Informação Alternativa

Europa

Dezembro 2006

 

Economistas em guerra contra os desempregados

 

Laurent Cordonnier *

Le Monde diplomatique

 

Há doze anos, Jacques Chirac fez da luta contra a «fractura social» o objectivo da sua presidência. Esse objectivo deveria ser atingido graças à diminuição do desemprego e ao aumento dos salários («A folha de pagamento não é o inimigo do emprego»). No momento em que se abre uma nova campanha presidencial em França, o nível de vida das camadas populares continua a degradar-se, em particular devido ao custo da habitação. E quando o desemprego recua, isso deve-se em muito à importância das classes de idades que partem para a reforma, à generalização dos estágios e contratos mal pagos e, por fim, ao rigor punitivo da indemnização dos desempregados.

 

As pressões sobre os desempregados e os “beneficiários” de subsídios sociais que ficam muito tempo sem emprego têm-se acentuado. Estas pressões estendem-se a todos os países membros da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e são exercidas em todos os âmbitos: nos discursos políticos, nas posições assumidas por ensaístas e comentadores, nos grandes títulos da imprensa, nos relatórios oficiais. Sem esquecer o mais importante: na aplicação das políticas de emprego, que reservam um tratamento particular às pessoas que estão sem trabalho.

 

Este movimento é geral e coordenado. A OCDE, nas suas Perspectivas do Emprego – 2006, expõe sem disfarce as grandes linhas estratégicas que constituem, a seu ver, «a economia política das reformas» empreendidas desde 1994 [1], cuja maior parte diz respeito às «estratégias de activação dos desempregados». Esta organização, que pretende «interessar-se mais por todos os aspectos da protecção social», prossegue sem descanso a aclimatação de todos os países membros à doutrina do workfare (tornar o trabalho “rentável”). Estes países são convidados, a pretexto de «facilitar a passagem das formas de assistência a uma actividade profissional», a desemaranhar as instituições protectoras do sistema salarial, a começar pelos subsídios de desemprego. O âmago desta doutrina é mais do que nunca reafirmado: «Visto que muitas pessoas inactivas em idade de trabalhar beneficiam de subsídios, é necessário que estes não sejam obstáculos para o emprego» [2].

 

Só no caso da França, o inventário das “reformas” empreendidas desde há uns dez anos sob o estandarte do workfare basta para ficarmos com vertigens. Em nome da “incitação ao trabalho”, as políticas de emprego e, mais geralmente, as políticas fiscais e sociais, foram reorientadas de maneira a alternar promessas e ameaças no discurso aos desempregados.

 

O mecanismo para promover a reintegração no trabalho dos beneficiários do rendimento mínimo de inserção (RMI) foi várias vezes alterado, os dispositivos de ajuda à habitação passaram a ter um novo perfil, os patamares e a duração da isenção da taxa sobre a habitação foram revistos, o prémio com vista ao emprego, criado em 2001, foi reforçado pelos sucessivos governos, em 2004 surgiu o rendimento mínimo de actividade (RMA), e o RMI, que deixou desde há muito de ser revalorizado, desde 1990 perdeu 25 por cento do seu valor relativamente ao salário mínimo (SMIC)...

 

Do mesmo passo, em 2004 e 2006 os direitos aos subsídios de desemprego foram revistos por baixo, aumentando, por um lado, o tempo mínimo de actividade necessário ao acesso a esses direitos, e diminuindo, por outro lado, a duração do subsídio. No outro extremo, foi consideravelmente reduzida a duração do subsídio específico de solidariedade, que “junta” os recalculados [3] da protecção no desemprego e os desempregados cujos direitos estão prestes a cessar.

 

Paralelamente, tornaram-se mais nítidos os controlos e as sanções relativos aos “falsos desempregados”. Desde 2001, no quadro do Projecto de Acção Personalizado (PAP), a Associação para o Emprego na Indústria e no Comércio (ASSEDIC), «quando considera haver dúvidas no cumprimento das condições relativas à procura de emprego ou na vontade de o beneficiário do subsídio fazer uma formação prevista pelo PAP», pode remeter o caso para o director departamental do trabalho. Se as “dúvidas” puserem em causa o acusado, o director departamental do trabalho poderá suspender o subsídio, no caso de o interessado «não entregar a documentação que justifique que anda de facto e com seriedade à procura de emprego» [4].

