Informação Alternativa

Iraque

Maio 2005

 

Sons e imagens da oposição iraquiana

 

David Baran e Mathieu Guidère *

Le Monde diplomatique

 

Aos poucos, os ocupantes do Iraque conseguiram dotar o país de uma assembleia, um governo e uma presidência, mas continuam a não conseguir vencer os resistentes. Quem são, afinal, estes resistentes? Antigos partidários do Baas? Membros do antigo exército, entretanto disperso? Terroristas do grupo Al-Zarqawi? Uma análise dos textos e dos vídeos difundidos pelos seus elementos permite compreender melhor os seus contornos.

 

A oposição armada iraquiana atribui uma importância considerável à comunicação, em termos que ultrapassam largamente a simples vontade de aterrorizar. Esta vontade inspira uma produção surpreendentemente abundante e diversificada de textos e imagens, que não devemos reduzir aos seus exemplos mais brutais. As ameaças dos panfletos de intimidação ocultam uma quantidade impressionante de análises a frio, detalhadas e lúcidas, sobre a estratégia a seguir para vencer o adversário [1]. Da mesma forma, as sequências de vídeo mais monstruosas eclipsam outro tipo de filmes, por vezes com uma qualidade cinematográfica, que vão das “conferências” em árabe clássico, sobre o fabrico de explosivos, a verdadeiros folhetos de apresentação, emitidas por novos grupos que fazem a sua primeira aparição pública [2].

 

Os grupos mais visíveis da oposição armada dispõem de órgãos especializados no tratamento da “informação”. A difusão dessas mensagens apoia­‑se num número enorme de sítios na Internet, alguns dos quais se assemelham a verdadeiras “agências noticiosas” on-line, com uma actualização que pode acontecer várias vezes por dia [3]. Num desses sítios, um combatente apelava recentemente ao «rompimento por todos os meios do isolamento mediático imposto à resistência» [4].

 

A intensidade destes esforços põe naturalmente a questão do sentido desta propaganda aos olhos da oposição armada, além da que diz respeito à sua eficácia concreta enquanto arma do conflito. A este respeito, devemos ver no seu impacte a ocidente, fraco, para não dizer contraproducente, um sinal de mediocridade e de inadequação?

 

De facto, enquanto o conflito vai sendo cada vez mais dominado pelo discurso das autoridades americanas e iraquianas, o inimigo tornou-se quase inaudível, apesar do ruído das explosões e do tumulto provocado pela tomada de reféns. A sua mensagem perde-se à partida tanto por causa dos seus próprios modos de produção (boca­‑a­‑boca e outros métodos tradicionais, comunicados e vídeos publicados em sítios evanescentes na Internet, tudo isto quase exclusivamente em árabe), como pelas dificuldades de acesso a esta informação por parte dos observadores estrangeiros. A sua recepção sofre com mecanismos de censura mais ou menos voluntários: quando são difundidos, os vídeos são geralmente esvaziados das respectivas argumentações, uma vez que apenas algumas imagens “chave” são consideradas pertinentes e por isso conservadas. Por fim, este discurso acaba por ser invalidado desde logo: considerado uma emanação do inimigo “fanático” e “sanguinário”, só poderia representar a racionalização de uma violência desarticulada, indigna de interesse e de análise. Uma vez que o inimigo só fala a linguagem do terror, dar-lhe ouvidos seria desde logo uma forma de o fazer triunfar.

 

Dito isto, o terror (Irhab) é claramente uma preocupação da oposição armada. Se alguns dos seus membros denunciam esse recurso, outros reivindicam explicitamente a sua legitimidade religiosa e a sua aplicação prática. Uma autoridade reconhecida do islão sunita distinguiu assim de forma clara o “terrorismo ilícito” do “terrorismo lícito”, arrumando o caso iraquiano na segunda destas categorias [5]. O dignitário iraquiano Mohammed Al­‑Alousi, por seu lado, não pondera sequer a possibilidade de uma Jihad sem Irhab [6]. No plano militar, análises detalhadas, publicadas on-line e manifestamente feitas por combatentes experientes, colocam o terror no coração de uma teorização da guerra psicológica. Ela aparece então como um meio de isolar as autoridades “colaboracionistas” do resto da população ou de levar, através da captura de estrangeiros, o conflito para países que de outra forma permaneceriam inacessíveis.

