Informação Alternativa

Europa

Março 2006

 

Tudo começou num dia de 1972

 

Danièle Linhart *

Le Monde diplomatique

 

A individualização do trabalho não surgiu apenas devido à recente modernização, ligada à crise aberta pelas novas formas de concorrência e pela evolução do mercado. Foi iniciada na década de 1970 como reacção aos acontecimentos de 1968, muito desestabilizadores para o patronato francês da época. A violência de se pôr em causa o trabalho taylorizado e o autoritarismo, a explicitação da recusa da exploração e das desigualdades, em nome de um direito ao desenvolvimento pessoal [1], convenceram o patronato da necessidade de proceder a reformas de monta que contrariassem esta vaga de fundo. Nessa altura, o projecto que o anima é simples: pôr em marcha todos os meios susceptíveis de minimizar as fontes do descontentamento e, sobretudo, a sua expressão.

 

Em 1972, as assembleias do Conselho Nacional do Patronato Francês (CNPF) realizadas em Marselha colocam a questão da humanização e da revalorização do trabalho. Na mesma altura, também o governo procura soluções, criando a Agência Nacional para a Melhoria das Condições de Trabalho (ANACT) e um secretariado de Estado... para a revalorização do trabalho manual. O objectivo oficial consiste em tornar a organização do trabalho mais atraente. Inspirando-se em experiências escandinavas, os dirigentes das empresas introduzem a rotatividade das tarefas, o seu alargamento e enriquecimento, e instauram, em certos casos, grupos semi­‑autónomos de produção.

 

Mas, desde o início, o patronato concentra os seus esforços na individualização sistemática da gestão dos assalariados, verdadeiro Cavalo de Tróia lançado na batalha para inverter uma relação de forças que passara a ser demasiado desfavorável, ligada à extensão da classe operária. Concebida para minar a capacidade de contestação maciça dos assalariados, esta individualização pretende satisfazer certas aspirações manifestadas em 1968, como a tomada em consideração da pessoa, das suas necessidades, do seu mérito.

 

Começa então uma longa série de reformas que vão transformar significativamente a vida no trabalho. Na linha de mira encontra-se tudo o que é colectivo.

 

Tudo começa no início da década de 1970, quando a introdução dos horários variáveis ou à escolha vem individualizar a entrada e a saída no trabalho. A medida desorienta os sindicatos, que não podem opor­‑se a algo que é visto pelos assalariados como um afrouxamento dos constrangimentos, mas que se vêem confrontados com um problema de contacto com os assalariados e de distribuição de folhetos. A Revue du CNPF consagra o ano de 1976 como «o ano I do horário flexível» [2].

 

Na tese que elaborou sobre a história da fábrica Peugeot de Sochaux, Nicolas Hatzfeld relata magistralmente a implantação desta estratégia pós-68, cujos objectivos são claros: «Demassificar revalorizar­‑hierarquizar, personalizar», é o que afirma a fórmula estabelecida pelo responsável da gestão do pessoal operário. O que está em causa é «quebrar a lógica de massas que decorre da conjunção de dois elementos: por um lado, a organização taylorista do trabalho e, por outro, a força de um sindicalismo de classe representado pela CGT e a CDT» [3].

 

A estratégia é acompanhada da individualização dos prémios e dos aumentos dos salários, sendo também nesta altura que surgem, nas convenções colectivas, critérios que já não se apoiam apenas na definição das qualificações requeridas para um posto de trabalho mas também nas «competências dos assalariados». São os chamados «critérios classificativos». A vontade expressa é a de modernizar as grelhas de classificação, mas esta modernização faz-se quebrando as lógicas colectivas.

 

A importância atribuída desde o início da década de 1970 à comunicação de empresa, destinada a inculcar outros valores que não os veiculados pelas organizações sindicais, persegue o mesmo objectivo. Algo de idêntico acontece com o estabelecimento, no mesmo período, de círculos de qualidade, antecipando o grande impulso participativo. O patronato pretende instaurar relações directas entre os assalariados e a sua hierarquia, a fim de marginalizar a influência dos colectivos, cujo arcaísmo é decretado.

 

Consumando esta abordagem, a década de 1990 assiste à generalização das entrevistas directas: o assalariado compromete­‑se junto do seu superior imediato a realizar um certo número de objectivos e participa na evolução do próprio desempenho um ano depois, como numa espécie de confessionário onde deve elogiar os seus méritos e confessar os erros ou insuficiências.

 

Tal como foi demonstrado pelos especialistas em história social da empresa, estas evoluções conduziram efectivamente a uma real atomização substitutiva das antigas relações sociais, anteriormente caracterizadas pela existência de poderosos colectivos informais e por uma solidariedade de classe [4].

 

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* Socióloga, directora de investigação no CNRS, autora nomeadamente, com Aimée Moutet, de Le Travail nous est compté. La construction des normes temporelles du travail, La Découverte, Paris, 2005; com Jacques Kergoat, Josiane Boutet, Henri Jacot (direcção), de Monde du travail, La Découverte, 1998; e, com Barbara Rist e Estelle Durand, de Déchirures du travail, Erès, Paris, Outubro de 2002.

 

[1] Aquilo que Luc Boltanski e Eve Chiapello analisam como a coexistência de uma crítica estética e social, na obra Le Nouvel Esprit du capitalisme, Gallimard, col. “NRF Essais”, Paris, 1999.

[2] Béatrice Piazza Baruch, “Stratégies de communication interne et transformation des rapports sociaux dans l’entreprise”, tese de sociologia, Universidade de Evry, 2001.

[3] Nicolas Hatzfeld, ,Organiser. produire, éprouver:  histoire et présent de l’usine de carrosserie de Peugeot à Sochaux (1948-1996)”, tese de doutoramento em História, EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales), Paris, 2000.

[4] Ler, nomeadamente, Nicolas Hatzfeld, Les Gens d’usine à Peugeot-Sochaux. Cinquante ans d’histoire, L’Atelier, Paris, 2002.