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30/06/2006 Zona
de guerra: apontados para serem assassinados, cientistas iraquianos nomeados numa lista negra Richard Stone Se quiserem saber como a vida está difícil para os cientistas do
Iraque, nos dias que correm, basta perguntar a Nazar Al-Anbaky. Na Primavera
de 2005, um amigo próximo, o agrónomo Awad Esa, director-geral dos serviços
de extensão do Ministério da Agricultura, foi morto a tiro por homens
mascarados quando ia a sair do emprego. Outro colega, Rafid Abdel Alkarim,
chefe dos serviços de protecção dos animais, fugiu do Iraque após ter
sobrevivido a duas tentativas de assassinato. Perante as ameaças persistentes,
no Outono passado o ministério dispersou o seu pessoal pela cidade de
Bagdade. «Eu não conseguia trabalhar. O perigo estava por todo o lado», diz
Al-Anbaky, subchefe do departamento de investigação de protecção das plantas.
Por isso, em Março, também ele se foi embora do Iraque. Há meses que os universitários iraquianos denunciam o que consideram
ser uma inconfessada campanha para mutilar a elite intelectual do país (ver a
Science de 30 de Setembro de 2005, pg. 2156). Agora estão a enfrentar
uma evidente nova ameaça. Um grupo não identificado está a fazer circular uma
lista de 461 intelectuais iraquianos. A existência de folhetos que apelam ao
assassinato dos indivíduos que estão na lista foi noticiada no mês passado
pelo jornal Az-Zaman; a Science teve acesso a uma cópia dessa
lista, cuja autenticidade foi verificada por vários cientistas iraquianos. Na
semana passada, os reitores de seis universidades espanholas publicaram uma
declaração que denuncia «um grave ataque contra o desenvolvimento cultural e
científico» do Iraque e exige às autoridades que investiguem a «campanha de
assassinatos» [1]. Para os cientistas iraquianos visados, essa lista só vem agravar uma
situação já de si desesperada. Desde que a coligação liderada pelos EUA
invadiu o país em Abril de 2003, pelo menos 188 universitários iraquianos
foram chacinados, como se depreende duma declaração da Campanha Estatal
contra a Ocupação e pela Soberania do Iraque (CEOSI), com sede em Madrid.
Durante os últimos três anos foi aumentando a frequência dos assassinatos
(ver gráfico). Durante esse período cerca de 220 médicos foram mortos e mais
de 1000 deixaram o Iraque, segundo informou o ministro da Saúde em Fevereiro
último. Centenas de cientistas fugiram do país. «Esta drenagem de massa
cinzenta irá afectar muito o desenvolvimento do Iraque nos anos vindouros»,
diz Jafar Jafar, chefe do programa nuclear do Iraque no tempo de Saddam
Hussein. Jafar, director-geral da Uruk Engineering Services no Dubai, diz ter
ajudado «muitos amigos e conhecidos» a encontrar empregos no estrangeiro.
Assassinato
de universitários iraquianos: O seu número tem aumentado
constantemente desde a invasão de Abril de 2003 Os assassinos são mal conhecidos. Alguns dos crimes são sectários:
milícias sunitas alvejam universitários xiitas, e vice‑versa. Todavia,
duma forma geral, os assassinatos «não obedecem a qualquer padrão religioso
ou sectário», afirma Ismail Jalili, cirurgião oftalmologista que apresentou
uma análise em profundidade na conferência realizada em Madrid no mês de Abril. Nalguns casos, o móbil é o dinheiro. Uma vítima recente, Ali Hassan
Mahawish, deão de Engenharia da Universidade de Al-Mustansiriya, em Bagdade,
que havia contado à Science, em Setembro passado, que um grupo de
professores do seu departamento tinha partido para o estrangeiro em férias
sabáticas, provocando um vazio na faculdade, foi raptado por homens armados
em Março. «O resgate foi pago, mas a família recebeu de volta um cadáver»,
diz-nos um colega dele, em Bagdade, que pediu o anonimato. O caso mais recente
diz respeito ao cientista do petróleo Muthna Al-Badery, quadro superior do
Ministério do Petróleo, que foi raptado no princípio de Junho. «Continuamos a
negociar a vida dele», disse aquele cientista de Bagdade. A lista dos alvos
inclui cientistas, representantes universitários, engenheiros, médicos e
jornalistas, em Bagdade e noutras cidades. «Essa lista faz parte duma
campanha organizada, e apoiada pelo estrangeiro, para aterrorizar a massa
cinzenta iraquiana», disse ao Az-Zaman um representante da Associação dos
Escritores Iraquianos. Nenhum dos contactos da Science sabe quem
elaborou essa lista. Um cientista eminente, que tem laços com a comunidade de
espionagem, disse que os agentes iraquianos andam a investigar alegações de
envolvimento de agentes da secreta iraniana. A embaixada dos EUA, através do
seu porta-voz Dennis Culkin, diz não ter conhecimento dessa lista. Mas uma
coisa é certa: A campanha cobriu com uma mortalha toda a academia do Iraque.
Como dizia um professor de engenharia que está a tentar sair de Bagdade: «Todos
os dias, quando vamos trabalhar, levamos o nosso caixão connosco». ______ [1] Ler Reitores condenam publicamente violência no Iraque e assassinato dos seus docentes universitários, IraqSolidaridad, 15/06/2006 (n. IA). |