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Europa |
24/03/2007
50 anos Daniele Mostrogiacomo,
jornalista do La Repubblica, sequestrado
no Afeganistão, foi trocado por cinco prisioneiros reclamados pelos talibãs.
Quem intermediou a operação foi uma ONG italiana. Acto contínuo, choveram as
críticas e as acusações ao governo de Roma. Dos EUA, de Berlusconi, e dos
primeiros-ministros da Alemanha, da Holanda e Reino Unido. De rabo calejado
em acolhedoras poltronas, classificaram a troca como “traição”, não cuidando
de explicar que a alternativa era a morte do jornalista. E que nunca ele lá
teria ido parar, não fosse a peregrina ideia de que as ocupações militares
são virtuosas. Mais ou menos pela
mesma altura, o ministro dos Negócios Estrangeiros do mais desenvolvido país
do Mundo, a Noruega, voava para Gaza e estabelecia relações com o governo de
unidade palestiniana, formado no passado fim‑de‑semana. Só o
fim do embargo pode evitar a guerra de todos contra todos. Apesar da
evidência, a União Europeia continua a não querer desagradar à Casa Branca e
a Israel, e inclina-se para a mais absurda das soluções: falar apenas com os
ministros que não são do Hamas. Bem mais a Norte, na
Inglaterra, o governo quer que as escolas possam interditar o uso do niqab às muçulmanas que o usem. O niqab é um lenço que cobre a cara mantendo os olhos a
descoberto. Quase ninguém o usava. Mas no contexto actual, o que não era
problema, reinventa-se como questão identitária. Os franceses já tinham feito
asneira. Agora têm companhia. Virando a leste, na
Polónia, entramos na caça às bruxas. Meio milhão de criaturas terá que provar
que não colaborou com o comunismo. Some-se ao delírio uma emenda
constitucional sobre a protecção da vida “desde a concepção”, a proibição de
se falar ou discutir a homossexualidade nas escolas, e uma campanha
governamental contra o preservativo, e estamos falados em matéria de liberdades. Última nova da semana
em que a União celebra o 50º aniversário do Tratado que a fez nascer: vem aí
o cartão azul, para distribuir “aos imigrantes que interessam”. A ideia
nasceu nos EUA e a Europa imita. A intenção é atrair os bons imigrantes, os
mais qualificados, mantendo os outros no limbo da não cidadania. Sangra‑se
a África e enxotam-se os pobres. Uma vergonha. Esta Europa constrói-se
ao arrepio dos seus próprios êxitos e orgulhos. Todos os dias, abdica de uns
e renuncia aos outros. Não percebendo que só as sepulturas vivem do passado. (...) |