Informação Alternativa

Iraque

30/09/2004

 

Não se podem bombardear crenças

 

Naomi Klein

No Logo

 

A primeira vez que deparei com o exército Mahdi de Muqtada al-Sadr foi a 31 de Março em Bagdade. O chefe da ocupação dos Estados Unidos, Paul Bremer, acabava de enviar homens armados para fechar o jornal do jovem clérigo, Al Hawza, sob o argumento de que os seus artigos comparando Bremer com Saddam Hussein incitavam à violência na contra os norte­‑americanos. Em resposta, Sadr convocou os seus apoiantes para protestar diante das portas da Zona Verde, exigindo a reabertura do Al Hawza.

 

Quando soube do protesto, quis ir, mas existia um problema: tinha estado a visitar fábricas estatais todo o dia e não ia vestida adequadamente para uma multidão de fiéis xiitas. Mas, raciocinei, não se trata de uma demonstração em defesa da liberdade de imprensa? Rejeitariam realmente uma jornalista em calças soltas? Coloquei um lenço e pus­‑me em marcha.

 

Os manifestantes tinham escrito cartazes em inglês que diziam: «Deixem os jornalistas trabalhar sem terror” e “Deixem os jornalistas fazer o seu trabalho”. Isso soava bem, pensei, e pus­‑me a trabalhar. No entanto, cedo fui interrompida por um membro do exército Mahdi vestido de negro: queria falar com o meu tradutor a respeito de meu vestuário. Um amigo e eu caçoamos que íamos fazer o nosso próprio cartaz de protesto dizendo: “Deixem as jornalistas usar as suas calças”, mas a situação depressa de tornou séria: Outro soldado de Mahdi agarrou o meu tradutor e empurrou­‑o contra uma parede de betão, magoando as suas costas gravemente. Entretanto, uma amiga iraquiana telefonou para avisar que estava bloqueada dentro da Zona Verde e não podia sair: tinha­‑se esquecido de trazer um lenço e tinha medo de deparar com uma patrulha Mahdi.

 

Foi uma lição exemplar sobre quem é realmente Sadr: não um libertador anti­‑imperialista, como alguma gente da esquerda o qualifica, mas alguém que deseja expulsar os estrangeiros para subjugar e controlar ele mesmo grande parte da população iraquiana. Mas Sadr também não é o bandido unidimensional que muitos descrevem nos meios de comunicação, uma representação que permitiu que muitos liberais permaneçam calados enquanto ele é impedido de participar nas eleições e olhar para o outro lado enquanto forças dos Estados Unidos bombardeavam cada noite cidade de Sadr, punindo toda a população civil e, mais recente, produzindo um apagão durante os combates no meio de um surto de hepatite E.

 

A situação requer uma atitude de maiores princípios. Por exemplo, os apelos de Muqtada al-Sadr pela liberdade de imprensa podem não incluir a liberdade para mulheres jornalistas. Contudo, ele ainda tem o direito de publicar o seu jornal político, não porque creia na liberdade, mas porque supostamente nós o fazemos. Similarmente, as reivindicações de Sadr exigindo eleições justas e um fim à ocupação exigem o nosso apoio inequívoco – não porque estejamos alheios à ameaça que ele poria se realmente o elegessem, mas porque acreditar noo conceito de autodeterminação significa admitir que os resultados da democracia não se devem manipular.

 

Estes tipos de distinções matizadas são habitualmente feitas no Iraque: Muita gente que conheci em Bagdade condena fortemente os ataques contra Sadr como a prova de que Washington nunca se propôs trazer a democracia ao seu país. Apoiaram o apelo de Sadr ao fim da ocupação e por eleições imediatas. Mas quando lhes é perguntado se votariam por ele em tais eleições, a maioria simplesmente se ri da perspectiva.

 

No entanto aqui na América do Norte, a ideia de que é possível apoiar o apelo de Sadr sem apoiá-lo como futuro primeiro­‑ministro do Iraque resultou mais difícil de assimilar. Por defender esta posição, fui acusada de inventar «desculpas para os teocratas e misóginos» por Nick Cohen, no London Observer, de ter «ingenuamente  caído a favor do exército de Al-Mahdi» por Frank Smyth, no Foreign Policy in Focus e de ser uma «socialista-feminista que oferece um apoio desfalecido aos teocratas fascistas» por Christopher Hitchens, na Slate.

 

Toda esta varonil defesa dos direitos das mulheres certamente suficiente para que uma rapariga desfaleça. Mas antes de que Hitchens se lance ao resgate, vale a pena recordar a maneira como ele racionalizou o seu apoio à guerra, o qual arruinou a sua reputação: ainda que as forças estadunidenses realmente estivessem ali por causa do petróleo e das bases militares, ele argumentou, a libertação do povo iraquiano seria um efeito secundário tão esplêndido que os progressistas em todo o lado deveriam aplaudir os mísseis de cruzeiro. Enquanto o feliz desenlace da libertação continua a ser uma piada cruel no Iraque, Hitchens agora propõe que esta mesma anti­‑feminista e anti­‑homossexual Casa Branca, é a melhor esperança do povo iraquiano contra a marca de anti­‑feminismo e anti­‑homossexualidade do fundamentalismo religioso de Sadr. Uma vez mais é­ suposto que aperte­‑mos os narizes e festejemos o passo dos Bradleys – para o melhor de dois males. Não existe dúvida alguma de que os iraquianos enfrentam uma ameaça crescente do fanatismo religioso, mas as forças dos EU não conseguirão proteger as mulheres iraquianas nem as minorias de tal ameaça, mais do que protegeram os iraquianos de ser torturados em Abu Ghraib e de ser bombardeados nas cidades de Faluja e Sadr. A libertação nunca derivará desta invasão, pois a dominação, e não a libertação, foi sempre o seu objectivo.

