na cadeia de comando militar, funcionando à sua margem e
cuja responsabilidade está muitas vezes mascarada por uma névoa de
contratações e subcontratações. Geram-se assim problemas resultantes da saída
de operações das empresas, quando a situação se torna demasiado perigosa, e
da falta de coordenação entre as empresas e os militares. Para tentar
coordenar operações, a Autoridade Provisional da Coligação... contratou uma
empresa, a Aegis, ao som de 300 milhões de dólares. Os mercenários não se limitam a garantir a segurança de jornalistas
e empresários. São também eles, e não os militares, os responsáveis pela
segurança de agentes do governo dos EUA. A Erinys – nome da deusa grega que
persegue e pune – é responsável pela segurança do Corpo de Engenheiros. A
Blackwater [5] foi responsável pela segurança de Paul Bremer, John Negroponte
e de Zalmay Khalilzad, o actual embaixador dos EUA. Esta guarda pretoriana
percorre impunemente o Iraque em SUVs e helicópteros armados, sendo
responsável por incontáveis mortes de civis, e constituindo um alvo natural
das forças resistentes – mais de 650 mercenários foram mortos no Iraque desde
2003. Esta matriz das forças militares e mercenárias vem dando novo
significado ao termo “complexo militar-industrial”. ______ [1] www.globalsecurity.org/military/ops/iraq_orbat_es.htm [2] David S. Cloud e
Michael R. Gordon, Additional U.S. troops in Iraq may
need to stay until 2008, International Herald
Tribune, 8 de Março de 2007. [3] Ver Dan Biody, The
Halliburton Agenda: The Politics of Oil and Money. Wiley, 2004. [4] Ver Paul W. Singer, Corporate
Warriors: The Rise of the Privatized Military Industry. Cornell Univ.
Press, 2004. [5] Jeremy Scahill, Blackwater:
The Rise of the World's Most Powerful Mercenary Army. Nation Books, 2007. |