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Março 2007
O jardim dos caminhos que se bifurcam (I) Miguel Portas O título deste ensaio –
que prossegue no próximo número – sobre a União Europeia, 50 anos depois do
seu primeiro momento constitutivo, é de Jorge Luís Borges. Nesse conto,
situado em plena primeira grande Guerra, o escritor argentino discorre sobre
o papel dos actos no desenho dos distintos futuros. A sua parábola aplica‑se,
como poucas, à encruzilhada em que a Europa se encontra. I. A presidente
europeia em exercício, Angela Merkel, divulgou no passado dia 25 de Março,
uma Declaração de Berlim que,
assinalando o cinquentenário do Tratado de Roma, tinha por objectivo relançar
o projecto europeu. O primeiro facto a assinalar é que o texto, intensamente
negociado pelos Estados membros, não tem as suas assinaturas, mas apenas os
respectivos consentimentos. Esta é a Declaração da presidência alemã aceite pelos seus pares na União. A segunda
particularidade da Declaração é a de
variar em função da tradução, ao sabor das prerrogativas de cada chancelaria.
Por exemplo, a maioria dos Estados membros considera que no «modelo europeu»
se «conjugam sucesso económico e responsabilidade social». Mas outros, a
braços com verdadeiros divórcios entre a União e os seus cidadãos, preferiram
substituir a palavra “responsabilidade” pelo conceito de “solidariedade”... O singular modo deste
texto de página e meia evidencia dois dos actuais impasses europeus, a saber:
a dificuldade do entendimento entre Estados, que não permite, em regra, mais
do que acordos mínimos, mesmo quando todos convergem nas escolhas
fundamentais; e a percepção de que se abriu, no espaço da União, uma fractura
entre “os de cima” e os “de baixo” que recomenda, acima de tudo, prudência.
Qualquer das constatações bastaria para que a celebração do 50º aniversário
do Tratado de Roma tivesse sido pretexto para uma importante discussão
pública sobre o futuro da União. Mas isso seria pedir demais à sua
presidência. II. Não estranha, em
consequência, que o curto e laborioso texto de Angela Merkel dedique metade
das suas linhas à glorificação do passado, um terço à reafirmação do
presente, e que o futuro se fique por dois breves parágrafos, que se concluem
com uma promessa de marcha forçada: «até às eleições para o Parlamento
Europeu de 2009, dotaremos a União Europeia de uma base comum e renovada». Vista de Berlim ou de
Bruxelas, a aposta faz todo o sentido. Para quem dirige a União, esta é o
resultado de uma voluntarista sucessão de actos de vontade praticados por
visionários de longo alcance. Para a eurocracia – e dela é tributária a
Alemanha – a União é consequência de uma vontade de vanguarda, e o consenso
popular o seu resultado. Essa a maior das lições que tiram de 50 anos de
História unificada. A tese que se sustenta nesta reflexão é precisamente a
contrária: hoje, só é concebível um projecto europeu sólido, se o consenso
popular for uma condição prévia do seu sucesso. III. No Jardim
dos caminhos que se bifurcam pode imaginar-se
aquele em que vinga o voluntarismo da senhora Merkel. Mas é, entre todos, o
menos provável. Antecipemo-lo em forma de road map, para se perceber porquê: Até Junho de 2007, a
presidência alemã divulgará o calendário para um novo Tratado. A dificuldade
maior desta fase 1 é a definição do âmbito do novo texto: será
“institucional” ou “constitucional”? Metade dos governos prefere a primeira
variante, em teoria menos problemática; contudo, quem já ratificou a actual
proposta de tratado prefere a segunda versão para não ter que dar o dito pelo
não dito ante as suas opiniões públicas. Estados poderosos encontram-se dos
dois lados da barricada. E a França em nenhum, pelo menos até à eleição
presidencial de Maio. Admitamos que o
diferendo pode ser diferido para a fase 2, que ocupará as presidências
portuguesa e eslovena da União. Entre Julho de 2007 e Junho de 2008, estas
presidências realizarão pelo menos duas conferências inter‑governamentais
com o objectivo de chegarem a um novo texto. Ambas prefeririam não ter que o
fazer, mas não têm como escapar. A Conferência da
presidência portuguesa deverá dirimir o desacordo “táctico”. A variante
“institucional” é minimal – deixa cair a terceira parte da actual proposta de
Tratado para salvar a primeira e, talvez, a segunda. Já na opção
“Constitucional”, mantém-se todo o articulado e acrescentar-se-ão os anexos
que forem necessários para “amolecer” a rejeição de franceses e holandeses. É
na presidência eslovena que se concentram os verdadeiros problemas. Mesmo que
vingue a perspectiva minimal, não faltará quem coloque em cima da mesa novos
equilíbrios de poderes, destinados a reforçarem a dimensão europeia das
políticas em detrimento das prerrogativas de cada Estado. Por muito que todos
reafirmem loas de fidelidade ao anterior Tratado, ele deixa de ser intocável
a partir do momento em que a discussão é reaberta. Os eslovenos, periféricos
em relação à Alemanha, e ainda com reduzida experiência nas lides e manhas da
União, estarão metidos numa verdadeira alhada. Não deixarão, aliás, de
negociar duramente as contrapartidas do sarilho que lhes caiu em sorte... Admitamos, contudo, que
os líderes europeus chegam, até Junho de 2008, a uma nova versão do Tratado.
