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16/03/2006 «É o povo que resiste!» – Entrevista a Abdul Jabbar al-Kubaysi, presidente da Aliança Patriótica Iraquiana – Hugo Janeiro
A 20 de Março de 2003, os EUA e a Grã-Bretanha lideraram um ataque
militar contra o Iraque que culminaria com a invasão e ocupação permanente do
país. Três anos volvidos, restam poucas dúvidas de que as razões invocadas
para “legitimar” a guerra não passaram de falsos pretextos, cortinas de fumo
para ocultar a pilhagem dos recursos naturais da região, rentabilizando,
simultaneamente, a industria de armamento anglo‑norte-americana e a
especulação bolsista de um punhado de multinacionais. Os lucros fabulosos acumulados pelas companhias envolvidas na guerra
e na “reconstrução”, contrastam com a miséria e os crimes a que foram
sujeitos milhões de iraquianos. As torturas, os abusos, as limpezas étnicas, os assassínios
selectivos, as armas químicas usadas indiscriminadamente contra civis, são o
espelho da brutalidade imperial. Os cadáveres contam-se aos milhares, mas os
ocupantes chamam-lhes “danos colaterais”, “vítimas do terrorismo”. De quem? –
importa saber. Entre o esclarecimento proporcionado por uma conversa franca e
aberta com al-Kubaysi, fica uma interrogação. Quando no próximo sábado
dispensarmos um pouco do nosso tempo e camaradagem para nos juntarmos no
Largo do Camões, em Lisboa. Quando connosco estiverem milhões de pessoas
solidárias e unidas pelo mesmo protesto, talvez seja importante acrescentar
uma mensagem para o povo do Iraque: Obrigado por resistirem! Quando os norte-americanos atacaram o Iraque, qual foi a posição
assumida pela Aliança Patriótica Iraquiana e os grupos que convosco
colaboram? Abdul Jabbar al-Kubaysi: Quando a guerra foi desencadeada, muitos de
nós, que havíamos sido severamente reprimidos e torturados pelo regime de
Saddam Hussein, percebemos que não podíamos estar ao lado da invasão
anglo-norte-americana. Não era possível capitular perante a história de
soberania do Iraque. Claro, houve gente que hesitou, que concordava que não era correcto
estar ao lado do bombardeamento e da ocupação do nosso país, mas... colocavam
um mas, e a partir desse momento vacilavam. Muitos dos que se encontravam no exílio procuraram encaixar no novo
regime, com lugares no governo, nas universidades, como embaixadores, mas com
o passar das semanas, após longas discussões e uma análise da situação no
terreno, fomos ganhando força e credibilidade, nós os que desde a primeira
hora nos opusemos à guerra. Quando digo nós, falo no comando central dos
comunistas e outros grupos políticos que, embora minoritários, sem dinheiro,
apenas com vontade e um jornal pobre e sem meios, tratámos de dar
continuidade ao movimento político de resistência. Com o tempo, com a pressão do povo, que também começou a acordar,
juntaram-se alguns militares que nem tiveram possibilidade de combater. Neste
momento, são um dos grupos mais numerosos da resistência e penso que não
decidiram resistir por terem sido membros do Partido Baas, mas porque
assumiram uma posição patriota. Mas a ideia que passou para o ocidente foi que a resistência emergiu
de grupos religiosos... Não foi assim que as coisas funcionaram no terreno. Inicialmente,
surgiram centenas de grupos que pegaram em armas. Trabalhadores, soldados e
oficiais, jovens, muitos jovens que perceberam o que ia ser a ocupação e se
juntavam por bairro, porque havia um militar que tomava a iniciativa, sem
ligações a partidos ou facções religiosas, na esmagadora maioria dos casos. Este movimento de resistência quase espontâneo atacava as forças
ocupantes e regressava às suas casas, voltava às suas vidas. Só depois
surgiram organizações mais complexas, de comunistas, de ex‑membros do
Partido Baas, de inspiração religiosa mas que, mesmo hoje, não fazem das suas
acções nenhuma “guerra santa”, ou o que for que os EUA gostam de lhes chamar. Com o passar do tempo e o agravar da situação os grupos dispersos
começaram a unir-se, paulatinamente, até que hoje temos cerca de seis a sete
grandes grupos com milhares de guerrilheiros. Entre estes encontras
comunistas, Baatistas, muitas sensibilidades, mas que resistem porque
chegaram à conclusão de que esse é o único caminho e o primeiro objectivo. Mesmo no interior dos grupos temos diversas “cores” políticas e