 

IMPERATIVOS DE LEGITIMAÇÃO

 

Contudo, se a comunicação com o adversário e os seus aliados potenciais se faz essencialmente no modo do terror – com algumas raras excepções [7] – o discurso da oposição armada responde a outros imperativos. A sua produção de imagens e de textos parece mesmo destinada, prioritariamente, aos próprios combatentes e a uma audiência de simpatizantes já ganhos para a causa. Ela inscreve-se no que aparece como uma rede dinâmica de grupos que se observam, que se aliam ou que entram em concorrência numa espécie de economia da violência. Estes grupos constroem uma imagem de si mesmos e comunicam activamente uns com os outros.

 

Neste contexto, uma parte importante da propaganda supostamente atribuída a este ou àquele grupo consiste em fazer com que os seus pares conheçam ou reconheçam a sua acção, sejam eles aliados, potenciais recrutas ou concorrentes. Numerosos comunicados contentam­‑se em enunciar de que forma os seus autores se posicionam no seio do campo sempre em mudança da oposição armada (ao reconhecer a autoridade do jordano Abu Mussab Al-Zarqawi, denunciando os ataques contra civis, etc.). As mensagens emitidas neste jogo fluido dão a conhecer, com rigor, o ponto de vista dos “líderes de opinião” – ulemas, intelectuais respeitados, etc.

 

Os conteúdos, incluindo os mais violentos, respondem por isso a imperativos de legitimação. As execuções filmadas de estrangeiros não escapam a esta regra. Elas reenviam para um processo complexo de selecção das vítimas e de instrução dos seus “crimes”, seguido de um “processo” e da aplicação da “pena”. Dão depois origem a esforços de teorização dos actos puníveis, à circulação na Internet de conselhos sobre o tratamento de certos tipos de prisioneiros «segundo as regras da hospitalidade árabe», tal como as elaboradas encenações da aplicação do “julgamento de Deus”.

 

Levar a sério a racionalidade do inimigo exige, no fundo, que lhe seja reconhegida a sofisticação que somos tentados, intuitivamente, a negar-lhe. Assim, há uma preocupação de argumentação e de credibilidade que emerge destes esforços de comunicação, os quais evitam cuidadosamente as formas demasiado grosseiras de propaganda. Os combatentes pretendem distinguir-se pelo detalhe com que revelam, na medida do possível, as suas acções e as “perdas reais” de um adversário que tentaria minimizá-las. Daí a profusão de pequenas sequências de vídeo, difundidas na Internet, sobre este ou aquele atentado, geralmente reivindicado por um logótipo ou uma data, quando não por uma verdadeira “maqueta”. Um combatente exprimindo-se num fórum de discussão chegou mesmo a felicitar-se pelo “modelo informativo da resistência” – recomendando aos seus pares a formação de «equipas de correspondentes, de fotógrafos e de cameramen» [8].

 

Se convém falar de uma certa “sofisticação” do discurso da oposição armada, esta deve­‑se igualmente à riqueza de recursos a que acede e que gere habilmente. Invocando alguns versículos do Corão, pode mobilizar­‑se todo um repertório inspirado na história islâmica e nacionalista árabe, mas também numa longa tradição poética e no folclore tribal. A guerra que é preciso fazer é comparada com a batalha de Badr, da qual Maomé e os primeiros muçulmanos saíram vencedores, apesar da esmagadora superioridade numérica do inimigo. Os “colaboracionistas” são qualificados como filhos de Ibn Al-Alqami, nome do vizir que entregou Bagdade, no século XIII, aos invasores mongóis. Figuras de resistentes, como Hamza Ibn Abd Al-Muttalib ou Omar Al­‑Mukhtar, são convocados [9]. Novos cantos patrióticos são compostos. E todas estas referências fundem­‑se numa retórica eficaz e cuidada, apanhando em contrapé os argumentos americanos de “liberdade” e de “progresso”, ao enraizar profundamente o combate actual num passado de lutas e de sacrifícios [10].