Segue‑se a fase 3, de ratificação, a decorrer entre Julho de 2008 e
Junho de 2009, mês das eleições para o Parlamento Europeu. Nos 17 Estados que
já haviam ratificado a anterior versão, os governos imporão expeditas
confirmações parlamentares. Ainda assim, não é certo que todos consigam
afastar da equação a figura do referendo. Paradoxalmente, quanto mais
diferente seja o novo texto da versão original, pior. Já com a França e a
Holanda se passa precisamente o contrário. Finalmente, sobram os que ficaram
de fora, como Portugal, o Reino Unido, a República Checa ou a Polónia. Em teoria, é possível
fazer o pleno do “Sim”. Mas as hipóteses são diminutas. O sucesso do road
map alemão depende de uma excepcional
conjugação de imponderáveis. Por outro lado, o seu preço é incalculável. Quem
alinhar na marcha forçada das ratificações parlamentares, corre o sério risco
de ver duramente castigada a sua ousadia nas eleições europeias e
legislativas que se seguem. Retirar o povo da equação é a condição da
ratificação. Eis porque o improvável sucesso desta só tem uma consequência
certa – aprofundar o divórcio entre os povos e a instituição europeia, na
exacta medida em que dispensa a sua opinião. O calcanhar de Aquiles
da Declaração de Berlim é simples: o
preço do sucesso constitucional é o fracasso da democracia. IV. Podem antever-se
outros caminhos? Podem. E, portanto, outros futuros. Vista “de baixo”, a
Europa está muito longe da visão idílica com que os seus líderes a
apresentam. As preocupações da maioria estão bem para cá da urgência
constitucional. O emprego deixou de ser seguro; os novos são precários; o
acesso ao sonho universitário deixou de representar uma garantia de futuro; a
diminuição de regalias nos sistemas de saúde e segurança social passaram a
ser uma realidade tão forte quanto a do excessivo endividamento bancário. Eis
por onde andam as preocupações. Pelas incertezas da vida. Por outro lado, a
revolução comunicacional faz chegar à casa de cada família mil novas
“ameaças”, reais ou fictícias. Guerras, atentados terroristas, roubos
mediatizados no quarteirão do vizinho, acidentes de estrada ou cataclismos e
catástrofes ambientais são diariamente igualizados nos serviços de notícias. Desde o 11 de Setembro,
mesmo clássicos conflitos urbanos se passaram a olhar à luz do “choque de
civilizações”. Uma nova mundividência do quotidiano emerge na Europa, sob a
forma de uma percepção angustiada do mundo e da vida. Finalmente, o recuo das
formas organizadas de representação social, em resultado de duas décadas de
liberalismo económico, e a crise da própria política, hoje sob suspeita
generalizada, completam o caldo de cultura onde muitos redescobrem o
Estado-nação como lugar de refúgio. 50 anos após o Tratado de Roma, parte não
negligenciável dos europeus querem menos ou nenhuma Europa. No Jardim, esta é outra das bifurcações possíveis. O grande beneficiário
político da marcha forçada em direcção a um Tratado recauchutado, é o
soberanismo e, neste, as suas correntes de direita e extrema-direita. Também
esta é uma consequência certa da hipótese alemã. Antigos e moderníssimos, os
populismos de direita opõem à arrogância eurocrata uma mistura explosiva de
argumentos que colhe em todas as inseguranças. V. Encontro-me entre os
que pensam que a integração económica e política de um espaço com mais de
três dezenas de Estados e outras tantas línguas, é uma obra de extraordinário
alcance. Não se deve renunciar à ideia de que os conflitos se podem resolver à
mesa e não em campo de batalha. Eis porque não pode a esquerda “deitar fora o
bebé com a água do banho”. A hipótese estratégica a que o Bloco é fiel desde
a sua fundação mantém plena actualidade: uma mudança no papel da Europa é
indissociável da sua própria refundação democrática e social. Se a integração
favorece bem mais o Capital do que o Trabalho, é preciso que assim deixe de
ser. Se temos uma Europa de Paz, mas não uma Europa para a Paz, é por esta
que nos devemos bater. Se temos um mercado único, mas não uma Europa social,
é pela última que nos mobilizaremos. E se a União escolhe os seus imigrantes
e trata os restantes como descartáveis ou como ilegais, é pela dignidade da
vida humana que juntamos forças. Resistência social, portanto. Mas também proposta
política. As questões do poder não nos são indiferentes. Não é por acaso que
o liberalismo económico quer a sua constitucionalização. O socialismo só pode
combater esta perspectiva. Mas não lhe chega a negativa. Ele tem que se
afirmar como projecto europeu e para hoje. Deve ser o terceiro dos futuros
possíveis. O melhor. VI. A condição desse
projecto é a ideia de que a Europa não avança de costas para os seus povos e
cidadãos. A marcha forçada alemã deve ser contrariada com a exigência de
referendos. Simultaneamente, deve apresentar-se a alternativa de um processo
constituinte indiscutivelmente democrático. O próximo Parlamento
Europeu deve ter poderes para escrever a primeira versão de um novo Tratado
Constitucional. Isso faria das eleições de 2009 o primeiro grande momento de
debate popular em toda a Europa sobre o seu futuro. Cada força, europeia ou
nacional, diria ao que vem - favorável a que tipo de Tratado e porquê; ou
contrária, e obrigando-se a explicar o que propõe em alternativa. A primeira versão do
novo texto seria, em seguida, objecto de segunda leitura pelos parlamentos
nacionais. Um compromisso entre Parlamento e Conselho selaria o documento a
ser ratificado por cada Estado, de preferência por referendo. Se a marcha
forçada alemã quer retirar o povo da equação, esta alternativa, pelo
contrário, coloca‑o, pela primeira vez, no centro da decisão europeia.
A partir daí, a luta continua. Como sempre. Mas sob uma base bem mais
avançada. |