Informação Alternativa

Iraque

01/12/2005

 

Onde as pessoas não aguentam os preços do seu país

 

Dahr Jamail e Harb al-Mukhtar

Dahr Jamail’s Iraq Dispatches

 

Apesar da alocação pelo governo dos EUA de milhares de milhões de dólares para a “reconstrução”, os iraquianos lutam para subsistir no meio de preços que disparam, do desemprego, duma infra­‑estrutura devastada e de cortes nos serviços básicos.

 

Os iraquianos recebiam uma ração mensal durante o programa Petróleo por Alimentos, que foi implementado para providenciar alívio durante as sanções contra o Iraque até à invasão em 2003. Cada chefe de família recebia cupões mensais para produtos como açúcar, arroz, chá, detergente, óleo de cozinha, feijão e leite para os bebés.

 

Mas os governos apoiados pelos EUA, a começar pelo Conselho Iraquiano de Governo, fracassaram em fornecer a tempo de forma consistente o cabaz mensal de alimentos, no meio de um desemprego estimado em perto de 70%.

 

Abu Ali, de 66 anos, trabalhou até há pouco tempo como distribuidor da ração mensal de alimentos.

 

«O Ministério de Comércio costumava dar­‑nos açúcar para as pessoas», disse. «Mas agora já não. Isto significa que temos de comprá­‑lo no mercado ao dobro do preço para chegar à mesma quantidade. O que farão agora as pessoas pobres para obterem o seu açúcar?»

 

Abu Mushtaq, com 40 anos, pai de cinco, tem falta de dinheiro para comprar produtos no mercado, mesmo depois de receber 120.000 dinares iraquianos (cerca de 85 dólares) mensalmente do governo para compensar o défice na ração alimentar.

 

«Tudo subiu de preço tantas vezes», contou Abu Mushtaq à IPS. «A gasolina, o gasóleo e até o preço do pão aumentaram tantas vezes desde a invasão. Os invasores vieram para o Iraque apenas para encherem os seus próprios bolsos».

 

O recente influxo de dinheiro pelo governo para compensar a entrega inoportuna de rações alimentares aumentou a procura de certos artigos, juntamente com os preços. Esta tendência é desconcertante porque o historial governamental em manter o abastecimento de alimentos está a piorar.

 

«O Ministério do Comércio não deu açúcar nos últimos sete meses, nem arroz durante dois meses», disse Abu Ali. «Nem chá por quatro meses, nem óleo de cozinha nos últimos três meses».

 

Entretanto, o preço do açúcar no mercado aumentou 25%, do arroz 80%, do chá 100% e do óleo de cozinha 50%.

 

A maioria dos lares de Bagdade obtêm, em média, apenas três horas de fornecimento de electricidade por dia, e os iraquianos que os podem pagar, usam pequenos geradores. Mas a escassez e o racionamento de gasolina continuam, com apenas 40­‑50 litros mensais permitidos por veículo.

 

O governo interino está a considerar quintuplicar o preço da gasolina no início do próximo ano.

 

A situação está a ser ainda mais complicada pelas tentativas, por parte de alguns iraquianos, de compensar a dramática mudança na sua situação económica. «Muitos proprietários de imóveis estão a aumentar as rendas mais duas ou três vezes do que a quantia normal», disse Abu Ali. «Isto cria uma espiral má para todos».

 

A esperança também parece um produto escasso. «Qualquer pessoa que lhe diga que existem planos para isto é um mentiroso», disse Abu Anas, que trabalha no Ministério do Comércio, à IPS. «O governo ainda é interino, por isso não pode fazer planos, e não pensa que seja essa a sua tarefa. Deus ajude o povo iraquiano».

 

Muitos analistas culparam directamente o governo dos EUA por esta situação.

 

«A “reconstrução” do Iraque é o maior programa de ocupação conduzido pelos americanos desde o Plano Marshall» para a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, escreveu o analista Ed Harriman no London Review of Books. «Mas existe uma diferença: O governo dos EUA financiou o Plano Marshall, enquanto [o secretário da Defesa] Donald Rumsfeld e [o ex-governador do Iraque] Paul Bremer se asseguraram que a reconstrução do Iraque seja paga pelo país “libertado”, pelos próprios iraquianos».

 

Segundo a investigação de Harriman, sobraram 6 mil milhões de dólares em activos do programa Petróleo por Alimentos da ONU, e os rendimentos do recomeço das exportações de petróleo iraquiano trouxeram outros 10 mil milhões de dólares no ano seguinte à invasão.

 

Contudo, conquanto o Congresso dos EUA votou gastar 18,4 mil milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes dos EUA na “reconstrução” do Iraque, Harriman diz que «até 28 de Junho do ano passado, quando Bremer deixou Bagdade dois dias mais cedo para evitar um possível ataque a caminho do aeroporto, a sua APC [Autoridade Provisória da Coalizão] havia gasto até 20 mil milhões de dólares em dinheiro iraquiano, comparados com os 300 milhões de fundos estado­‑unidenses».

 

Acusações de fraude e roubo assolaram os ocupantes do Iraque desde o princípio. Foi informado que os auditores do governo dos Estados Unidos encontraram sérios problemas.

 

«Até agora, os auditores referiram mais de cem contratos, envolvendo milhares de milhões de dólares pagos ao pessoal e às companhias norte-americanas, para investigação e possível processo penal», escreveu Harriman.

 

«Também descobriram que 8,8 mil milhões de dólares que passaram pelos ministérios do novo governo iraquiano em Bagdade, enquanto Bremer esteve no cargo, desapareceram, com poucas perspectivas de descobrir para onde foram. Outros 3,4 mil milhões de dólares destinados pelo Congresso dos Estados Unidos ao desenvolvimento do Iraque foram desde então desviados para financiar a “segurança”.

 

O Iraque tem riqueza em petróleo e dólares, mas as pessoas não a vêem.