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Europa |
28/06/2008
Aqui e lá Emir Sader Um cartaz em uma
manifestação de imigrantes equatorianos – eles são mais de 700 mil, chegados
depois da dolarização da moeda do país –, lutando pela sua legalização,
dizia: «Estamos aqui, porque vocês estiveram lá». Afirmação sintética sobre a
relação entre colonizadores e colonizados, entre globalizadores e
globalizados. A chamada Directiva da
vergonha – assim caracterizada pela carta de Evo Morales [1] pedindo aos
governos europeus para não aprová-la – reflecte uma viragem geral para a
direita no continente, de tal forma que, ao mesmo tempo que foi aprovada a
duríssima legislação sobre os imigrantes, a duração da jornada de trabalho
foi aumentada para além das 48 horas semanais, incluídas as horas extras.
Agora a jornada deve ser negociada directamente entre patrões e trabalhadores,
podendo chegar até 78 horas – mais do que o dobro das 35 horas aprovadas há
duas décadas na França. Em algumas regiões a
polícia tem o poder de deter qualquer pessoa por 42 dias sem acusações.
Alguns serviços secretos estão autorizados a violar, sem autorização
judicial, os correios electrónicos. Os imigrantes sem documentos podem ser
detidos por até 18 meses. As crianças podem ser enviadas a países distintos
da sua origem. O governo italiano mandou ao Parlamento um projecto de lei que
pode castigar com até 4 anos de prisão imigrantes ilegais. Autorizou também a
polícia a deter e expulsar os ciganos. A França fixou cotas de estrangeiros a
ser expulsos cada ano, número ascendente conforme passam os anos. A Inglaterra aumenta de
28 para 42 dias a detenção sem acusações a suspeitos de terrorismo. A França
autoriza o interrogatório de suspeitos durante 6 dias sem a intervenção de
advogados e as normas que controlam os aeroportos tornaram‑se
secretas. A Espanha, mesmo sendo
o país que regularizou a situação de centenas de milhares de estrangeiros,
apresenta, no entanto, o caso mais evidente de discriminação. Por um lado,
tolera os latino-americanos – brancos, de fala espanhola, religiões
ocidentais –, a ponto de tê-los recrutado para fazer a guerra no Iraque e no
Afeganistão, com uniformes espanhóis. Mas rejeita os africanos, que chegam
diariamente às suas fronteiras, especialmente desde Marrocos, Senegal e
Mauritânia. Somente neste ano 12.260 chegaram e foram rechaçados. Os que foram
legalizados, foram‑no quando a economia espanhola crescia, a população
espanhola diminuía e ninguém queria fazer trabalhos desqualificados. Mas
agora que chega a recessão, fecham-se as portas para os imigrantes. «A mensagem europeia é
clara» – diz um colunista espanhol: «imigrantes, não, muito obrigado;
petróleo, passe, por favor». Em outras palavras, livre comércio, mas, numa
sociedade que considera os seres humanos mercadorias, estes – ou estas – são
excluídos(as) da lei geral. As mercadorias podem e devem circular livremente,
os seres humanos, não. Os seres humanos –
neste caso, imigrantes – estão acompanhados das ideias. O norte globalizador
envia sistematicamente as suas interpretações do mundo – via grande mídia,
via internet, via cinema, editoras, etc. – para o sul globalizado, que não
tem como difundir as suas visões do mundo, visto desde a periferia. Não é necessário
recordar que sempre aceitámos os imigrantes europeus, sem nenhuma política de
cotas. Mas as reacções são imediatas. Uma vez Garcia Marquez anunciou que não
permitiria mais a venda dos seus livros na Espanha, se passasse a ser
solicitado visto para os colombianos. Agora Hugo Chávez anuncia que deixará
de vender petróleo aos países que aplicarem a Directiva da vergonha. O
Mercosul condenou expressamente a medida. Imigrantes sem papéis invadiram
centros que deveriam atendê-los em Paris. Marroquinos aproveitaram‑se
que todos os espanhóis estavam a assistir à cobrança de pénaltis, em que a
selecção do seu país derrotou a italiana, para saltar os muros da fronteira
em grande quantidade. A fronteira entre
direita e esquerda nunca é tão clara quanto no que se refere à política com
os imigrantes. Porque eles estiveram aqui, há tantos dentre nós por lá. _____ [1] Evo Morales Ayma, O papel real dos migrantes. Carta aberta do
Presidente da República da Bolívia à União Europeia, 12/06/2008. |