Informação Alternativa

Iraque

12/04/2005

 

Que comam bombas

– A duplicação da desnutrição infantil no Iraque é desconcertante –

 

Terry Jones *

The Guardian

 

Um relatório da Comissão para os Direitos Humanos da ONU em Genebra concluiu que as crianças iraquianas estavam efectivamente melhor sob Saddam Hussein do que estão agora.

 

Isto é, evidentemente, um golpe baixo para os que honestamente acreditamos, como George Bush e Tony Blair, que as crianças crescem melhor quando lhes soltamos bombas de grande altura, destruímos as suas cidades e fazemos explodir hospitais, escolas e centrais de energia.

 

Agora parece que, longe de melhorar a qualidade de vida dos jovens iraquianos, o assalto militar ao Iraque conduzido pelos EUA duplicou inexplicavelmente o número de crianças menores de 5 anos que sofrem de desnutrição. Sob Saddam, cerca de 4% das crianças menores de 5 anos passavam fome, enquanto no final do ano passado quase 8% a sofriam.

 

Estes resultados são ainda mais desanimadores para nós no “Departamento para Tornar as Coisas Melhores para as Crianças do Médio Oriente através da Força Militar”, já que os anteriores esforços britânicos e norte­‑americanos para melhorar o destino das crianças iraquianas também se mostraram decepcionantes. Por exemplo, a política de aplicar as sanções mais draconianas de que se tenha memória fracassou totalmente em melhorar as condições. Depois de terem sido impostas em 1990, o número de crianças menores de 5 anos que morreram multiplicou­‑se por seis. Em 1995 algo como meio milhão de crianças iraquianas tinham falecido como resultado dos nossos esforços para ajudá-las.

 

Um ano depois, Madeleine Albright, então a embaixadora dos EUA para as Nações Unidas, tentou pôr boa cara a este respeito. Quando um jornalista de televisão assinalou que tinham morrido mais crianças no Iraque por causa das sanções do que as que morreram em Hiroshima, a Sra. Albright divinamente respondeu: «Pensamos que o preço vale a pena».

 

Mas George Bush claramente não. Assim saiu­‑se com a ideia de que era melhor bombardeá-los. E não apenas bombardear, mas capturar e torturar os seus pais, humilhar as suas mães, disparar-lhes dos postos de controle na estrada – mas nada disso parece resultar. As crianças iraquianas simplesmente se recusam a estar melhor nutridas, mais sãs e menos propensas a morrer. É verdadeiramente desconcertante.

 

E é por isto que nós no Departamento apelamos a si – o público em geral – por ideias. Se puder pensar em alguma outra técnica militar que tenhamos até agora falhado em aplicar às crianças do Iraque, por favor comuniquem­‑no com suma urgência. Asseguramo-lhes que, sob a nossa actual liderança, não há limites para a quantidade de dinheiro que estamos dispostos a investir numa solução militar para os problemas das crianças iraquianas.

 

No Reino Unido pode haver agora 3,6 milhões de crianças a viver abaixo da linha de pobreza, e 12,9 milhões nos EUA, sem nenhuma perspectiva de qualquer um dos governos encontrar algum dinheiro para mudar isso. Mas seguramente este é um preço que vale a pena pagar, se significar que George Bush e Tony Blair podem disponibilizar qualquer quantidade de dinheiro para bombas, granadas e balas para melhorar a vida das crianças iraquianas. Você sabe que faz sentido.

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* Terry Jones é realizador, actor e pertenceu aos Monty Python.