 

A oposição armada inspira-se igualmente na sua própria história, mesmo a recente, apropriando­‑se de representações simbólicas (nomeadamente das cenas de júbilo) e de acontecimentos fundadores, que alimentam as imagens da sua própria acção. Ela inspira-se no imaginário de outros conflitos, da Palestina ao Afeganistão e a outros lugares (encenações pedidas de empréstimo ao Hamas, por exemplo). E explora imagens habituais entre os iraquianos: os muitos rumores sobre as tentativas do adversário para fazer desaparecer os seus mortos deram origem a diversos longos “documentários” sobre as valas comuns americanas... [11] Finalmente, a comunicação social internacional e a própria coligação oferecem infinitos recursos aos propagandistas, que lhes alteram as imagens e os slogans, revelando as suas contradições e condenando a sua hipocrisia [12].

 

Assim, apesar das tensões que atravessam a oposição armada e a diversidade das suas origens, há um imaginário surpreendentemente coerente e unificado que transparece nos discursos que produz. O vocabulário e as referências empregues são a partir de agora amplamente partilhados: os combatentes são mujahidin, e o adversário uma força de ocupação infiel, comparada aos cruzados ou aos bárbaros; o seu objectivo seria o de perpetuar uma dominação imperial “americano­‑sionista” através de um governo fantoche a soldo dos Estados Unidos e dos seus aliados exógenos (antigos exilados, xiitas pró-iranianos e curdos secessionistas...). O poder do inimigo é não só admitido, mas exagerado como forma de fazer valer os valores que se lhe opõem e que, no seu todo, convergem para o ideal dos primeiros partidários do islão (o engenho, a coragem, a abnegação, o sacrifício, a piedade...). Daqui se infere uma concepção da “vitória” como simples continuação da luta, através do sacrifício de cada um.

 

Esta visão intemporal explica em parte a incapacidade que o conjunto dos grupos da oposição armada revela, com raras excepções [13], para construir uma qualquer solução alternativa à transição apadrinhada pelos Estados Unidos. Em coerência com uma estratégia militar que procura impedir qualquer tipo de normalização, o seu programa político não propõe à comunidade dos crentes mais do que formas de participação individual. Nenhum esforço foi feito para administrar os santuários detidos durante o ano de 2004, para lá de uma coordenação bastante frouxa dos grupos de combatentes. Até agora, os fóruns de discussão confirmam um desinteresse geral por qualquer forma de organização que ultrapasse o estádio da simples coordenação, resumindo­‑se o objectivo desta a uma melhor eficácia militar.

 

Esta dificuldade de se projectar no futuro deve-se a dois factores suplementares. De um ponto de vista ideológico, uma verdadeira retirada americana é considerada impensável – e impossível na prática, devido à dependência do processo de transição para com o seu padrinho. De um ponto de vista mais objectivo, reconhecer a perspectiva dessa retirada revelar-se-ia problemático, na medida em que esse reconhecimento romperia a unidade aparente da oposição armada e atiçaria as tensões e as divergências.

 

De resto, se a força deste discurso reside na articulação explícita de um imaginário federador, as suas fraquezas mais evidentes devem ser procuradas nos seus silêncios. Entre estes, alguns são inócuos e não se prestam a consequências: assim, é com pudor que se mencionam as funções lucrativas da tomada de reféns (que são decisivas), ou as conexões evidentes entre a Jihad e a grande criminalidade.

 

UMA POPULARIDADE EM QUEDA LIVRE

 

Menos anódina, a ausência de uma reflexão consistente sobre as falhas da oposição armada e sobre os factores susceptíveis de favorecer uma vitória do adversário testemunham um modo de comunicação que mantém à distância a autocrítica, por medo de cair no descrédito. Sobretudo, a lassidão de uma vasta maioria dos iraquianos em relação à violência não é de forma nenhuma tida em conta numa análise que parece ignorar que o “centro de gravidade” de qualquer guerra de insurreição/contra­‑insurreição só pode estar justamente na população.