religiosas, isto é, se estás na tua cidade ou na tua região, tens uma
determinada opção política ou religiosa, não te vais deslocar milhares de
quilómetros para integrar um grupo liderado por alguém que pense exactamente
como tu. Se tens vontade de combater, juntas‑te à resistência na tua
zona, és aceite tal qual és e continuas livre de pensar como queiras, de
manter as tuas convicções e linguagem. Esta foi a fórmula para unir toda a
gente. Outra coisa é a Frente Patriótica de Libertação que formámos há
cerca de cinco meses, a qual integra o comando central do Partido Comunista
Iraquiano – que é o resultado da cisão do antigo PCI existente nos anos 60 –,
a Aliança Patriótica Iraquiana, os Baatistas e um grupo chamado Patriotas
Democráticos. Então o fundamental do vosso objectivo passa pela expulsão dos
norte-americanos, e só depois discutirão o futuro do país? Mesmo agora vamos discutindo o futuro, claro, somos quatro partidos
políticos diferentes. O que pensamos é que a questão central neste momento
passa pela coordenação da resistência, que também está representada mas que
não é uma força política homogénea. CRIANDO FALSAS DIVISÕES E as tensões étnicas que aparentemente violentam o Iraque, que papel
desempenham esses grupos? Bom, sabemos que essa é a imagem que passa, mas a verdade é que
essas milícias representam os membros do governo, do parlamento, servem os
interesses norte-americanos. Milicianos sunitas do Partido Islâmico do Iraque, pró-Arábia
Saudita, responsáveis por atentados, estão no governo, têm dois ministros,
estão representados no parlamento. Com os partidos políticos xiitas acontece a mesma coisa. É uma
guerra pela partilha do poder. A questão é que, para incendiarem os ânimos,
não se matam entre si, violentam sunitas e xiitas inocentes. Acha que o objectivo é criar uma atmosfera de medo? Absolutamente. Deixar as pessoas aterradas e levá-las a apoiar um
país dividido, sobretudo da parte dos xiitas, no Sul, com claro interesse da
parte do Irão. Quando se diz que a resistência é sunita e que só mata xiitas é uma
mentira que, para milhares de iraquianos, se vai revelando com mais clareza.
Há exemplos de acções da resistência contra xiitas, sunitas, é indiferente,
porquanto que estejam no poder, na medida em que colaborem com os ocupantes,
é o que realmente os transforma em alvos. CONSCIÊNCIA CRESCE ENTRE O POVO Pensa que o povo iraquiano demonstra hoje uma maior consciência da
necessidade de lutar do que nos primeiros meses da ocupação? Neste momento tornou-se uma cultura. Inicialmente, a resistência
começou por se traduzir muito num sentimento de repúdio pela presença de
tropas estrangeiras no país, mas agora a consciência é maior, as pessoas,
mesmo as mais ignorantes, praticamente sem instrução, começam a discutir
política e a perceber o que está em causa. É importante que esta cultura se tenha espalhado entre a gente
simples, entre o povo. Vamos perguntar a um camponês ou a uma mulher o que é
a política? Ela não te sabe dizer o que é, mas sabe que deve lutar, e se não
tem condições para o fazer, pelo menos percebe que tem que incitar os que
conhece a resistirem à ocupação. Perderam o medo, mesmo quando sabem que muito provavelmente vão
perder um familiar. Uma vizinha minha perdeu 11 filhos nesta guerra e o que
realmente impressiona é que ela já não pensa que os seus morreram em vão,
antes, tem orgulho. Na nossa tradição, quando morre alguém da família, recebem-se os
vizinhos em casa e serve-se café forte, sem açúcar, como sinal da amargura da
perda. Ultimamente, quando morre um rapaz ou uma rapariga na resistência,
serve-se sumo, em sinal de orgulho pelo que fez. A caminho do cemitério,
cantam-se músicas revolucionárias, e todos vêm para prestar homenagem. As
mulheres ululam como quando há um casamento, neste caso, anunciam a união com
a causa da liberdade do seu país. Claro que é uma dor e uma mágoa só
perceptível por quem a sente, mas pior seria se o filho, a filha, o marido ou
o irmão quebrassem perante o invasor. Qual a importância da solidariedade internacional com o Iraque nesse
contexto? É fundamental para que se perceba que a guerra não é um “choque de
civilizações” entre cristãos e muçulmanos, como quer fazer passar George W.
