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Maio 2007 Miguel Portas Os mais recentes acontecimentos políticos na França, Polónia e
Estónia, sendo entre si distintos, obedecem a uma mesma tendência forte: as
direitas puras e duras esticam a corda e as políticas, no espaço da União,
“nacionalizam-se”. Sarkozy venceu apropriando-se de todos os temas fortes da
extrema‑direita francesa. Desde logo, a imigração. Mas também a
afirmação de uma ideia de nação forte, capaz de se proteger do mundo
envolvente e de nele desempenhar um lugar central, à medida das glórias
perdidas. Formalmente, Sarkozy é um herdeiro do general De Gaulle. Mas pouco
tem a ver com ele. De Gaulle via a soberania francesa no contexto da
afirmação de um projecto europeu independente dos Estados Unidos. Sarkozy, pelo contrário, é o mais atlantista dos presidentes
franceses e olha para a Europa do estrito ponto de vista dos interesses da
burguesia francesa. Para De Gaulle, a ideia de Estado forte envolvia poder
nuclear, mas também uma dose estratégica de capitalismo de Estado. Sarkozy,
diversamente, é uma mistura explosiva de neoliberalismo com proteccionismo.
Em rigor, o seu discurso não é novidade. Nos países bálticos, na Polónia ou
na República Checa, este cocktail tem sido ensaiado sem sofisticações. Na
Europa, os governos destes países actuam como quintas colunas de Washington e
como postos avançados do liberalismo económico mais selvagem. Adivinham‑se
tempos difíceis. Invocando o “perigo iraniano”, a Casa Branca quer instalar um sistema
anti-míssil na Polónia e na República Checa. Os governos do báltico querem
igualmente novos meios militares. Putin, não sem bons argumentos, vê esta
escalada como uma ameaça ao seu país. Até ao momento, a Europa hesitava ante
a mais recente intromissão norte‑americana. A vitória de Sarkozy faz
pender a balança para o partido da força. Outra consequência da nova relação
de forças adivinha-se na discussão do Tratado. Com Sarkozy, os eurocratas de
recorte federalista arquivam os seus sonhos. A 6 de Maio, ressuscitou a
Europa do Directório, ou seja, a ideia de Europa como mera união de
interesses e conveniências entre grandes Estados dotados de uma imensa
periferia de pequenos mercados. O que, convenhamos, não é grande espingarda
para o nosso país... |