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26/04/2005 Sem verdade Giuliana Sgrena Il
Manifesto; retirado de Resistir.info Uma nova fumarada negra estadunidense sobre Bagdad, depois daquela
de Abu Graib. A comissão mista encarregada de investigar o tiroteio que na
noite de 4 de Março provocou a morte de Nicola Calipari e feriu a mim e ao
agente do Sismi que conduzia o carro em que viajávamos não chegou a nenhuma
conclusão. Ao que parece, os delegados estadunidenses e os dois observadores
italianos estão divididos quanto às conclusões. Portanto, na melhor das
hipóteses, a comissão não serviu para nada — e na pior implica um importante
passo atrás. Assim, depois de um mais de um mês de investigações foi afastada
inclusive a hipótese de um erro trágico, que deu azo às desculpas de Bush a
Berlusconi. Depois das desculpas chega a bofetada num primeiro-ministro já
nocaute com a crise de governo. Será ele capaz de reagir? Apesar de os
testemunhos coincidirem no relato dos factos — a reconstrução feita no
parlamento pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Gianfranco Fini,
baseava-se no testemunho do agente do Sismi —, os norte-americanos puseram na
defensiva e dizem que foram respeitadas as “regras de compromisso”, primeiro os
sinais de advertência, a uma distância adequada, e a seguir os disparos. Os
factos dizem o contrário: não houve qualquer sinal de advertência e o facho
de luz chegou ao mesmo tempo que o fogo das metralhadoras. A prova é que o
carro recebeu os impactos do lado direito (a patrulha móvel estava a uns dez
metros da margem da estrada, na altura da curva), matando Nicola Calipari, e
a partir de trás: basta ver o carro. O pára‑brisas está intacto, ao
passo que os vidros laterais e o traseiro estão estilhaçados. Outro dado
relevante: o projéctil que me feriu no ombro, felizmente o único, entrou por
trás, abrindo um buraco com quatro centímetros de diâmetro. Outro facto
relevante: os testemunhos — meu e do agente, pessoas muito diversas quanto à
sensibilidade e à experiência — substancialmente coincidem. Os membros da comissão de investigação, ao invés de tê-los em conta,
continuam a insistir numa possibilidade de ter conhecido o agente antes dos
factos. Mas eu nunca o havia visto nem o reconheceria se me cruzasse com ele
na rua, pois só o vi de costas quando conduzia o automóvel. Depois do ataque,
quando saiu, estava longe de mim, ameaçado pelos fuzis, enquanto eu jazia
ferida no chão. É evidente que as minhas duas declarações perante a comissão
estadunidense não serviram para nada, ou será que serei processada por falso
testemunho? Não há dúvida de que o Pentágono quer garantir a impunidade do
seus militares. Por isso vai mais além das afirmações feitas a quente, mais
além do erro, e faz insinuações inquietantes. Um erro, por “trágico” que
seja, sempre se “perdoa” no Iraque, inclusive quando extermina famílias
inteiras de iraquianos inocentes. Neste caso a explicação não vale. Será só
para não influir na moral da tropa ou porque há algo mais? Por outro lado,
devo recusar as mistificações daqueles que pretendem que Nicola Caliparia
actuava na clandestinidade e não avisou da nossa chegada ao aeroporto. O
oficial de ligação fora avisado 20 ou 25 minutos antes da nossa chegada (eu
estava presente quando lhe telefonaram); provavelmente a inteligência
italiana não havia avisado os estadunidenses da operação em marcha para a
minha libertação, pois sabia que do contrário tê‑la‑iam
obstaculizado. Mas a jurisdição dos EUA no Iraque respeita também as
operações de inteligência dos seus aliados no Iraque? Por outro lado, o que
fazia o helicóptero estadunidense que dava voltas sobre o meu carro cheio de
explosivos enquanto eu aguardava que viessem libertar-me? Surge a suspeita de
que as autoridades estadunidenses de Bagdad sabiam perfeitamente o que estava
a passar-se. Ainda não temos o relatório oficial da comissão estadunidense, mas
receamos que muitas destas perguntas fiquem sem resposta. Mas a maior
desilusão seria saber que as nossas autoridades sofressem a afronta sem reagir.
Nesse caso, todas as palavras ditas sobre Calipari teriam sido pura
hipocrisia. E Nicola, apesar da medalha de ouro que Ciampi lhe concedeu, para
o nosso governo só teria sido herói por um dia. |