Bush. Muitos iraquianos pensaram que era essa a razão pela qual os atacavam,
por serem muçulmanos. Quando ocorreram as primeiras grandes mobilizações mundiais, com
milhões de pessoas nas ruas contra a guerra e a ocupação do nosso país,
começaram a perceber que afinal, gente comum da Europa, dos EUA, gente como
eles, com razões para viver, com família, com amor pela pátria, também estava
contra a guerra. Isso para o povo iraquiano é ao mesmo tempo um grande
orgulho e uma grande responsabilidade. É isso que também os ajuda e
entusiasma a não desistirem. É o povo que resiste! Quando eu me encontrava preso, trouxeram-me cartas de gente de
Espanha, da Itália, de França, pessoas que eu não conheço mas que exigiam a
minha libertação. Claro, também levaram as cartas para os interrogatórios e
queriam saber quem eram os amigos, se eram operacionais, contactos
subversivos. No mínimo, são iniciativas que os fazem pensar e temer pela
força que se levanta contra a ocupação. CONFIANÇA NO FUTURO Pensa regressar ao Iraque? Não tem receio de voltar a ser detido? Para onde vou? É a minha terra. Não sou um soldado, sou político. O
que tento fazer é minimizar as hipóteses de ser capturado novamente. Arrisco
as minhas hipóteses na vida, tenho que o fazer pelo meu país, tal como o
fazem milhares de iraquianos que também são procurados, também são
perseguidos. Onde vai buscar essa determinação para voltar? O que pensa a sua
família? Temos a consciência de que é necessário, mesmo que as nossas
famílias, especialmente os filhos, estranhem a ausência. As crianças fazem
muitas perguntas, não é com facilidade que as enganamos [risos]. Se pensarmos que o mesmo sentimento de revolta é partilhado por
outro iraquiano, qualquer um, que vende tomate na rua para sobreviver, por
exemplo, e ainda assim espera pacientemente pela oportunidade para demonstrar
resistência, percebemos que temos que continuar. A libertação do Iraque é um objectivo que pensa ser alcançável em
breve? Não só tenho a certeza, como sei que é inevitável. Os ocupantes
encontram-se em condições terríveis, têm inimigos em todas as ruas, a imensa
maioria dos iraquianos está contra a sua presença, não são só os grupos
armados da resistência. É essa a nossa força. A palavra que passa é que eles
se encontram numa estrada em direcção ao inferno. É sabido, mesmo pelos políticos e comandantes militares no terreno,
que a guerra está perdida. São os próprios que o dizem, mas não admitem o
facto publicamente. Com isto não se fique a pensar que o que dizemos é que quando forem
embora não terão que compensar o povo do Iraque pelos estragos que fizeram,
pelas vítimas que deixaram. Não! Nós temos direito a que nos restituam as
perdas. Que razão é essa de invadir, matar, saquear um país e depois ir
embora como se nada fosse? Não vamos aceitar essa condição. CRIMES DE GUERRA Pode-nos fazer um relato do que se passou em cidades como Fallujah
ou Tall Afar durante os bombardeamentos dos EUA? Actualmente, Fallujah parece Dresden após a II Guerra Mundial, as
