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19/07/2005 Resistência nova no Iraque Wilson Sobrinho Os EUA ainda lustravam as armas no paiol para depor Saddam Hussein,
enquanto activistas do mundo todo alertavam que a guerra serviria para, entre
outros propósitos, difundir a agenda liberal no Médio Oriente. Agora, quase
28 meses depois de iniciado o conflito, começa a ficar cada vez mais claro
que os esboços feitos em Washington para o Iraque pós-Saddam, incluiam o
termo “privatização” entre as suas palavras-chave. No meio de um dos mais sangrentos fins de semana no país, quando
sucessivos ataques insurgentes deixaram mais de 150 mortos, autoridades
iraquianas anunciaram neste domingo a intenção de pôr em prática um amplo
plano de privatização do sector público. Segundo o vice-ministro de
Desenvolvimento Industrial, Adel Karim, as indústrias de cimento, tijolos e
produtos farmacêuticos serão os primeiros sectores afectados. Karim disse que
o objectivo é dar ao sector privado um «papel de liderança» na reconstrução
do país, embora admita que os conflitos possam afectar os planos dos
investidores. «A situação de segurança no Iraque obviamente continua a ser uma
prioridade para os empresários que pensam em investir no Iraque», disse,
segundo a agência Associated Press. Karim não disse se a quebra de monopólio chegará à exploração do
petróleo, mas o anúncio do novo governo pode abrir as portas para um papel
mais amplo de um sector social de pouca visibilidade no país, os sindicatos
de trabalhadores de empresas públicas. Desde 1987, por ordem de Saddam Hussein, estes trabalhadores estão
impedidos de criar as suas representações de classe. Apesar de todo o
discurso dos EUA para o Iraque estar calcado na “exportação de democracia”,
durante o período em que Paul Bremer esteve à frente da Autoridade da
Coalizão Provisória, a medida de Hussein não foi revogada. Porém, mesmo sem
plenos direitos, os trabalhadores iraquianos uniram‑se em seus
sindicatos e estão organizando‑se. Em Maio, numa conferência do Sindicato Geral dos Empregados do Sector
do Petróleo (SGEP) na cidade sulista de Basra, eles levantaram inequívocas
posições: querem a retirada das tropas invasoras; o cancelamento imediato da
dívida externa e, acima de tudo, não aceitam nem ouvir falar no termo
privatização associado à exploração de petróleo ou a qualquer outro sector
público no país. O tema virou notícia, ainda que com pouca repercussão,
apenas depois que os líderes do movimento foram aos EUA para trocar
experiências e angariar forças com os colegas norte-americanos, no começo de
Junho. Sob o slogan “Para reviver o sector público e construir um Iraque
livre da privatização”, uma carta resumindo as decisões da conferência chegou
às autoridades de Bagdade. No texto, os trabalhadores dizem ser «intolerável
(...) qualquer alteração no sector [empresas estatais] sem consulta popular»
e ressaltam que o povo iraquiano tem capacidade de encontrar sozinho a
solução para qualquer problema que possa ameaçar a indústria do país. «Vemos a defesa dos recursos do nosso país como nosso dever.
Rejeitamos e opomo‑nos a todos os movimentos para privatizar a nossa
indústria petrolífera e os recursos nacionais. Consideramos a privatização
como uma forma de neocolonialismo, uma tentativa de impor uma ocupação económica
permanente para seguir-se à ocupação militar», explicou Hassan Juma’a Awad,
secretário geral do Sindicato das Companhias de Petróleos do Sul (SCPS) e
presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Petróleo de Basra (STPB) num
artigo publicado pelo diário britânico Guardian em Fevereiro. O SGEP, dizem os seus líderes, representa várias centrais espalhadas
pelo país que contabilizam 23 mil membros. A sua criação está directamente
ligada a uma tentativa autónoma de retomar a produção logo após o começo do
conflito, em 2003. «Os trabalhadores dos campos de petróleo do sul do Iraque começaram
a organizar‑se logo que os britânicos invadiram Basra. Nós fundamos o
nosso sindicato, o SCPS, apenas 11 dias depois da queda de Bagdade, em abril
de 2003», escreveu Awad. «Desde o começo, nós não tínhamos dúvidas que os EUA
e seus aliados vieram para controlar o nosso petróleo», escreveu Awad, preso
por três vezes durante o regime de Saddam. Após colocar em pé a indústria petrolífera no meio da guerra, os
trabalhadores deram outras demonstrações de força. Mesmo sem reconhecimento
oficial, em Agosto de 2003, uma greve paralisou a produção por dois dias e
obrigou o governo provisório a sentar-se à mesa de negociação. Conseguiram
com isso impedir que trabalhadores estrangeiros ocupassem os seus postos, e
obtiveram um considerável aumento salarial. Além de contrariarem os interesses das forças de ocupação e não
desfrutarem de plenos direitos no país, os sindicalistas reclamam ainda que
são alvos de ataques dos insurgentes. Segundo David Bacon, jornalista norte-americano especializado em
trabalho e sindicalismo, as raízes do activismo sindical iraquiano
encontram-se na década de 1920, quando os britânicos passaram a explorar o
petróleo do país. Assim como hoje, à época o movimento era considerado
ilegal, e chegou a ser reprimido à bala pelos ingleses, escreveu o jornalista
num artigo do San Francisco Chronicle. «Os sindicatos no Iraque, como o dos trabalhadores do sector do
petróleo, sentem que uma das razões para que eles [novo governo] continuem a valer‑se
da lei de Saddam (...) é porque a ocupação quer manter os sindicatos fracos
enquanto levam adiante os planos de privatização», escreveu Bacon.
Recentemente ele ciceroneou um grupo de sindicalistas iraquianos em viagem de
duas semanas aos EUA em busca de apoio político junto dos seus colegas.
Segundo o jornalista, existem dezenas de centrais sindicais no país, que não
concordam em todas as posições entre si, mas convergem e unificam o discurso
quando o assunto é privatização. Neste último domingo – num movimento que aparentemente não tem relação
com o anúncio do governo – 15 mil trabalhadores da Companhia de Petróleo do
Sul entraram em greve por 24 horas em Basra, exigindo melhores salários e que
uma fatia maior dos valores obtidos com a exportação do produto fique na
região. Mais: Iraqi Oil
Workers Fight Privatization and Occupation, Democracy Now (13/06/05) David Bacon, Iraqi
unions claim their voice, SFGate (12/06/05) Greg Muttitt, Iraq’s
other resistance, The Guardian (03/06/05) Iraqi unions
say thwarted by all sides, Reuters/Alternet (14/06/05) Hassan Juma’a Awad, Leave
our country now, The Guardian (18/02/05) Sadaf Siddique, The other insurgents, The
San Francisco Bay Guardian (22 a 28 de Junho) Iraq’s
oil exports suspended by strike, Forbes (17/07/05) Official:
Iraq Wants to End Its Monopolies, Forbes/AP (17/07/05) |