Informação Alternativa

Iraque

25/05/2006

 

A milícia de al-Sadr garante o seu domínio sobre o ministério da Saúde

 

Dan Murphy

Christian Science Monitor; traduzido de IraqSolidaridad; retirado de TMI-AP

 

Os EUA estimulam, no Iraque, uma política de favorecimento das seitas religiosas e de acirramento das diferenças regionais ou étnicas. É neste contexto que tem vindo a inscrever-se a conduta dúplice do grupo xiita de Moqtada Al-Sadr. Embora tenha chegado, em 2004, ao confronto armado com os ocupantes, esta facção decidiu desde o primeiro processo “eleitoral” sob ocupação, em Janeiro de 2005, apostar numa conquista de lugares no poder tutelado pelos EUA. É desde então parte activa na luta sectária que tende a dividir o Iraque, colocando-se assim fora da corrente formada pela resistência nacional iraquiana, frontalmente contrária às divisões sectárias e ao desmembramento do Iraque. (Nota da redacção de TMI-AP)

 

Depois de tomar posse, na semana passada, o primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki destacou duas grandes prioridades: reafirmar o monopólio [da força] do governo sobre forças criminosas, dissolvendo as milícias, e acabar com a generalizada corrupção política [1]. Mas basta passar um dia no ministério iraquiano da Saúde para se compreender a tarefa gigantesca que al-Maliki assumiu.

 

Numa manhã, há poucos dias, seis homens carregavam um simples caixão de madeira com um parente, numa desconjuntada carrinha Toyota, enquanto uma mulher da família, vestida com uma ondulante abaya preta, continha as lágrimas. Os guardas que estavam ao lado limitavam-se a olhar uma cena demasiado frequente.

 

O ministério [da Saúde] é dirigido pelo movimento confessional xiita do clérigo Moqtada al-Sadr, um dos principais apoios com que conta al-Maliki. No contexto político de corrupção que emergiu no Iraque desde que os EUA invadiram o país, o ministério criou um programa de empregos e admissões que gerou oportunidades para os seus partidários. Mas, com os pistoleiros xiitas que se mantêm ali mesmo à sua porta, o próprio ministério se converteu numa fonte de preocupações e frustrações, especialmente para os árabes sunitas.

 

A segurança do ministério e da morgue contígua é controlada pelo Exército do Mahdi, a milícia leal a al­‑Sadr, que foi acusada de organizar esquadrões da morte sectários. Do mesmo modo, o ministério do Interior iraquiano, que dirige a polícia e os serviços de informações internas, esteve controlado durante mais de um ano por um dirigente do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque (CSRII) e também foi acusado de dirigir esquadrões da morte. As suas forças nutrem-se de membros da Brigada Sadr, a milícia do partido que esteve grandemente implicada em torturas e assassinatos [2]. «O problema reside fundamentalmente na maneira como as milícias se incorporaram na policia, mas não é esse o único problema», afirma John Pace, que foi director da Missão de Direitos Humanos das Nações Unidas em Bagdade até à sua partida em Fevereiro. «O Iraque tem um ministério dos Direitos Humanos, mas é mais ou menos decorativo», assinala.

 

Desde que, no ano passado, nomearam ministro da Saúde um partidário de al-Sadr, os seus funcionários mais antigos afirmam que partidários dele foram admitidos no serviço de protecção de instalações do ministério da Saúde. Médicos e enfermeiras dos hospitais de Bagdade – pedindo-nos sempre o anonimato das suas declarações – queixam-se de que os lugares administrativos foram atribuídos a pessoas sem qualificação, mas deste movimento. Tais problemas eram evidentes, e sobre eles houve muita informação, antes de, no último fim de semana, ser anunciado o novo gabinete. Mas al-Sadr manteve o controlo do ministério.