pessoas vivem em tendas porque quase toda a cidade está em ruínas. Os
jornalistas são impedidos de entrar. Eles não querem que o mundo saiba a
verdade e nem os norte-americanos podem circular sem autorização da cadeia de
comando. O que se passou em Fallujah, os bombardeamentos com Fósforo Branco,
os milhares de corpos de homens, mulheres e crianças carbonizados, factos que
estão documentados num filme da RAI, por muito duro que vos possa parecer,
não é nada. O mesmo tipo de cenário podemos ver se formos a Tall Afar, Ramadi,
Mansur Al Kan, um caso pouco conhecido mas que é igualmente chocante. Samarra
também, embora não esteja exactamente no mesmo estado. No primeiro ataque a Fallujah, em Abril de 2004, eu estava lá
dentro, é a cidade onde nasci. Morreram mais de 1600 pessoas e outras três
mil ficaram feridas. Neste último já estava preso, mas as informações que tenho é que
assassinaram cerca de seis mil pessoas. Qual a razão pela qual este tipo de ataques norte-americanos foram
concentrados no norte do Iraque? Porque foi nessa zona que a resistência ganhou força mais depressa.
Dentro das cidades as pessoas eram livres, os soldados não entravam. É verdade que lá se estabeleciam bases da resistência, onde
trabalhadores, insisto, gente humilde, simples, aprendeu a fazer armas,
RPG’s, tudo manufacturado. Há pouco falávamos da resistência e das tais divergências étnicas. O
que é Tall Afar? É natural que na Europa não saibam, mas é uma cidade de
maioria xiita, e não obstante resiste. BATOTA NAS URNAS PARTILHA O PODER «Um norte-americano, um francês e um
iraquiano encontram-se num bar em Paris depois das eleições no Iraque. O
francês, a jogar em casa, afirma que a tecnologia do seu país é tão avançada
que sete horas após o fecho das urnas já sabiam o resultado. Pouco dado a
ficar atrás dos europeus, com ar sobranceiro, o norte‑americano revela
que o feito não é novidade porque nos EUA ficaram a saber do resultado sete
minutos depois do encerramento das assembleias de voto. Tranquilo, o
iraquiano sorri e diz que nada ultrapassa o avanço registado no seu país.
Como pode ser isso? – perguntaram com escárnio os ocidentais. Simples –
explica o iraquiano –, falámos com os vossos embaixadores em Bagdad e ficámos
a saber do resultado sete dias antes das eleições se realizarem.» («Um dia
depois das últimas eleições, esta anedota era contada com gosto nos mercados
de Bagdad» – conta al-Kubaysi ) Quanto às eleições, fala-se insistentemente numa fraude. O que foi
que realmente se passou? Nas eleições constitucionais, apelámos ao povo para que fosse votar
e rejeitasse a proposta. A questão era simples, bastava dizer sim, ou não, e
ainda assim demoraram cinco semanas a contar os votos. Eles sabiam que o resultado lhes tinha sido desfavorável, mas
insistiram e apresentaram uma contagem de 55 por cento de aprovação do texto. Mobilizaram-se milhares de pessoas que contestaram os resultados.
