|
Informação Alternativa |
|
Iraque |
|
05/05/2006 A mãe de todas as embaixadas Stefano Chiarini Il
Manifesto; traduzido de Le Grand Soir;
retirado de Resistir Uma verdadeira cidadela fortificada, maior que o estado do Vaticano
e “mais segura do que o Pentágono” está em vias de surgir em Bagdade. Dia a
dia, nas margens do Tigre, na “zona verde” onde se encontram os palácios de
Saddam Hussein, mais de 900 operários e construtores vindos dos países mais
pobres da Ásia ali a constróem. Trata-se da nova embaixada dos EUA, de mil
milhões de dólares, ainda que o Congresso não tenha por enquanto “libertado”
senão 592 milhões de dólares. É a maior e a mais fortificada do mundo,
estende‑se sobre mais de 42 hectares na zona onde outrora se
encontravam os gabinetes do partido Baath. Para ter uma ideia da sua extensão, a área equivale a cerca de 80
estádios de futebol ou seis vezes aquela da sede das Nações Unidas em Nova
York. Os trabalhos efectuam-se na maior discrição mas, segundo um relatório
da Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado americano, o complexo será
composto por 21 edifícios. Dois serão destinados ao embaixador e o seu
adjunto, os outros aos escritórios, aos empregados e aos serviços. Em
funcionamento pleno, ali trabalharão 8000 pessoas e ela tornar-se-á o cérebro
da administração colonial do Iraque, apenas escondida por trás de figuras locais
dos diversos líderes iraquianos ocupados em repartir as migalhas que caem da
mesa dos ocupantes. O facto de a nova embaixada se encontrar praticamente ao lado do
palácio de Saddam, que ela ultrapassará em grandeza, majestade e
funcionalidade – equivalente nas dimensões a três Millenium Dome – bem como
aos edifícios onde se reúnem o parlamento e o governo iraquianos, é uma
mensagem clara para o povo iraquiano, e para o mundo, sobre quem realmente
governa o país, e sobre as intenções de Washington de continuar a ocupar o
Iraque durante anos. A cidadela imperial será praticamente inatacável da terra e do céu,
cercada por um muro com cinco metros de espessura, com seis portas de
entradas e saídas ultra-seguras e uma sétima de saídas de emergência (se as
coisas correrem verdadeiramente mal) para o aeroporto, e defendida por
baterias de mísseis terra‑ar e terra‑terra e por uma grande
caserna de marines. O aspecto mais impressionante da nova embaixada é o seu isolamento
total do resto da capital iraquiana. Ao contrário dos velhos palácios
coloniais britânicos, a cidadela estadunidense será como uma astronave
aterrada no centro de Bagdade, completamente auto-suficiente: ela terá os
seus próprios poços para o abastecimento de água, uma central eléctrica, um
sistema de recolha e tratamento de lixo, o seu próprio sistema de esgotos, a
maior piscina da cidade, restaurantes, snacks, cinemas, ginásios e um sistema
de comunicações interno. Bagdade cai em ruínas, mas nas bases estadunidenses – nesta tal como
nas outras 14 disseminadas por todo o Iraque – a vida continua a decorrer nas
mil comodidades de uma tranquila província americana. Uma província governada
pela Bíblia e pelo código militar no qual, por exemplo, ao contrário do que
se passa nos Estados Unidos, o aborto é estritamente proibido. Os soldados do império, totalmente ignorantes acerca do lugar onde
estarão, verão assim o Iraque apenas através dos visores dos seus tanques e
das miras ópticas dos seus fuzis. Um projecto que lembra muito aquele da
transformação do exército estadunidense numa espécie de “cavalaria mundial” –
elaborado nos documentos do American Enterprise Institute – podendo sair dos
seus fortins, atacar as “forças do mal” e retornar a seguir às suas cidadelas
fortificadas. A nova cidade proibida estadunidense, já denominada “o palácio
Bush”, a “mãe de todas as embaixadas” – a megalomania do projecto fá-lo
parecer como os palácios de Saddam – poderia ser definida como a maior
estação de combustíveis do mundo, graças à qual os EUA poderão continuar a dilapidar
as riquezas do planeta e poluir a terra, o ar e a água. Como isto se passa no
Iraque onde, graças aos “acordos desiguais” com o governo fantoche local,
eles não só se apropriaram desta vasta zona sem pagar um centavo como
impuseram a extra‑territorialidade de todas as suas estruturas e a
impunidade absoluta para os seus homens. A nova embaixada, o único projecto de construção imobiliária estadunidense no Iraque que, por enquanto, está dentro dos prazos previstos e das despesas programadas, foi confiado na maior parte a uma empresa kuwaitiana, a First Kuwaiti Trading (dirigida por Wadi al Absi, um cristão maronita libanês) e a seis outras empresas, das quais cinco estadunidenses. A sociedade de Wadi al Abdi, com mais de 7000 empregados no Iraque, foi criticada várias vezes por diversos organismos humanitários, assim como por empreiteiros e responsáveis estadunidenses, pelas muito más condições de vida e de trabalho dos seus empregados, transferidos em massa para a Mesopotâmia a partir dos países mais pobres da Ásia: jornadas de 12 horas de trabalho, ausência de todas as condições de segurança. Verdadeiros escravos utilizados para construir as pirâmides do novo faraó americano. |