 

Esta decisão insere-se no cálculo parlamentar de que al-Maliki precisava para construir uma coligação parlamentar o mais ampla possível, mas poderia parecer que tornava muito mais difíceis de atingir os seus objectivos de desarmar as milícias e de acabar com a corrupção. O movimento al-Sadr obteve também os ministérios da Agricultura, dos Transportes e da Educação [3]. Ao ministro cessante [do Interior], também do CSRII, foi dada a pasta da Economia.

 

Aqueles que controlam o ministério da Saúde não procuram esconder as suas lealdades fundamentais. Uma das primeiras coisas que, agora, vêem os visitantes do seu edifício principal é um cartaz, de uns três metros e meio de altura, de al-Sadr junto do seu pai, o aiatola Mohamed Sadek al-Sadr, um clérigo supostamente assassinado pelo regime de Saddam Hussein. Vêem-se dezenas de cartazes mais pequenos, dos dois, espalhados por todo o complexo, a maioria deles com as famosas palavras de ordem anti­‑estadunidenses de al-Sadr filho.

 

Os médicos e funcionários do ministério da Saúde em Bagdade deram provas duma grande dedicação para preservar e melhorar a vida dos seus concidadãos, trabalhando com recursos limitados e sob a ameaça de serem assassinados. Mas o próprio ministério, situado como está junto da principal morgue da cidade para as vítimas de assassinatos, é agora a sede de rituais diários de profunda dor e de intimidação.

 

Os grupos políticos queixam-se de que os sunitas que tentam recuperar os corpos dos seus familiares na morgue (que recebe uma media de 37 vítimas de assassinato por dia) foram, eles próprios, sequestrados ou assassinados pelas milícias que trabalham nesse local. Os residentes de Bagdade que entrevistámos queixam­‑se de que lhes é exigido um suborno de 100 dólares para reclamarem um corpo para sepultar. «Sequestraram o meu primo; não pudemos pagar o resgate exigido, e então disseram-nos que o fôssemos buscar à morgue», diz um residente de Bagdade. «Quando lá chegamos, [os guardas] exigiram-nos 1.000 dólares e foram arranjando pretextos e mais pretextos – que era um terrorista que fora morto pelos estadunidenses – para pagarmos mais. Finalmente lá conseguimos negociar até reduzir a quantia para 100 dólares». Este homem afirma que outro grupo de amigos, também árabes sunitas, foi rodeado por eles na morgue quando foram buscar o corpo de um familiar, e que os encapuzaram e os levaram para um centro de interrogatórios onde os torturaram e interrogaram durante um dia. A sorte deles, diz, foi que um outro membro da família tinha um bom contacto próximo de al-Sadr e conseguiu que os libertassem.

 

A criação pelos EUA do Serviço de Provisão de Segurança (SPS), em fins de 2003, com o qual se pretendia proteger as infra­‑estruturas iraquianas e as instalações do governo dos ataques da resistência, parece ter proporcionado uma porta falsa para a infiltração das milícias mesmo nos ministérios – como o da Saúde – que obviamente nada têm a ver com a segurança [4].

 

No princípio de Maio, o ministro do Interior cessante, Bayan Jabr Solagh, afirmou que os comandos que estavam sob o seu controlo tinham sido injustamente acusados de dirigir os esquadrões da morte e afirmou que a maior parte das culpas são do SPS. O seu partido, o CSRII, e o movimento de al-Sadr são inimigos ferrenhos. Fontes do ministério do Interior indicaram que, durante uma rusga conjunta iraquiana­‑estadunidense para libertar dez homens sequestrados em Jan Bani Saad, cidade sunita a norte de Bagdade, se pôde comprovar que alguns dos sequestradores eram xiitas com insígnias do SPS do ministério da Saúde. Um alto funcionário de al­‑Sadr, o xeque Abbas al-Zubaydi, confirma o incidente, mas afirma que o seu significado foi distorcido: «Naquela cidade houve um combate entre terroristas e residentes inocentes. Os nossos homens foram ajudar e capturaram alguns dos criminosos. Estavam a cumprir o seu dever – eu próprio teria gostado de lá estar», afirma.