Eles reavaliaram as suas forças e fizeram uma recontagem, mas chegaram à
conclusão... que estavam certos. Agora vamos dizer o que realmente se passou. Primeiro disseram que
bastava que dois terços dos votos se expressassem pelo não em três das
províncias para a proposta constitucional chumbar. Posteriormente, quando se
viram derrotados, acrescentaram que isso tinha que suceder em cada uma das
províncias, isto é, arrogaram‑se a dar a volta à lei. O comando
norte-americano aplaudiu dizendo que aceitava a deliberação do parlamento. Mesmo assim, há um segundo dado que foi ainda mais visível nestas
recentes eleições. Al-Zarqawi, que representa um grupo minúsculo, sem
expressão de massas, lançou um apelo contra as eleições e ameaçou boicotá‑las
pela força. O que nós, a resistência, considerámos foi que durante três dias
não iríamos atacar, que cabia às pessoas decidirem se iriam votar, ou não. Podíamos ter boicotado o sufrágio pela força, até porque nos
manifestámos contra o embuste, esclarecemos que era desfavorável aos
interesses populares, mas sabíamos que se optássemos pela violência quem
acabaria por colher frutos era Al-Zarqawi. A verdade é que ele não conseguiu
impedir as eleições em nenhuma vila ou cidade. Os que foram a eleições, partidos sunitas ou xiitas, dividiram-se
por áreas. Onde são maioria não permitiram que os oponentes fossem às urnas,
por isso ganharam. Os EUA, mais uma vez, dividiram para reinar e, mais grave,
pensaram dar um golpe na unidade territorial do país, um dos seus verdadeiros
objectivos. Então, como eu dizia, cada partido levou boletins e encheu as caixas
onde e como pôde. Quando contaram os boletins, eram mais do que a população
votante, isto não foi falado. A propaganda disse que a maioria foi votar, mas
o povo sabe que tal não corresponde à verdade. Um exemplo. Num bairro em Bagdad não existe maioria de nenhuma das
facções, por isso concorreram ambas e controlaram‑se mutuamente. A
participação foi de 18 por cento, não de mais de 90 por cento, como afirmaram
em centenas de mesas eleitorais. Os que se lhes opõem, asseguro, não foram às
eleições. NA PRISÃO DO IMPÉRIO Esteve detido cerca de um ano e meio. Que condições encontrou na
prisão e como é que os norte‑americanos o trataram? Primeiro temos que esclarecer que no Iraque não existe só Abu
Grahib, mas 30 grandes prisões. Uma das maiores, a norte de Bagdad, junto a uma pequena povoação
chamada Al-Bagadadi, era uma antiga base do exército iraquiano e nós sabemos
que os EUA têm lá mais de nove mil pessoas e que as torturam. Outra, em
Badush, a norte de Mossul, também tem o mesmo número de presos, mas a maior
de todas fica em Balad, a caminho de Samarra, dentro de um complexo militar
norte-americano. Com isto quero sublinhar que, na verdade, os EUA mantêm presos mais
de 80 mil iraquianos, e antes das últimas eleições eram 192 mil os
encarcerados. Mesmo as mulheres que se encontram presas – que calculámos em
mais de 400 – foram levadas por duas razões: ou têm uma relação com alguém
pertencente à resistência, ou quando os soldados chegaram à sua casa e
perceberam que os homens não se encontravam, levaram as mulheres para os
obrigar a deslocarem-se às bases, mesmo sem provas de que pertençam à
resistência. Isto nem nos tempos da ditadura se fazia no Iraque, era
inaceitável. Também sabemos que os tipos de tortura variam muito, desde choques
eléctricos, queimaduras no corpo, até às coisas mais bizarras, como fazerem
pilhas humanas e dispararem. Penso que pretendem provar que têm melhor
pontaria... Na prisão onde eu estava ouviam-se muitas histórias, relatos de
muita gente porque é um dos locais que funciona como plataforma para as
transferências. Um preso chega, fica dois, três dias, depois é levado. Por
vezes nem precisavam de falar, nós víamos o estado em que chegavam e
imaginávamos o que lhes haviam feito. No meu caso, durante cinco meses e meio, fui interrogado todos os
dias. A determinada altura, talvez nos últimos nove meses, recebia cartas
através da Cruz Vermelha Internacional. As duas primeiras linhas, onde vinham
os cumprimentos e as saudades que a família escrevia, vinham intactas, o
restante estava completamente rasurado para nos fazer quebrar. Depois
trouxeram-me os desenhos que os meus filhos tinham enviado para um
interrogatório e diziam que era um código. Bem, eu só podia dizer que o meu filho era um rapazinho de nove anos
e que eles nem isso eram capazes de perceber, que estavam loucos. Vivem no
medo. O que pretendiam saber? Perguntavam-me sobre a resistência, quem conhecia no Iraque e na
Europa, onde tinha estado, quais os contactos que tinha no mundo árabe.
