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12/10/2006 EUA, máquina de morte Editorial O estudo realizado pela Faculdade de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade
Johns Hopkins, e divulgado ontem pela revista médica The Lancet,
indica que a taxa de mortalidade no Iraque praticamente triplicou desde a
invasão anglo‑estadunidense, ao passar de 5,5 para 13,3 por cada mil
pessoas; que as mortes violentas, quase inexistentes até Março de 2003,
somam, de então até à data, mais de 600 mil, e que outros 54 mil óbitos se
devem a factores relacionados com a ocupação militar estrangeira. Em suma, a
investigação, que se realizou com base em entrevistas em lares e em
procedimentos estatísticos e demoscópicos, mostra que a agressão de
Washington ao Iraque teve como consequência o falecimento de umas 655 mil
pessoas – 654 mil 965 é o número exacto – entre 18 de Março de 2003 e 30 de
Junho do presente ano, óbitos que estão «para além do que se poderia esperar
com base nas taxas brutas de mortalidade prévias à invasão», segundo indica o
relatório. Das mortes violentas, 31 por cento – mais de 186 mil – são
atribuíveis às forças estrangeiras. A diferença entre os números do estudo da Faculdade Bloomberg e os
reportados por outras fontes, especialmente a iniciativa civil Iraqi Body
Count (IBC, contagem de cadáveres iraquianos), que cifra a quantidade de
mortos devido à invasão e à ocupação estadunidense entre 43 mil 850 e 48 mil
693, explica‑se pelas diferenças metodológicas: enquanto a segunda se
limita a registrar os óbitos que aparecem em meios informativos, a primeira
combinou o trabalho de inquéritos em lares com uma extrapolação estatística
aplicada com critérios epidemiológicos. Em Dezembro do ano passado, o
presidente George W. Bush admitiu, num discurso, que a sua aventura bélica
tinha custado a vida a uns 30 mil iraquianos, número 20 vezes menor que o
dado a conhecer ontem por The Lancet. Para colocar os números em contexto, é preciso recordar que os
governos ocidentais denunciaram com insistência os massacres perpetrados no
Darfur, Sudão, que causaram umas 200 mil mortes num período semelhante – 31
meses – ao estudado no Iraque pela Faculdade Bloomberg, e que a intervenção
estadunidense no Vietname se saldou pela morte de uns 3 milhões de civis. Assim cotejado, o custo monstruoso da invasão e ocupação do Iraque
é, em primeira instância, uma terrível acusação aos governos ocidentais e às
suas alegações “humanitárias”: o pior massacre em curso no mundo, hoje em
dia, ocorre sob os seus narizes, sem que nenhum deles tenha tido, até agora,
a vontade para o denunciar. A hipócrita consternação da Europa perante a
violação dos direitos humanos em países alheios à sua esfera não se aplica
quando dois dos sócios principais da NATO assassinam centenas de milhares de
iraquianas ou criam as condições para que outras centenas de milhares morram
de forma violenta. De outro ponto de vista, as 186 mil baixas atribuíveis às forças
invasoras são demasiadas para que possam considerar‑se efeito de
“erros”, isto é, “baixas colaterais”. Mas são também excessivas para as
incluir na descrição de “terroristas estrangeiros” empregada por Washington
para se referir aos seus alvos bélicos no Iraque. Mesmo somando as categorias
de civis não combatentes e de alvos militares “legítimos”, na soma não cabem
tantos mortos. Destas inconsequências desprendem-se duas conclusões que são, de
certa forma, uma só: por um lado, se as forças anglo‑estadunidenses
mataram 186 mil iraquianos em 39 meses – 4 mil 769 por mês, 158 por dia,
quase sete por hora, mais de um em cada 10 minutos –, resulta patentemente
claro que um dos propósitos centrais da sua missão é, pura e simplesmente,
matar iraquianos; por outro, é evidente que nenhuma “organização terrorista”
e nenhuma soma de agrupamentos rebeldes teria sido capaz de sofrer tal
quantidade de baixas sem desaparecer; o único grupo humano capaz de
sobreviver a tal carnificina é a própria população do Iraque, a qual perdeu,
no decurso desta guerra criminosa, 2,5 por cento dos seus integrantes. O que mostram os números referidos é que o mundo assiste a uma guerra em que se enfrentam uma vontade genocida e de extermínio contra uma decisão nacional de resistência aos ocupantes, e que o governo mais poderoso do planeta tem estado a cometer, com a cumplicidade activa ou passiva das nações “civilizadas”, um crime contra a humanidade comparável aos genocídios no Vietname e no Campucheia, e muito pior que as atrocidades ocorridas na Bósnia na década passada. Volta a repetir-se, em suma, o que, depois da derrota da Alemanha nazi, a comunidade internacional prometeu a si mesma não permitir nunca mais. |