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20/05/2006 O fiasco do governo de “compromisso” e o futuro do Iraque – O novo gabinete de al-Malaki, marcado pelo sectarismo – Sabah Ali IraqSolidaridad;
retirado de TMI-AP
Manifestação
de mulheres em Bagdade, em 2005, em protesto contra a perda dos seus direitos Para qualquer observador político foi divertido observar, durante os
últimos cinco meses, a formação do governo iraquiano, uma comédia obscura ou
absurda. Desde que Nuri al-Mariki, o novo primeiro‑ministro iraquiano,
anunciou há um mês, cheio de optimismo, que em 24 horas ia formar governo,
viu-se submetido a tantas pressões e absorvido por tantos problemas entre os
partidos políticos e os grupos parlamentares que ganharam as eleições de 15
de Dezembro de 2005 que um mês depois continuava a não aparecer o fumo branco
na chaminé do Parlamento! Al-Maliki teve de engolir as suas precipitadas
palavras e de trabalhar 16 horas por dia para negociar as aspirações
políticas dos diferentes grupos. Finalmente, o elefantiásico processo
político pariu um rato entrevado, e de cesariana. Al-Maliki teve de apresentar um governo sem ministros do Interior e
da Defesa, e sem Conselheiro Nacional de Segurança – e sem um programa
político, que havia prometido apresentar num mês. Esta táctica de fuga para a
frente, adiando os problemas principais para algum momento futuro,
converteu-se num procedimento rotineiro das autoridades iraquianas desde
2003, a fim de se esquivarem aos problemas reais com que se debate o processo
político, como se este fosse um fim em si mesmo. TUTELA ESTADUNIDENSE Haverá contudo que dizer, em justiça, que nem toda a culpa é de
al-Maliki; ele tinha de satisfazer as aspirações de todos e em vários níveis.
E, acima de todas, as dos estadunidenses, as da coligação xiita [Aliança
Unida Iraquiana] a que ele próprio pertence, as dos diferentes grupos
parlamentares, as dos partidos políticos dentro desses grupos e, finalmente,
as das personalidades dentro desses grupos. Cada um deles tem a sua agenda
própria e quer um ministério ou um posto elevado. Como o número de ministérios
é limitado, teve de criar novos ministérios, ou subministérios; [teve de
criar], aqui e ali, um conselho, uma junta, um organismo ou uma pasta de
Estado. Temos 37 ministérios, sem contar os conselhos e organismos, etc. O
bolo não chega para satisfazer todas as bocas que se abrem, e o governo acabou
sendo acusado de ser abertamente sectário, em vez do prometido governo de
unidade nacional. No seu discurso de tomada de posse, al-Maliki agradeceu o apoio dos
«grandes referenciais religiosos» (xiitas) – como ele próprio lhes chamou –,
especialmente ao aiatola as-Sistani. Prometeu derrotar o terrorismo e a
violência («como derrotámos a tirania», afirmou). Nada mencionou acerca das
centenas de milhares de soldados da ocupação, das milícias armadas, da
resistência ou das 14 bases militares permanentes dos EUA no Iraque [1]. De
facto, prometeu trabalhar em cooperação com as tropas da «Coligação
[Multinacional]» até que elas considerassem devidamente conveniente «regressar
aos seus países» (não disse sair do Iraque). Quanto a isto é importante
lembrar que o mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas para as
forças de ocupação no Iraque acabou em finais de 2005. Para além de um
convite do ex‑primeiro‑ministro al‑Jafari [2], não têm
qualquer cobertura legal para permanecerem. Este fiasco é-lhes de grande
utilidade para dizer que permanecem enquanto os iraquianos não estiverem
preparados para dirigirem o seu país, que se encontra efectivamente à beira
da guerra civil. O novo governo iraquiano é um entusiasta da tutela estadunidense. DESCONFIANÇA GENERALIZADA A questão continua a ser a mesma: como é que semelhante governo, com
a desconfiança mútua dos seus membros, as suas agendas ocultas e as suas
trincheiras sectárias e étnicas, irá abordar as descomunais complicações da
situação iraquiana. Nenhum deles confia nos outros o suficiente para lhes
permitir controlar as forças de segurança. A Aliança Unida Iraquiana xiita
acusou as outras listas de pretenderem roubar os seus resultados eleitorais e
de tentarem mudar os cargos. Por seu lado, alguns [parlamentares] sunitas
acusaram os xiitas de estarem a promover a sua agenda de dividir o Iraque por
meio do controlo das pastas relevantes, e abandonaram a sessão [do Parlamento
de apresentação do novo governo] furiosos. O partido al‑Fadila (membro
da Aliança Unida Iraquiana), que queria o ministério do Petróleo, abandonou
as negociações para o governo porque esse cargo fora dado ao cientista
nuclear iraquiano Hussein al-Shahristani, apodou todo o processo de erróneo e
egoísta, e juntou-se à oposição no Parlamento [3]. A Frente do Acordo
Iraquiano – sunita – afirmou ter sido atraiçoada. Objectou que o ministro dos
Assuntos Externos tinha de ser um árabe, tendo sido então criado um serviço
para as relações arabo-iraquianas dentro do ministério dos Estrangeiros a fim
de satisfazer essa sua exigência, e, ao mesmo tempo, se criava um ministério