Acusaram-me de ser o coordenador entre os grupos insurgentes, de ser o
teórico da resistência. Nos primeiros dez dias, meteram-me numa caixa de madeira com pouco
mais de 70 centímetros, de pés e mãos atadas atrás das costas, com correntes,
no escuro. Quando era vencido pelo cansaço e me obrigava a dormir, não me
deixavam por mais de dez minutos, gritavam o meu número. Não me davam água nem comida, e quando davam alguma coisa era quase
nada [n.d.r.: pouco mais de um terço de uma chávena de café, indicou-nos]. De
dois em dois dias, davam um pedaço de pão que era metade de um punho fechado,
nem para alimentar um pequeno pássaro chegava. Nesse período, mesmo a água que me serviam estava a cerca de 40
graus, e nunca me tiravam a venda nem me indicavam onde estava o copo. Depois disto, fui transferido para uma cela, mas sempre que me obrigavam
a sair voltavam a tapar‑me com uma venda e algemavam-me. Nunca estive
sem algemas fora da cela, penso que por terem medo de serem atacados. Então pressentiu que mesmo os soldados que o guardavam estavam
amedrontados? Eles vivem aterrorizados como coelhos! Todos os dias a base onde me
encontrava era atacada por rockets, de noite ou de dia, nunca falhava. Quando
o ataque começava, ficávamos contentes, claro, mesmo que por vezes as explosões
se dessem a escassos cem metros de nós. Os guardas vinham para junto dos
presos, aterrorizados, gritavam, corriam. Julgo que pensavam que mais perto
das nossas celas não corriam perigo. Muitas vezes ríamos da situação e perguntávamos: és um soldado, porque
é que tens medo? Tenho medo de morrer, diziam. Então percebemos, e alguns
começaram a contar que só no Iraque se aperceberam que foram enganados. Falou com muitos soldados nessa situação? Muitos, pessoas com quem comunicava quando me traziam alguma comida,
ou faziam a ronda. Certa vez, um perguntou-me: Qual era a tua patente no exército? Eu
respondi que não era militar, era engenheiro civil e estava preso por razões
políticas. Ficou confuso e disse: então era do governo do Saddam? Eu
expliquei que não, que estava exilado, que tinha combatido Saddam. Porque
razão está preso? – continuou. Eu só lhe respondi que fosse perguntar ao seu
governo. Depois indiquei vários presos, uns tinham sido professores, outros
médicos, outros operários. A determinada altura começavam a falar connosco, mas não é possível
aprofundar muito a conversa porque o sistema não permite criar laços com o
guarda. Todos os dias mudam a escala e de duas em duas semanas retiram o
soldado de uma determinada rotina. De quando em quando voltam, e nesses momentos alguns revelavam o que
lhes haviam contado. Disseram‑lhes que éramos perigosos, que nem
sequer tirassem os óculos de protecção junto de nós porque éramos de tal
forma selvagens que, à primeira oportunidade, lhes furaríamos os olhos com os
garfos de plástico [sorri]. Quando descobriam que não era assim, ficaram com dúvidas. A um outro soldado tive que contar que me tinha licenciado pela
Universidade Americana de Beirute, e que o tipo da cela ao lado também. Ficou
espantado, a pensar. Quando estes episódios aconteciam, revelavam, por
exemplo, que foram treinados durante pouco mais de seis meses, três dos
quais, numa “formação” sobre o Iraque, na qual lhes contaram todo o tipo de
mentiras. Alguns prometeram que, acabado o contrato, nunca mais voltariam. A esmagadora maioria são jovens entre os 18 e os 21 anos que foram enganados, arregimentados como mercenários, a troco de dinheiro, do pagamento das propinas da universidade que de outro modo não podiam pagar, da carta de cidadania norte-americana, uma “moeda de troca” que deve ser muito comum. |