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02/06/2006 Seminário internacional realizado em Madrid: Testemunhos e Declaração Final – Assassinato de professores e profissionais de saúde no Iraque – «Uma guerra lançada para apagar a cultura e o futuro do Iraque» –
foi sob esta ideia que decorreu o seminário realizado em Madrid, em 22 e 23
de Abril, acerca do assassinato de professores e profissionais de saúde
iraquianos. O encontro foi promovido por organizações ligadas à iniciativa do
Tribunal Mundial sobre o Iraque, à cabeça das quais esteve o CEOSI (Campanha
Espanhola contra a Ocupação e pela Soberania do Iraque). Teve o apoio da
Universidade Autónoma de Madrid e da Biblioteca Nacional e contou com a
intervenção de diversos professores universitários de Espanha. De relevo, a
presença e os testemunhos prestados por quatro cidadãos iraquianos, três dos
quais vindos do Iraque. Nas notas seguintes dá-se conta das partes mais
marcantes das intervenções produzidas. O encontro foi ainda ocasião para uma reunião das organizações
ligadas ao TMI dos oito países presentes em que se discutiram tarefas comuns no
apoio ao Iraque, e na qual foi aprovada uma resolução sobre os assassinatos e
sobre acções conjuntas. (ver, mais adiante, o texto da Resolução Final do Seminário
Internacional sobre o Assassinato de Professores Universitários e
Profissionais de Saúde Iraquianos – Madrid, 22-23 de Abril de 2006) O Iraque é apenas um ensaio do
que pode vir a passar-se em todo o Médio Oriente Pedro Martínez Montávez, Catedrático da Cadeira de Arábico da
Universidade Autónoma de Madrid A ocupação do Iraque corresponde a um plano traçado desde há muito
porque o Iraque está no centro dos interesses norte-americanos, de vários
pontos de vista: geográfico (basta olhar para um mapa), estratégico,
económico… Os EUA estão a levar a cabo uma colonização clássica, com a diferença
de hoje serem a única potência colonial. Não apenas destruíram o regime:
destruíram o Estado, o sistema económico, a estrutura social. Por que razão
não haveriam de fazer o mesmo com a cultura e com a inteligência? Os interesses em jogo são de tal ordem importantes para os EUA que
todos os milhões de dólares que forem precisos serão canalizados para
consumar e prosseguir este propósito de colonização. O que está a decorrer no
Iraque é apenas um ensaio do que pode vir a passar-se em toda a região. Quanto ao chamado “sectarismo”… O Iraque é um mosaico de etnias.
Todo o Médio Oriente o é – e todos os países de uma forma geral o são, em
maior ou menor grau. Mas no Iraque essa realidade sempre foi particularmente
forte. Fala-se muito agora em “sunitas” e “xiitas”. Mas para além dos árabes
e dos curdos há muitas mais comunidades: turcomanos, assírios, caldeus; e
além de muçulmanos há cristãos e judeus. Por isso o Iraque é um exemplo de riqueza de convivência humana, de
riqueza cultural e social. Esta diversidade podia não ter correspondência na
representação política, isto é, no Estado – mas isso não se traduzia numa
diferença no seio das famílias. Sempre houve casamentos e famílias mistas;
não há regiões etnicamente “puras”. Ou seja, o sectarismo não tem explicação
na situação anterior – é o resultado da ocupação, é produzido e organizado
pela ocupação. Há uma nação iraquiana e há um sentimento nacional iraquiano. Mais:
existe um orgulho nacional iraquiano. A resistência é a expressão dessa
realidade. O saque programado do
património iraquiano Joaquín Maria Córdoba Zoilo, professor do Departamento de História
Antiga da Universidade Autónoma de Madrid O Iraque não foi inventado pelos colonizadores. Sempre existiu,
desde há milhares de anos, uma realidade chamada Iraque, independentemente do
ponto por onde passavam as fronteiras. Como sempre existiu uma realidade
chamada Síria, ou Arábia. O que os EUA estão a fazer é desvertebrar o Iraque. Primeiro,
atacaram o sistema social e o Estado com a guerra de 1991 e as sanções
económicas. Depois, invadiram-no para acabar a destruição e roubar os seus
recursos. A liquidação dos profissionais de todos os ramos é uma parcela
deste processo de destruição. No que toca ao património, a destruição e o roubo começaram em 1991.
