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31/01/2005 As eleições no Iraque – Declaração do International Action Center – retirado de AP-TMI «A tale, told by an
idiot, full of sound and fury, signifying nothing». (Um conto, contado por um idiota, cheio de som e
de fúria, sem nenhum significado) William Shakespeare Os média e a administração Bush apressaram-se a apregoar as eleições
deste fim de semana como uma vitória da democracia. No entanto, estas
eleições em nada mudaram a situação no Iraque. Na segunda-feira 31 de
Janeiro, o dia seguinte às eleições, o povo do Iraque acordou com 150.000
soldados dos EUA a ocuparem o seu país, o trunfo da CIA Ayad Allawi nomeado
chefe de estado, e os planos em curso do Pentágono de construir 14 bases
militares permanentes. Democracia significa “governo pelo povo”. Aquilo que aconteceu no
domingo limita‑se a manter a lei da ocupação militar e um governo de
conveniência. Uma eleição sem
qualquer significado Este acto de teatro político não pode, com rigor, ser descrito como
um acto eleitoral. Numa eleição, os votantes procedem à escolha de candidatos
que assumem funções e exercem medidas de poder. Nestas eleições, os votantes
não votaram num candidato, ou num partido político. Pelo contrário, votaram
numa lista, que podia incluir diversos partidos ou indivíduos – não existiam
meios de o saber. Aquelas listas foram aprovadas pelo Alto Comissariado para
as Eleições nomeado por Bremer. Os nomes dos 7.700 candidatos não foram disponibilizados,
não existindo forma de saber em quem, de facto, se estava a votar. Os candidates escolhidos através deste processo não irão exercer
qualquer autoridade executiva ou legislativa. Irão constituir uma assembleia
nacional transitória que irá delinear uma constituição sob supervisão do
ocupante. Ao povo iraquiano não foi dada a oportunidade de votar contra a
ocupação – foi‑lhe permitido votar em listas anónimas, que representam
candidatos aprovados pelos EUA que não disporão de qualquer poder para
alterar os planos dos EUA para colonizar o Iraque. É claro que o povo do Iraque quer votar livremente em eleições
livres para determinar o seu futuro, mas a ocupação não estava a escrutínio,
tornando qualquer pretensão eleitoral em algo sem significado. Os mais de 100.000 civis mortos pelos EUA durante esta Guerra não
tiveram oportunidade de votar. Tal como os prisioneiros nas câmaras de
tortura de Abu Ghraib. Voltando ao
Iraque de 1955 A administração Bush proclama que são as primeiras eleições
democráticas a terem lugar no Iraque em cinquenta anos. A última eleição
referida como democrática aconteceu sob uma monarquia nomeada pelos EUA e
britânicos para seleccionar um corpo consultivo sem quaisquer poderes
executivos ou legislativos. A sua única função foi a de oferecer uma fachada
de legitimidade a um governo fantoche, a eleição não alterou o facto de o
povo do Iraque permanecer sob a alçada das companhias petrolíferas dos EUA e
britânicas. Menos de três anos depois, uma maciça revolução popular derrubou
a monarquia corrupta e, desde então, os EUA e a Grã-Bretanha têm tentado
fazer regressar o Iraque ao mesmo estatuto semi-colonial. Estas eleições são
parte deste plano. O governo dos EUA nunca demonstrou qualquer interesse em trazer a
democracia ao Médio Oriente. O ex-secretário de Estado Henry Kissinger traçou
a política dos EUA para a região quando afirmou, «o Médio Oriente é demasiado
importante para ser deixado nas mãos dos Árabes». Os EUA não fizeram qualquer
esforço para trazer a democracia a qualquer dos estados da região onde
mantiveram tropas – os povos do Koweit, Arábia Saudita e Emiratos Árabes
Unidos vivem sob monarquias feudais, sem eleições livres, liberdades civis,
direitos civis, direitos sindicais, ou direitos das mulheres. Eleições sob
ocupação É importante salientar as circunstâncias em que se desenrolaram
estas eleições. Mais de 150.000 soldados dos EUA ocupam o país, patrulham as
ruas com armas voltadas para o povo iraquiano. Por todo o Iraque, as forças
de ocupação impõem uma série de medidas de segurança sem precedentes –
incluindo o recolher obrigatório, fronteiras fechadas, proibição ou restrição
de deslocações no Iraque. Estas eleições decorreram sob a supervisão do embaixador dos EUA
John Negroponte. Negroponte foi embaixador dos EUA nas Honduras entre 1981 e
1985 e esteve envolvido com os terroristas dos Contra e os esquadrões da
morte. No seu mandato, as Honduras foram a rampa de lançamento dos violentos
ataques ao povo da Nicarágua, El Salvador e Guatemala conduzidos pela
administração Reagan. O antecessor de Negroponte, Paul Bremer, estabeleceu as regras
destas eleições. A organização que dirigiu a eleição, o Alto Comissariado
para as Eleições, foi nomeada por Bremer e teve a autoridade para
desqualificar qualquer partido que não tivesse a aprovação de Washington.
