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07/06/2006 Morgue conta a história actualizada Brian Conley; Isam Rashid A morgue central de Bagdade recebeu este ano mais de mil corpos em cada
mês, revelou um médico. A contagem de corpos aqui dá uma imagem mais precisa
da história em Bagdade do que quaisquer estatísticas oficiais. Antes da guerra, esta morgue localizada em Bab al-Mu’atham, perto do
centro da cidade, recebia entre 200 e 300 corpos por mês, disse o Dr. Kais
Hassan, que trabalhou na morgue. Há apenas três salas de armazenamento e dois médicos no centro.
Actualmente, a morgue está a abarrotar. Em alguns dias mais de 100 corpos são
internados na morgue. A capacidade foi esticada particularmente durante o governo de
Ibrahim al-Jaafari, que assumiu o cargo de primeiro‑ministro depois
das eleições de Janeiro de 2005, mas foi finalmente persuadido a renunciar no
início deste ano. O ministério do Interior estava então sob o comando de
Bayan Jabr. As matanças em Bagdade aumentaram depois da ocupação, mas
floresceram sob a explosão das milícias e a criação do que os iraquianos
habitualmente referem como esquadrões da morte. «A maioria dos que são trazidos aqui mortos foram torturados com
espancamentos, electricidade, ácido, torniquetes e outras formas
horripilantes», contou um iraquiano que se recusou a dar o seu nome. «Agora,
quando qualquer iraquiano é preso pela polícia, significa que encontraremos o
seu corpo morto nas ruas de Bagdade alguns dias depois. Por causa de todas
estas matanças, esta morgue não é suficiente». O cheiro da morte inunda toda a morgue. Isso e as multidões de
famílias em pranto procurando os seus mortos são agora uma visão omnipresente
em torno da morgue. O acesso à morgue foi recusado à IPS, e foi‑lhe dito que os
jornalistas estão proibidos de informar sobre as condições no interior. «O último responsável por esta morgue, Faik Bakr, recebeu ameaças de
morte porque disse que havia mais de 7.000 iraquianos mortos por esquadrões
da morte nos últimos meses», contou um empregado à IPS. «A maioria dos mortos
chegou com as mãos atadas atrás das costas». O empregado aconselhou o correspondente da IPS a sair imediatamente. Ahmed, que estava entre a multidão do lado de fora juntamente com a
sua família, explicou porque é que tantas famílias estavam à espera. «Todos eles estão aqui para procurar os seus filhos, pais, mães e
amigos que desapareceram há alguns dias. Também os procuram porque milícias
usando uniformes da polícia os prenderam. Agora no Iraque, se uma pessoa é
presa por milícias usando uniformes da polícia, a sua família procura‑a
na morgue». Os cadáveres chegam à morgue sob a custódia de escoltas policiais
muitas vezes ao longo do dia. Enquanto a IPS conversava com Ahmed, dois
veículos da polícia chegaram, transportando muitos corpos. Depois de alguns minutos de confusão, um homem começou a gritar:
«Este é meu filho. Foi torturado e assassinado, perdi‑o para sempre!».
Muitos pessoas o rodearam para consolá-lo. O corpo apresentava muitas perfurações. Um dos olhos tinha sido
removido. O pai, Ali, falou com a IPS depois de o corpo ter sido levado para a
morgue. «Era comerciante, a sua loja estava na rua al‑Rashid, e há três
dias foi preso pela polícia, e encontro‑o aqui, morto». Ali acredita que o seu filho foi assassinado apenas por ser sunita.
Afirmou que o seu filho não era procurado pela polícia por nenhum crime.
«Todos os seus amigos gostavam dele, e todos o apreciavam. Era inocente e não
fez nada de mal». Perto da morgue há um grande parque de estacionamento. Ramadan, um
guarda dos seus 40 anos, tem a possibilidade de ver o que se passa durante
todo o dia. «Há uma semana trouxeram mais de 100 corpos em um dia, de al‑Taji,
a norte de Bagdade, e noutro dia trouxeram apenas 20 corpos. Há uma média de
50 a 60 corpos todos os dias». Ramadan nem sempre é um observador a partir do parque de
estacionamento. «Muitas vezes ajudei os trabalhadores da morgue a carregar os corpos
para dentro. Não está suficientemente refrigerado lá dentro, e mantêm os
corpos empilhados uns sobre os outros. Alguns dos cadáveres estão no chão e
por todo o lado dentro da morgue». Ele afirma que os corpos pertencem tanto a famílias sunitas como
xiitas. «Vejo as suas famílias quando vêm buscar os cadáveres. Pertencem a
ambas por causa da guerra sectária que está a ser levada a cabo no Iraque». Ramadan acrescentou: «Espero um dia poder encontrar outro trabalho e sair deste lugar». |