Logo aí, milhares de peças arqueológicas foram levadas para os mercados
internacionais. A Suíça é a placa giratória deste tráfico. O governo iraquiano
tinha dispersado os valores patrimoniais pelos museus provinciais na ideia de
os salvar, mas isso foi contraproducente – tornou a vida mais fácil aos
ladrões, que estavam muito bem organizados. Houve três tipos de ladrões: os
ocasionais; os profissionais (que dispunham de listas de objectos a roubar),
ligados à máfia internacional; por fim, os especialistas, os peritos. Quer em
1991, quer em 2003, o facto de estas hordas terem actuado de imediato mostra
que os traficantes internacionais estavam previamente organizados e eram
conhecedores dos planos de ataque dos EUA. O inferno Ali A., professor da Universidade de Bagdade Fui preso por tropas dos EUA e levado para Camp Cropper. Entraram na
minha casa e simplesmente levaram‑me sem qualquer acusação. Meteram-me
numa cela mínima, torturaram-me, exigiam-me que indicasse ligações à
resistência. Não as tinha e não disse nada. Soltaram-me semanas depois. Imaginem um país ocupado. Conseguem imaginar uma ocupação? É o
inferno. Precisamos de gente corajosa:
pressionem os vossos governos Salam W., médico do Hospital Universitário Geral de Bagdade Agradeço a todos a vossa presença e as vossas palavras. Gosto muito
de vos ouvir e também que me ouçam. Mas tenho a dizer-vos que estar dentro do
fogo é uma coisa, estar fora do fogo é outra coisa. Precisamos de gente
corajosa que nos ajude a deitar água no fogo. O apelo que vos faço é que
pressionem os vossos governos a ajudar-nos e a pôr fim à destruição de que
estamos a ser vítimas. Nos hospitais não temos meios de tratar das pessoas. Os médicos são
assassinados nos seus próprios gabinetes de trabalho. Isso aconteceu mesmo ao
meu lado. O Iraque dedicava à educação uma parte do seu orçamento de Estado
superior à média dos países desenvolvidos. Era o destino de estudantes de
todo o mundo árabe. A destruição da sua camada instruída e da sua cultura é
uma forma de privar todo o mundo árabe desse foco de conhecimento, de
ciência. Tudo são sintomas de uma só
doença: a ocupação Eman Khamas, jornalista e escritora, membro da Associação de
Mulheres Voluntárias Faluja foi arrasada da forma que se sabe. Mas não foi só Faluja:
dezenas de outras cidades foram igualmente bombardeadas e destruídas.
Escolas, hospitais, habitações, pontes – tudo é alvo de ataque. Com o aumento
das acções da resistência, cada vez mais os norte-americanos evitam as
operações de rua e recorrem a bombardeamentos e a intervenções punitivas
sobre o conjunto das populações. Calculo que neste momento os mortos
iraquianos cheguem aos 300 mil, na maioria civis, mulheres e crianças.
Oficialmente, os EUA falam em 36 mil. Dezenas de milhares de famílias estão deslocadas por força dos
bombardeamentos e das acções sectárias (tanto em bairros xiitas como
sunitas). É preciso ajudar esta gente. Há centenas ou milhares de viúvas e
mulheres de presos sem qualquer apoio material ou moral. Há milhares de
órfãos. A pobreza é absoluta: as pessoas vivem em tendas, em edifícios
abandonados ou no deserto. Falta comida, água, vacinas. Tudo isto é reflexo de uma só doença: a ocupação. Guerra civil…
nunca houve uma guerra civil no Iraque. A violência existe por força da
presença das tropas dos EUA. Foi a ocupação que criou as condições para que
tudo isto acontecesse. Foram os ocupantes que organizaram todo este
descalabro. O estado a que chegámos foi uma das metas da ocupação. E tudo
isso constitui pretexto para os EUA permanecerem no Iraque. Os argumentos vão
variando. Dizem que os iraquianos não são capazes de governar o país. É falso.
