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20/10/2005 A justiça como encenação «A forca é demasiado doce
para Saddam», jura uma jovem coberta, que se apresenta como irmã de um dos
supliciados naquele trágico mês de Julho de 1982, na cidade de Dujail. Para
ela, muito compreensivelmente, Saddam deveria «ser cortado em pedaços e entregue
aos tigres do zoológico de Bagdad». Pelo contrário, um dos
iraquianos que assistem, na TV, à primeira sessão do julgamento, reage ao
enviado especial do Le Monde «Dê-me o nome de um só país árabe onde os
opositores não sejam sistematicamente eliminados. A tortura? Praticam-na
todos. E os americanos também, em Abu Ghraib». Não se pode dizer que falte à
verdade? Nestes fragmentos, dois
iraquianos sintetizam a tenaz que se abate sobre o julgamento do ex-ditador.
A jovem não quer justiça, mas vingança. E o jovem pretende absolvição sem
justiça. Justiça, ou seja, apuramento da verdade e das suas circunstâncias e
responsabilidades, é que ninguém, por ali, deseja. As contradições revelaram-se,
logo, no primeiro dia dos trabalhos. O acusador público, em vez de se cingir
ao caso em apreço – o único massacre devidamente documentado, na opinião de
juristas que acompanharam, desde o início, a preparação do processo –, foi
levado pelo entusiasmo, e acusou o ditador de ser «responsável por dois
milhões de mortos em 25 anos». Saddam deve ter sorrido. Fosse esta a
acusação, e o banco dos réus não teria espaço para os ditos. Esses dois
milhões de vítimas pesam na consciência não apenas do regime iraquiano, como
no de Teerão, e ainda nas chancelarias ocidentais. Talvez por isso o juiz
tenha reconduzido a deriva do acusador ao único caso em apreço? Há dias, a Arte exibiu um
longo documentário sobre os bastidores deste julgamento. Ouviu todos. O
especialista de direito internacional que esteve na génese deste tribunal
especial, e que depois se afastou; o responsável pela formação que os
acusadores receberam fora do Iraque; o responsável norte-americano no
terreno, que acompanhou tudo, da preparação da sala de audiências à
investigação no terreno; juízes e acusadores, sem qualquer experiência em
direito penal; testemunhas de um dos crimes que irão ao segundo julgamento; e
a equipa da defesa, entretanto despedida pela filha do ditador. É um
documento. Devia passar na TV portuguesa, para explicar como não se deve
fazer justiça. Atenção: Saddam merece ser
julgado por crimes contra a humanidade. A questão é “como”. No Iraque, que
confirmou a pena de morte? Num tribunal nacional, preparado e instruído por
norte-americanos? Com juízes de direito comercial e acusadores com
experiência em pequenos crimes domésticos? Com uma defesa sem tempo e sem
acesso ao cliente? Enfim, a lista de incongruências deste tribunal é
interminável. Mas todas as perguntas vão dar a uma única: porque não um
tribunal internacional penal? Numa entrevista ao Libération,
Cheril Bassiouni, professor em Chicago e presidente do International Human
Rights Institute, reconhece que «as impressões digitais dos americanos estão
agora por todo o lado». Ele foi o responsável pela ideia deste Tribunal
Especial. Mas não queria esta encenação da justiça. Queria, vá-se lá saber
porquê, um tribunal que se parecesse com um tribunal. Só não era
internacional porque o ocupante não reconhece tal tipo de instituição. Washington quis um julgamento
onde o réu não tivesse latitude para puxar das suas memórias. Onde não possa
lembrar os seus apertos de mãos a Rumsfeld e a tantos outros, que, nos idos
de 80, lhe venderam armas e compraram petróleo. Assim, o ditador será enforcado pelo massacre de pessoas em Dujail.
Mas nunca pela sua responsabilidade na guerra Irão/Iraque, e o seu milhão de
vítimas. Porque esta guerra inculpa o Ocidente e as suas empresas de
armamento. O ditador também não será enforcado pelo modo como reprimiu os
xiitas do Sul, após a derrota na Guerra do Golfo. Porque essa repressão se
fez à vista de um exército norte-americano que virou costas ao drama humano
que então se vivia. E muito menos será condenado por um dia ter invadido o
Koweit. Fosse esta a acusação, e o réu ainda se podia lembrar das conversas
mantidas com o embaixador dos EUA em Bagdad, nos meses que antecederam a
invasão? Num mundo de mentiras, não é em Bagdad que esta se revelará. |