 

Com efeito, a oposição armada continua insensível ou indiferente à mudança espectacular que se operou nas relações com a população iraquiana desde a época das duas frentes, em Faluja e no Sul, quando ela ganhara um indiscutível apoio popular (Primavera de 2004). Ora, se a sua capacidade de actuação continua a ser importante, a popularidade caiu em flecha e ficou reduzida a zonas cujos habitantes são compreensivelmente mais ambivalentes e amedrontados do que propriamente solidários. Como que à margem disto tudo, os fóruns de discussão dispensam quaisquer referências a esta evolução.

 

As eleições de 30 de Janeiro de 2005, levadas a sério por uma parte importante da população, mesmo em alguns bairros de Bagdade de maioria árabe­‑sunita, são desvalorizadas e vistas como um escrutínio sem partidos políticos, sob ocupação estrangeira e sem debate possível com os ocupantes do país. A longa espera pelos resultados confirmou todas as desconfianças acerca de uma negociação com Washington com vista a uma eleição necessariamente truncada, de onde sairia um “parlamento de colaboracionistas”. No mesmo registo, as confissões extorquidos aos “terroristas” e difundidas na televisão iraquiana são tratadas como manipulações grosseiras, ignorando-se assim a forte impressão que produziram em muitos iraquianos.

 

É certo que diferentes grupos se preocupam abertamente com as repercussões negativas de certos tipos de acção, verificando-se também alguns esforços de sedução da população. As famílias de prisioneiros inocentes, apanhados durante as grandes rusgas americanas, são protegidas na ausência do chefe de família. E os numerosos civis deslocados aquando das operações militares de grande envergadura, deixados por sua conta pelas autoridades, são também objecto de medidas de apoio.

 

Mas, com isto, o que está essencialmente em causa é a preservação de um viveiro de simpatizantes, onde se possam recrutar novos combatentes. A mobilização propriamente dita da população não dá lugar a nenhuma tentativa de conceptualização, menos ainda de sistematização. No seu conjunto, a questão resume­‑se a determinar quem está a favor e quem está contra a ocupação – mesmo se as respostas variam de um grupo para outro. Convencida da legitimidade da sua causa, a oposição armada considera-se uma vanguarda e não procura mobilizar uma maioria passiva. Vale a pena perguntar se o artifício da Internet, que reúne os pares numa Umma fanstasmática, não a embala com ilusões sobre a sua capacidade de vencer... sem convencer os iraquianos.

 

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* Respectivamente, investigador, consultor e autor de Vivre la tyrannie et lui survivre. L’Irak en transition (Mille et une nuits, Paris, 2004); e professor titular de árabe, professor universitário e director do Laboratório de Análise da Informação Estratégica (Saint-Cyr).

 

[1] Cf., por exemplo, www.islammemo.cc/taqrer/one-news.asp?ldnews=292.

[2] Cf. o vídeo Al-Dhurwa (O Apogeu) das “Companhias da Cólera Islâmica”.

[3] Cf. www.us.moheet.com.

[4] Cf. www.la7odood.com.

[5] Cf. www.balagh.com/thaqafa/0604ggpz.htm.

[6] Cf. www.albasrah.net.

[7] Para um notável filme de propaganda em inglês, ver www.informationclearinghouse.info/article7468.htm.

[8] Cf. www.la7odood.com.

[9] O primeiro, um tio do profeta Maomé, é um dos mártires mais célebres do islão e herói de um romance popular; o segundo é um herói da resistência libanesa, sendo apresentado como “o pai dos mártires”.

[10] Cf. o vídeo Ajdâd wa Ihfâd. Muqârana Bain Mâdhî Al-Umma Al-Islâmîya wa Hâdhariha (Antepassados e descendência. Comparação entre o passado da comunidade islâmica e o seu presente).

[11] Cf. os vídeos Râyât Al-Haqq (Os estandartes da verdade) de Jaish Ansâr Al-Sunna, e Halâk Al-Salîbiyîn Fawq Ardh Al-Râfidain (A danação dos cruzados na terra dos dois rios), de Jaish Al-Irâq Al-Islâmi.

[12] Cf., entre outros, www.albasrah.net.

[13] Para um projecto de Constituição que inclui uma secção sobre a instituição de um ministro da Jihad, cf. www.hizb-ut-tahrir.org.