Foi depois da ocupação que o terrorismo apareceu. E estabelecem sempre a
confusão entre terrorismo e resistência. Todos os povos têm direito a
resistir, é o direito internacional que o afirma. A resistência nacional
iraquiana tem alvos precisos: a polícia, as tropas iraquianas e as tropas de
ocupação. Conseguiremos menos se não
lutarmos Rosa Regás, escritora e Directora-Geral da Biblioteca Nacional de
Espanha Pode pensar-se que o pior desta guerra já passou, que se está na sua
fase final – nos pormenores de resolução de um conflito que acabou. Ao
contrário: o pior da guerra está a dar-se precisamente agora. Temos de
insistir com toda a gente de que a guerra não só não terminou como tende a
agravar-se. Muita gente, diante da desproporção de forças, tende a pensar que
não há nada a fazer. A desproporção de forças é real. Mas o que tenho a
dizer-vos é que conseguiremos menos se não lutarmos. Resolução
Final do Seminário Internacional sobre o Assassinato de
Professores Universitários e Profissionais de Saúde Iraquianos Madrid,
22-23 de Abril de 2006 No passado fim-de-semana, representantes de oito países – incluindo
o Iraque – reuniram-se em Madrid, juntamente com grupos que desenvolvem
actividade no quadro das conclusões do Tribunal Mundial sobre o Iraque e com
membros de universidades espanholas, para conhecerem de viva voz e discutirem
a grave situação dos professores universitários e profissionais de saúde iraquianos
que lutam pela vida entre constantes ameaças, violência física, raptos e a
acção de esquadrões da morte. Até à data, mais de 220 profissionais de saúde foram assassinados. O
BRussells Tribunal e o CEOSI (Campanha Espanhola contra a Ocupação e pela
Soberania do Iraque) compilaram, com a ajuda de iraquianos, uma lista de mais
de 190 professores universitários iraquianos assassinados. Durante o segundo dia do seminário, os participantes centraram-se
nas acções que podem ser levadas a cabo para despertar a atenção do mundo
para a destruição dos recursos intelectuais e profissionais do Iraque e para
levar a julgamento os directos responsáveis, incluindo as potências ocupantes
que não cumpriram as suas obrigações, de acordo com o direito internacional,
de proteger as vidas dos civis iraquianos. Afirmamos o seguinte: – A defesa dos professores universitários e profissionais de saúde
iraquianos começa pela condenação da guerra e da ocupação ilegais, que
criaram a situação para que no Iraque os assassinatos se tornassem endémicos
e impunes; – As potências ocupantes e os seus colaboradores são responsáveis
pela protecção das vidas dos civis iraquianos e são imputáveis segundo o
direito internacional quando não cumprem esse dever; – O assassinato de professores universitários e profissionais de
saúde iraquianos faz parte de uma tentativa consciente de impedir o Iraque de
recuperar o seu justo estatuto de independência e soberania; – A defesa dos professores universitários e profissionais de saúde
iraquianos não está separada da necessidade de solidariedade para com o povo
iraquiano e o seu movimento nacional contra a ocupação; – Os iraquianos, como todos os povos, têm direito à ciência e à
educação e a desfrutar dos inalienáveis direitos de liberdade de pensamento,
de expressão, de investigação e inovação; – O direito das famílias dos profissionais de saúde e dos
professores universitários assassinados a uma investigação sobre a morte dos
seus entes queridos, conduzida por um organismo independente e competente, e
ao pagamento de indemnizações, tem de ser assegurado em todos os casos. Em termos de acção, os delegados reafirmam o seu empenho em
trabalharem com determinação para levarem a todas as instâncias a questão da
destruição criminosa da riqueza profissional e intelectual do Iraque. Em
particular, as delegações comprometem-se a: – Exigir que a UNESCO actue em defesa dos profissionais e
intelectuais iraquianos; – Exigir que o gabinete do Alto Comissário para os Direitos Humanos
cumpra o seu dever de proteger as vidas e os direitos humanos dos médicos e
professores universitários, e de todos os civis iraquianos; – Alertar sobre a questão do assassinato dos professores
universitários e médicos iraquianos, destacando o compromisso da Universidade
Autónoma de Madrid de transmitir as principais preocupações desta campanha às
universidades espanholas, à Federação Internacional das Universidades e à
Associação das Universidades Árabes da Liga Árabe; – Exortar os meios de comunicação mundiais a compreenderem que o
assassinato dos professores universitários e profissionais de saúde
iraquianos é resultado da ocupação, e não de uma guerra civil sectária; – Continuar a trabalhar para edificar uma campanha internacional de
solidariedade que ligue os professores universitários iraquianos no exílio e
no Iraque com os seus pares nas universidades por todo o mundo; – Pressionar os parlamentos nacionais e regionais a levantarem e a
discutirem a criminosa destruição das classes profissionais e intelectuais
iraquianas. Os abaixo assinados afirmam que continuarão a cooperar na denúncia
da ocupação e dos seus incontáveis crimes e que permanecerão solidários com o
povo do Iraque. A Delegação de testemunhas iraquianas Campanha Espanhola Contra a Ocupação e pela Soberania do Iraque
(CEOSI), Espanha BRussells Tribunal, Bélgica International Action Center,
EUA Associação Vontade das Mulheres, Iraque Associação de Solidariedade com o Iraque em Estocolmo, Suécia Iniciativa Tribunal Iraque, Alemanha Tribunal-Iraque, Portugal Associação Nacional dos Árabes Britânicos, Reino Unido Ajuda Médica para o Terceiro Mundo, Bélgica STOP USA (Stop United
States of Aggression), Bélgica Patriotas Iraquianos dos Média e da Cultura Plataforma Aturem a Guerra de Barcelona, Espanha |