do Diálogo Nacional. Por seu lado, a Frente Iraqiya, do ex-primeiro-ministro
Alawi, observava em silêncio, descontente por não lhe darem cinco ministérios. Por grande ironia, todos estes veementes defensores dos cargos
falavam com um discurso dúplice: por um lado, que se acabasse e se
renunciasse à focagem sectária e étnica no momento de distribuir os cargos, e
de escolher os ministros segundo a sua “eficiência técnica e política”, e não
segundo a sua filiação religiosa, étnica ou pessoal; mas, por outro lado,
nenhum deles aceitou ou recusou a sua parte ou a dos outros com base em
diferenças políticas, num ponto de vista ideológico ou em agendas ou
programas eleitorais: todas as objecções assentavam no que era obtido por
eles e pelos demais. Todavia, muito mais interessante e revelador é o facto de todos
estes patriotas se engalfinharem por via dos três ministérios principais:
Petróleo, Defesa e (particularmente) Interior. Nenhum lutava pelo ministério
da Saúde, da Educação, dos Transportes ou da Electricidade, por exemplo,
ministérios estes que se encontram num estado totalmente caótico e dos quais
nós, iraquianos, temos extrema necessidade, mas que não parecem
suficientemente importantes aos candidatos. Isto não quer dizer que os três
ministérios mais desejados estejam em melhores condições, pelo contrário,
segundo os próprios altos funcionários do governo, estão minados pela
corrupção [4] e pela má administração, mas estes são lugares de domínio. A
maioria dos políticos iraquianos considera agora que quem possuir o
ministério do Interior, por exemplo, possui o Iraque e o seu futuro. A BATALHA PELO MINISTÉRIO DO INTERIOR O dirigente da Aliança Unida Iraquiana, al-Hakim, construiu o seu projecto
de região federal centro‑sul na base da falácia de que o Iraque xiita
se estende desde Samarra (centro norte) até ao porto de Fao, no Golfo. Supõe‑se
que grandes zonas de Bagdade, as províncias de al-Anbar e Diyala fazem parte
do “Iraque xiita”. Esta teoria explica a brutal limpeza sectária dos bairros
da periferia de Bagdade em todas as direcções geográficas. Também esclarece
bem o enigma das explosões de Samarra, que atearam os distúrbios sectários. Para
os xiitas é muito importante manter agora o ministério do Interior para
concluir, com a ajuda dos estadunidenses, o trabalho de “libertar as zonas
xiitas da ocupação sunita”. Todos os outros blocos eleitorais estão contra o facto de a Aliança
Unida manter o ministério do Interior, baseando-se nos milhares de
assassinatos, detenções e torturas com ele relacionados. Muito
significativamente, al-Zarqawi anunciou pela primeira vez que vai defender os
sunitas – como se estes lhe tivessem outorgado a representação dos seus
interesses – e que, em seis meses, vai criar o seu Estado islâmico! Claro que
o Curdistão já está separado de facto do resto do Iraque, falando em termos
práticos. E o sul está controlado pelos sete principais partidos xiitas, que
nem por isso deixam de ter muitas disputas e inimizades entre eles. A questão
é saber como é que o novo governo aborda a questão da desintegração, assunto
que al-Maliki não mencionou no seu programa político. O que faz este fiasco parecer ainda pior, quer al-Maliki consiga
quer não consiga pôr a funcionar o seu governo de compromisso, é que o
governo iraquiano, seja ele qual for, não tem autoridade nenhuma e ainda
menos controlo sobre alguma coisa: segurança, recursos, corrupção, milícias
armadas, esquadrões da morte, as atrocidades da ocupação, as ameaças
militares turca e iraniana, e a prometida revisão da Constituição, para não
falarmos do colapso do país, em todos os sentidos da palavra. Enquanto aqui
permanecer a ocupação, o fracasso que de facto demonstrou o novo
primeiro-ministro, os enormes problemas ocasionados pelo simples facto de
formar governo e os conflitos de interesses e lealdades não trazem nenhuma
luz aos obscuros recantos do túnel que esta nação está a atravessar. _______ [1] Ver em
IraqSolidaridad: Las bases militares de EEUU en
Iraq. EEUU ha gastado 1.100 millones de dólares en instalaciones militares en
Iraq. [2] Ver em
IraqSolidaridad: Noticias relacionadas con las
tropas de ocupación en Iraq. [3] Ver em
IraqSolidaridad: Carlos Varea, Nuevo gobierno en Iraq:
inestable reparto sectario – La lista del nuevo gobierno. [4] O ex-ministro do Petróleo, Ibrahim Bahrl Olom, afirmou que milhões de barris de petróleo iraquiano, no valor de milhares de milhões de dólares, passaram de contrabando pelas máfias de Bagdade e do sul, com conhecimento e ajuda de altos funcionários iraquianos. O Serviço do Inspector-Geral do Iraque publicou há pouco o seu relatório, onde diz o mesmo. É sobejamente sabido que o fogo ocasionado há duas semanas em vários departamentos de arquivos do ministério do Petróleo foi provocado para eliminar as provas desses factos. Na sua primeira conferência de imprensa, o novo ministro do Petróleo, Hussein al-Shahristani prometeu que a sua prioridade seria a luta contra a corrupção. [N. do autor]. |