 

Ainda considerando o desenlace mais propício, a actual conjuntura no Iraque não radica em eleger entre o perigoso fundamentalismo de Sadr e um governo laico e democrático composto por sindicalistas e feministas. A eleição é entre eleições livres (com o risco de conceder o poder aos fundamentalistas, mas permitindo que as forças laicas e religiosas moderadas se organizem) e umas eleições fraudulentas desenhadas para outorgar o poder a Iyad Allawi e seus sequazes treinados pela CIA e pelo Mukhabarat, completamente dependentes de Washington em questões financeiras e de poder.

 

Esta é a razão pela qual Sadr está a ser caçado – não porque ele seja uma ameaça aos direitos da mulher, mas porque ele é a maior ameaça singular ao controle militar e económico dos Estados Unidos no Iraque. Mesmo depois de o grande Ayatola Ali Al­‑Sistani, temendo uma guerra civil, fizesse marcha atrás na sua luta contra os planos de trasladação de poder, Sadr continuou a opor­‑se à constituição ditada pelos EU, continuou a apelar à retirada das tropas estrangeiras e continuou a opor­‑se aos planos dos Estados Unidos de designar um governo interino em vez de efectuar eleições. Se as exigências de Sadr são cumpridas e o destino do país é verdadeiramente deixado nas mãos da maioria, as bases militares dos EU no Iraque estarão em sério perigo, bem como todas as leis em favor da privatização impulsionadas por Bremer.

 

Os progressistas deveriam opor-se ao ataque dos Estados Unidos a Sadr, porque é um ataque não a um homem, Mas à possibilidade de um futuro democrático para o Iraque. Existe também outra razão para defender os direitos democráticos de Sadr: é a melhor maneira de lutar contra o aumento do fundamentalismo religioso no Iraque.

 

Longe de reduzir a atracção pelo extremismo, o ataque dos EU contra Sadr consolidaram­‑no amplamente. Sadr tem­‑se cimentado habilmente não como o porta­‑voz limitado dos estritamente xiitas, mas como um nacionalista iraquiano que defende todo o seu país contra invasores estrangeiros. Por isso, quando o exército estadunidense o atacou com ferocidade e ele se atreveu a resistir, ganhou o respeito de milhões de iraquianos que vivem sob a humilhação e a brutalidade da ocupação.

 

As brutais tentativas de silenciar Sadr também serviram para confirmar os piores temores de muitos xiitas: que estão a ser traídos uma vez mais pelos norte­­­‑americanos, os mesmos norte­­­‑americanos que apoiaram Saddam durante a guerra Irão­‑Iraque, que custou as vidas a mais de cem mil iraquianos; os mesmos norte­­­‑americanos que os incitaram à insurgência em 1991, para depois abandoná-los à carnificina. Agora, de novo sob cerco, muitos estão a procurar refúgio nas certezas do fundamentalismo, para não mencionar nos serviços sociais de emergência providenciados pelas mesquitas. Alguns inclusive estão a concluir que precisam de um tirano dos seus, um feroz fundamentalista que defronte os outros homens fortes que estão a tentar controlar o Iraque.

 

Tal mudança de atitude é evidente em todas as sondagens. Uma sondagem da Autoridade Provisória da Coligação conduzida em Maio, depois do primeiro cerco estadunidense em Najaf, demonstrou que a opinião sobre Sadr tinha melhorado entre 81 por cento dos iraquianos sondados. Uma sondagem do Centro para a Investigação e Estudos Estratégicos do Iraque qualificou Sadr – um protagonista marginal apenas seis meses antes – como a segunda figura política de maior influência no Iraque depois de Sistani.

 

O mais alarmante é que os ataques parecem aumentar o apoio não somente a Sadr pessoalmente, mas à teocracia em geral. Em Fevereiro, o mês antes de Paul Bremer fechar o jornal de Sadr, uma sondagem da Oxford Research International descobriu que a maioria dos iraquianos desejava um governo laico: somente 21 por cento dos interrogados declararam preferência por um “estado islâmico” e somente 14 por cento qualificaram “políticos religiosos” como os seus actores políticos preferidos. Voltando a Agosto, com Najaf sob cerco pelas forças dos EU: o Instituto Republicano Internacional divulgou que uns alarmantes 70 por cento de iraquianos desejam que o Islão e a Shariah [Lei Islâmica] constituam as bases do Estado. A sondagem não distinguiu entre a interpretação inflexível da Shariah de Sadr e outras versões mais moderadas praticadas por outros partidos religiosos. Contudo, é claro que algumas das pessoas que me disseram em Março que apoiavam Sadr, mas que nunca votariam por ele estão a começar a mudar de opinião.

 

Em resposta à minha última coluna, Levar Najaf a Nova Iorque [1], recebi uma carta do major Glen Butler, um marine piloto de helicópteros dos EU estacionado em Najaf. O major Butler defende o cerco à cidade santa dizendo que ele e os seus companheiros marines estavam a tentar impedir o «mal» do «radicalismo muçulmano» de se espalhar – «O nosso desejo é manter Najaf em Najaf».

 

Bem, não está a resultar. As armas dos helicópteros são boas a matar pessoas. As crenças, sob fogo, tendem a espalhar­‑se.

 

___________

[1] Em inglês. Uma versão castelhana pode ser lida no La Jornada.