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06/11/2006 Democracia? Helena Garrido [Sobre este artigo, lê‑se na Nota
da ComRed do TMI-AP: É inquestionável o interesse da posição assumida
neste artigo, a que o DN
deu o relevo de Editorial no passado dia 6. Por isso o divulgamos, embora não
se tome, nele, uma posição acerca do crime de fundo que é a própria invasão,
ocupação e destruição do Iraque. Criticam-se “exageros”. Algo, no entanto,
está a mudar para que este Editorial possa acontecer.] «A União Europeia opõe-se à pena de morte em todos os casos e
circunstâncias e apela a que não se aplique» a Saddam Hussein. A reacção da
presidência finlandesa da UE à decisão de condenar à morte o ex‑líder
iraquiano é o espelho da alma da civilização europeia. É assim lamentável ver um país como o Reino Unido, um símbolo
histórico da democracia, da liberdade e da defesa dos direitos humanos,
congratular-se, pela voz da ministra dos Negócios Estrangeiros, Margaret
Beckett, com a decisão do designado Alto Tribunal Iraquiano sem pelo menos
condenar a pena de morte. Todos condenamos as atrocidades cometidas pelo regime de Saddam Hussein.
Mas nenhum de nós, europeus, pode orgulhar-se da forma como foi julgado e da
sentença ontem proferida. Advogados de defesa assassinados, juízes substituídos, testemunhas
amedrontadas e um tribunal sem independência do poder político e a funcionar
num país em guerra descrevem o ambiente em que foram julgados os oito réus.
Pode alguém no universo dos países que se consideram defensores do Estado de
direito considerar este julgamento justo? E pode alguém defensor da dignidade
humana concordar com a pena de morte? Os líderes europeus, incluindo o Reino Unido, subscreveram a Carta
de Direitos Fundamentais na Cimeira de Nice a 7 de Dezembro de 2001. Aí se
pode ler, logo no segundo artigo, que ninguém pode ser condenado à pena de
morte nem executado. E esse é o caminho que a União Europeia quer e deve
seguir. O único que se identifica com o seu projecto e que lhe permitirá ser
uma alternativa aos caminhos que o mundo segue hoje nas mãos da Administração
Bush. É aterrador olhar para o que se passou no Iraque e no mundo desde
que Saddam Hussein foi deposto em Março de 2003. A prisão de Guantánamo, os
abusos das forças armadas norte-americanas e britânicas no Iraque e a guerra
que desde então ali se vive rivalizam com as atrocidades cometidas pelo
ditador Saddam. A arrogância de impor eleições sem liberdade e respeito pelos
direitos humanos é a negação da democracia. É convidar à revolta e cavar
fundo o fosso que separa as ditaduras das democracias. Validar um julgamento com regras quase iguais às do ditador e aceitar a pena de morte faz de nós cúmplices das atrocidades de Saddam. E apenas alimenta a raiva que gera terroristas e abre portas a mais ditadores. Os Estados Unidos e o Reino Unido parecem estar a combater contra a democracia. |