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09/11/2006 Nova democracia Anabela Fino O presidente norte-americano, George Bush, considerou a sentença que
condenou à morte Saddam Hussein como uma «importante conquista para a jovem
democracia do Iraque e para o seu governo constitucional». Afinando pelo
mesmo diapasão, a secretária de Estado, Condolezza Rice, prestou homenagem
«aos valentes iraquianos, sejam juizes, promotores ou advogados de defesa,
que trabalham diariamente em prol da justiça, da democracia e do Estado de
Direito no Iraque». Já o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, o primeiro a
saudar a sentença, não encontrou outra forma de exprimir a sua satisfação do
que afirmar que a condenação representa «um bom dia para o povo iraquiano» e
uma prova da «independência» do Poder judicial. No Iraque propriamente dito, o “Estado de Direito”, para evitar
reacções à sentença, impôs o recolher obrigatório, impediu a saída dos
principais diários do país durante três dias, encerrou por tempo indefinido
duas estações televisivas sunitas. Anteriormente, numa manifestação de “democracia”
a toda a prova, o primeiro‑ministro al Maliki pediu a execução de
Saddam, enquanto o “Estado de Direito” assistiu impassível ao sucessivo
assassinato de advogados de defesa e testemunhas, substituiu juizes por
alegada “condescendência” com Hussein, expulsou várias vezes o réu da sala de
audiências, impediu-o de responder ou cortou-lhe o som para que o seu
depoimento não fosse audível, e acatou sem pestanejar as normas respeitantes
ao julgamento impostas pelos assessores norte-americanos, incluindo a que
restringia, muito convenientemente, a jurisdição do tribunal apenas a
cidadãos iraquianos. Por tudo isto os iraquianos – que pagaram 128 milhões de dólares
pelo funcionamento do “tribunal”, de acordo com o orçamento aprovado no
congresso... norte-americano – não só não puderam acompanhar as sessões do “independente”
julgamento, realizadas à porta fechada, como também não terão acesso no
futuro a qualquer registo completo do sucedido na sala de audiências. De
referir ainda que na “jovem democracia” iraquiana apenas jornalistas
norte-americanos e iraquianos seleccionados tiveram acesso ao julgamento, e
que o mundo foi informado muito democraticamente do desenrolar do processo através
de vídeos com a chancela “Aprovado pelo Exército dos EUA”. Mas tudo isto são pormenores que não tiram o sono a quem se
congratula com a condenação à morte de Saddam Hussein pela matança de 143
pessoas em 1982, na povoação de Duyail, mas que faz por esquecer e fazer
esquecer os milhares de comunistas iraquianos mortos, presos e torturados quando
Saddam ainda não era um ditador mas um amigo dos EUA. Para cimentar a “democracia”, o que é preciso é que Saddam morra
depressa e sem oportunidade de abrir a boca, não vá ter a veleidade de querer
contar quem ajudou o seu regime a desenvolver armas bacteriológicas ou até,
segundo garantem algumas fontes, a apontar o dedo a responsáveis do
laboratório Pasteur ou à empresa norte-americana Brechtel, que financia as
campanhas eleitorais de Bush. Para que a “democracia” iraquiana siga em frente, o que é preciso é consagrar a pena de morte no novo regime, ter a certeza que cada julgamento “justo” condene os réus incómodos para os EUA, garantir que o governo terá sempre à mão um assessor norte-americano e assegurar que a imprensa está domesticada ou convenientemente calada. Os tempos do “Bom dia Vietname” já lá vão. O “silêncio é de ouro” passou a ser a ordem do dia. |