 

Actualmente, no ministério da Saúde, a protecção dos seus serviços de segurança parece ir muito para além de controlar se os visitantes levam armas ou cinturões suicidas. O que, até fins de 2005, era uma informação de rotina sobre as visitas à morgue – a melhor maneira de verificar o nível de mortes violentas em Bagdade – tornou­‑se agora um campo minado de frustração e de ameaças implícitas. Quando uma pessoa obtinha uma autorização dos serviços do ministério dos Assuntos Públicos, apresentava-a na secretaria do director da morgue. Mas agora esta manda imediatamente a pessoa à secção de segurança do complexo [sanitário]. «O director está ali, mas primeiro é preciso ir falar com o major Kassem». «Porquê? Porque sim...».

 

Do lado de fora, o major Kassem está numa pequena rulote com ar condicionado. Tem um sorriso largo e não veste uniforme ou quaisquer insígnias. Quando lhe perguntamos quais são as suas funções, explica: «Trabalho para o ministério do Interior, mas fui encarregado de vir aqui coordenar o SPS». Então explica que não é preciso falar com funcionários do ministério, pois ele nos dará toda a informação disponível. Fornece­‑nos os números totais de assassinatos desde o princípio do ano, embora funcionários da ONU e políticos árabes sunitas digam que o ministro apresenta números muito abaixo da realidade, pressionado pelas milícias xiitas. Quando lhe perguntamos se é possível visitar a morgue, Kassem diz que não o recomendaria: «Quem sabe? Se entrar ali, é sempre possível alguém dar-lhe um tiro pelas costas». Todo o complexo pode ser um lugar perigoso, afirma. Pergunta-nos se, quando chegámos, vimos aquele iraquiano de meia idade que estava sentado numa cadeira. «Pois bem. É um perigoso terrorista, e acabamos de o prender». O homem não está amarrado, nem há armas apontadas contra ele. Kassem explica que tinha vindo reclamar o corpo dum parente assassinado em Dora, um violento bairro sunita [da capital] e que foi assim que o capturaram. «O irmão dele foi morto ontem quando atacava a polícia em Dora, e quando veio levantar o corpo é que o prendemos», disse. Quando lhe perguntamos como sabe que este homem é culpado, responde: «Oh! nós sabemos essas coisas!».

 

Omar al-Jiburi, director do Serviço de Direitos Humanos do Partido Islâmico Iraquiano, importante grupo político árabe sunita, afirma que a violência por parte das milícias xiitas na morgue e nos hospitais de Bagdade se tornou algo de quotidiano. Afirma que, desde o início do ano, assassinaram 275 civis, sequestrados nas instalações médicas:

 

«Poderia dizer-se que é o exército Mahdi. Mas agora os próprios ministérios têm milícias lá dentro. Ostentam insígnias e recebem salários oficiais. Por isso não sei bem como lhes devemos chamar».

 

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[1] Ver em IraqSolidaridad: Carlos Varea, Nuevo gobierno en Iraq: inestable reparto sectario - La lista del nuevo gobierno.

[2] Ver em IraqSolidaridad: Andrew Buncombe e Patrick Cockburn, Miles de personas han sido asesinadas en los últimos meses por los “Escuadrones de la muerte”; Carlos Varea, El pueblo iraquí considera mayoritariamente que la ocupación empeora la situación interna; Max Fuller, Tortura y asesinatos extrajudiciales en Iraq; Mahan Abedin, Badr, Irán y los nuevos cuerpos de seguridad iraquíes.

[3] Ver em IraqSolidaridad: Pedro Rojo e Carlos Varea, ¿Está jugando Irán a la "resistencia" en Basora?.

[4] Ver em IraqSolidaridad: Carlos Varea, Iraq, Estado de terror. 146.000 iraquíes integran ejércitos privados sin control alguno - Amenazados de muerte 461 intelectuales en una nueva lista negra.