Antes da sua saída, Bremer publicou uma série de decretos que não podem ser
revogados por uma eleição. Muitos deles, em violação da lei internacional,
estão relacionados com o saque dos recursos iraquianos e o controlo da
economia por empresas dos EUA. Pouco importa a lista que seja votada pelo
povo iraquiano, as decisões que afectam o seu futuro têm sido tomadas pelo
governo de ocupação sob as ordens de Wall Street. No apoio a Negroponte estiveram duas organizações financiadas pelos
EUA com um longo historial em manipulação de eleições “fora de portas” a
mando dos interesses de empresas dos EUA, o National Democratic Institute for
International Affairs (NDI) e o International Republican Institute (IRI).
Ambas trabalham de muito perto com o National Endowment for Democracy e a
Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, abundantemente
utilizada pela CIA para cobertura de operações no estrangeiro. Por exemplo,
estiveram envolvidas na orquestração do golpe falhado e do referendo na
Venezuela com o objectivo de substituir o popular presidente, eleito
democraticamente, Hugo Chávez. Ambas estiveram envolvidas na manipulação das eleições na Ucrânia
por forma a garantir a eleição de um chefe de estado pró-EUA. Eleições semelhantes tiveram lugar durante a guerra dos EUA contra o
povo do Vietname. Foram organizadas sob a ocupação militar, administradas
pelos EUA, e de modo algum garantiram um efectivo governo independente.
Nenhuma das eleições dirigidas pelos EUA no Vietname conferiram legitimidade
ao governo de ocupação ou conduziram ao fim da resistência. De modo
semelhante, esta eleição foi conduzida pela ameaça das armas, foi administrada
por um criminoso de guerra, e montada pelas empresas testas-de-ferro da CIA.
Pretender que isto tem alguma coisa a ver com democracia é revoltante. Esta eleição não
tem credibilidade Esta eleição foi um caso quase único porque não teve observadores
estrangeiros. Não existiu qualquer monitorização externa para fiscalizar a
votação, a integridade do escrutínio ou da contagem. A única fiscalização foi
feita por observadores treinados por grupos como o “Instituto Democrático
Nacional” – por outras palavras, pela CIA. Sem observadores internacionais a fiscalizarem o processo eleitoral,
a eleição é tão credível quanto o sejam aqueles que a organizam – a
administração Bush, que mentiu sobre as armas de destruição maciça, que mentiu
sobre as relações entre a Al‑Qaeda e o Iraque, que mentiu sobre tudo o
que esteja associado a esta guerra e a esta ocupação. Esta eleição foi
uma campanha de relações públicas A oposição à ocupação tem vindo a crescer nos EUA. Muitos cidadãos,
incluindo membros do Congresso, começaram a exigir o fim da ocupação. A eleição foi montada para criar a ilusão de progresso, à semelhança
da anedótica transferência de poderes em 28 de Junho do ano passado. A ideia é
criar uma nova ficção para legitimar a ocupação. As mentiras sobre as armas
de destruição maciça foram reveladas. As mentiras sobre o povo do Iraque
estar envolvido nos ataques de 11 de Setembro foram refutadas. Desta forma, a
administração Bush tem‑se apoiado na causa da democracia para
justificar a continuação da ocupação. O argumento de que os EUA necessitam de fazer chegar a democracia ao
Iraque, de que o país cairia numa guerra civil sem a presença dos EUA, é puro
racismo. É a utilização, de novo, do argumento utilizado pelo império
britânico e por outros impérios para justificar a colonização de nações
inteiras. Muitos daqueles que votaram, participaram na eleição julgando que
seria parte do processo que conduziria ao fim da ocupação do seu país. Todas
as sondagens indicam que um esmagador número de iraquianos querem o fim
imediato da ocupação. Quando compreenderem que a eleição serve apenas para
justificar a manutenção da ocupação e da pilhagem do seu país, terão o
pretexto para passar a um nível superior de revolta e de resistência. O mito da grande
participação Apesar das declarações da imprensa sobre a esmagadora participação,
em muitas áreas os centros de voto estiveram fechados ou desertos. Apenas uma
mão cheia de pessoas votou em Fallujah, Samarra e Ramadi. Entre os iraquianos
residentes no estrangeiro, 80% dos potenciais eleitores não votaram. Isto
dissipa o mito da baixa participação por razões de segurança. A participação
foi baixa porque o povo se opõe à ocupação e reconhece que a eleição foi uma
acção de relações públicas do ocupante do seu país. O povo iraquiano
quer o fim da ocupação já Qualquer efectivo interesse pela democracia levar-nos-ia a
reconhecer que o povo iraquiano se opõe à ocupação. As sondagens revelaram repetidamente
que o povo do Iraque quer que as tropas saiam já – não depois de terem
montado uma eleição e instalado um governo fantoche. A resistência crescente por todo o país demonstra o que os iraquianos sentem pelos ocupantes. Os ocupantes não estão lá para trazer a democracia – pelo contrário trouxeram morte, destruição e tortura. O povo iraquiano e um crescente número de pessoas em todo o mundo querem que isto termine. |