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03/09/2005 Terra queimada Foram terroristas? Um falso alarme? O pânico de multidões em fuga?
Ou a inépcia dos vários serviços de segurança? Provavelmente foi um pouco de
tudo isto e ainda outro tanto do que ainda não se sabe. Mas a tragédia da ponte do imã Ali, em Bagdad, e as suas mil vítimas
têm a carga de uma metáfora. Nada corre bem no mais castigado dos países.
Nada. Nem mesmo uma manifestação de fé. No mesmíssimo dia em que o Tigre se tingia de sangue, três
condenados por assassínio, rapto e violação foram executados em Bagdad. O episódio é premonitório. Ele anuncia o mais previsível dos
horizontes para um país que não tem como ser. Sabe-se que o representante das
Nações Unidas fez o que era possível para evitar a sentença. Sabe-se também
que o Presidente da República, o curdo Jalal Talabani, se recusou a assinar o
decreto de execução. Debalde. Sobrou um vice-presidente xiita para o fazer.
Aliás, esta não foi a primeira pena capital aplicada na era pós-Saddam. Pode parecer despiciendo, num mundo de execuções extra-judiciais generalizadas,
discutir os limites das sentenças legais. Não é. A aplicação, ou não, de
sentenças de morte pelos tribunais antecipa um dos futuros possíveis para o
Iraque – aquele onde a sharia se institui como elemento fundamental de
inspiração das leis do Estado. Os curdos, que também são muçulmanos, procuraram evitar que este
requisito fosse inscrito na proposta de Constituição que irá a referendo em
Outubro. Perderam, mas ganharam no que lhes era essencial – um Estado federal
onde possam beneficiar das receitas de petróleo existentes na sua região. Os
curdos abandonam a ideia de um Estado nacional em troca de uma ampla
autonomia no interior do Iraque. Compreende‑se. Marginalizados em
todos os Estados da região, este acordo tem valor de exemplo para a Turquia,
a Síria e o Irão. Não por acaso, a Liga Árabe reagiu com acidez ao documento. A sua
aprovação potencia as tendências para a implosão do mapa do Médio Oriente. Aproveitando a exigência curda, a hierarquia religiosa xiita,
maioritária no Sul, fez aprovar o modelo federal para todo o país. Nesta
opção, os mollahs dão vazão ao sentimento de marginalização das tribos do Sul
pelo regime de Saddam; mas, principalmente, jogam sobre o seguro: o
autogoverno da antiga Suméria é um recurso em face da imprevisibilidade de um
Estado incerto. Esta aliança de conveniência entre as montanhas do Norte e as
planícies do Sul deixa às tribos do centro, as únicas sem petróleo, um lugar
menor. Os sunitas do Centro do país estavam na disposição de aceitar um
Estado unitário com uma região autónoma – o Curdistão; mas têm tudo a perder
com a divisão do Iraque em três regiões. A sensação de perda é tanto maior
quanto foram eles quem melhor se apropriou da ideia nacional durante os anos
de poder baasista. Para eles, o federalismo não representa apenas a perda de
capacidade de influência; enterra o próprio Iraque. Por isso, o “triângulo
sunita” se dispõe, desta vez, a ir a votos: como três distritos podem vetar a
nova Constituição, eles jogam nas urnas a sua sobrevivência. O problema é
que, qualquer que seja o resultado de Outubro, as margens de compromisso se
esvaem a cada dia que passa. Neste xadrez, a Al-Qaeda tem um único objectivo por detrás das suas
declarações contra o “grande satã”: generalizar a guerra civil entre xiitas e
sunitas. Terra queimada sobre terra queimada. Quanto às forças estrangeiras, a ocupação transformou-se num
pesadelo. Para lá de tudo o que já se disse e escreveu sobre a guerra, é
evidente que as tropas já só têm como objectivo justificarem os líderes que
lá as colocaram. George W. Bush abriu uma caixa de pandora que não tem como fechar. O
federalismo não lhe resolve o problema do petróleo, não garante a
pacificação, nem evita a extensão da influência iraniana sobre o Iraque. A
fragmentação do país em Estados confessionais, a certa altura gizada por
estrategas em Washington, muito menos. Por paradoxal que possa parecer, a única via de saída digna para o ocupante foi a oferecida pelo “triângulo sunita”. Ironia da História, o Iraque é a montra de um Império à deriva. Que sejam os de sempre a pagar pela engenharia é que se dispensava. |