 

Na prática, a suspensão pura e simples da indemnização, considerada demasiado inflexível, era pouco aplicada. A circular de 5 de Setembro de 2005 [5], para tornar operacional o sistema de sanções, pôs assim em aplicação um sistema de redução gradual do montante dos subsídios, segundo uma pontuação cuja percentagem aumenta (de 20 para 50 por cento, e depois para 100 por cento) cada vez que os desempregados rejeitam as propostas de trabalho, com a condição, todavia, «de estas serem compatíveis com a sua especialidade ou formação e com as suas possibilidades de mobilidade, devendo ser remuneradas em conformidade com a taxa salarial normalmente praticada na profissão e na região». Mas não precisa, porém, o horário semanal de trabalho.

 

Todas as nossas instituições económicas e sociais são agora passadas pelo filtro da incitação ao regresso ao emprego. Levados pelo arrebatamento, alguns autores chegam mesmo a interrogar-se sobre o papel desencorajante das senhas para comer nas cantinas ou das tarifas reduzidas propostas pelas bibliotecas municipais. Porque, senhores, a hora é grave, e já é tempo de se levar toda esta gente a “reagir”. O oficialíssimo Relatório Camdessus, encomendado por Nicolas Sarkozy, na altura ministro da Economia e Finanças, propôs «uma acção de sensibilização e informação das colectividades locais no sentido de estas modificarem os mecanismos actuais de diminuição das tarifas locais (cantinas, bibliotecas...) [...]. com efeito, ao estabelecerem diferenças entre os inactivos ou desempregados e os activos pouco remunerados, as colectividades locais tendem a reduzir as vantagens financeiras do regresso ao emprego e a acentuar as situações de “nichos de inactividade” que a nível nacional se tenta reduzir» [6].

 

DENUNCIAR A GRATUITIDADE DOS TRANSPORTES!

 

O relator geral do Centro de Estudos dos Rendimentos e da Coesão Social (CERC) pôs-se também a perseguir os últimos esconderijos de desempregados: «Há ainda alguns outros nichos de inactividade menos conhecidos, por estarem muitas vezes sob a alçada das colectividades locais. É o caso, por exemplo, da gratuitidade dos transportes concedida por alguns municípios aos beneficiários do RMI ou aos desempregados. Certas cidades – tenho em mente Rennes – já começaram a atacar este problema» [7]. Agora só falta examinar os efeitos desencorajadores dos impressionantes ganhos a que toda essa gente (os desempregados) tem tempo para se entregar nos jogos da raspadinha...

 

O que foi feito em França inspira-se numa filosofia global que John Keneth Galbraith já ridicularizara: «As ajudas públicas (...) operam uma transferência de rendimentos dos activos para os inactivos e restantes inúteis, desencorajando assim os esforços destes activos e promovendo a ociosidade dos madraços. Por conseguinte, capturando o dinheiro dos pobres e dando-o aos ricos, estimulamos o esforço e, desse modo, a economia» [8].

 

A estratégia europeia do emprego (EEE), estabelecida em 1997 e reactualizada em 2003 e 2005, para melhor se enquadrar nos objectivos da Cimeira de Lisboa (2000), adopta nas suas linhas directrizes o essencial da mensagem do workfare: é preciso «adaptar em permanência as incitações e os efeitos dissuasivos decorrentes dos sistemas de retenção e prestação, incluindo a gestão e a condicionalidade das indemnizações e uma sensível redução das elevadas taxas de imposição marginais efectivas, nomeadamente no tocante às pessoas de baixos rendimentos, garantindo, ao mesmo tempo, níveis de protecção social apropriados» [9]. Em contrapartida, os membros da União Europeia são convidados a dar a conhecer os seus planos de acção nacionais de promoção do emprego, em sintonia com aquelas linhas directrizes, tratando o Conselho da União Europeia de lhes fazer chegar as suas recomendações. A avaliar pelo tom irritado do Conselho, que acha útil «enviar recomendações mais vigorosas aos Estados membros», o nível de tais exigências ainda não foi atingido, sendo conveniente «levarmos mais pessoas a entrarem e permanecerem no mercado de trabalho e fazermos do trabalho uma verdadeira opção para todos» [10]. Está visto que o futuro reside, seguramente, no trabalho “como opção”.

 

A EEE deplora o atraso relativamente ao agendado na Cimeira de Lisboa, que previa marchas forçadas rumo ao pleno emprego, horizonte a atingir por volta de 2010, mas a OCDE é menos pessimista. A organização dos países mais “desenvolvidos” do planeta vigia cuidadosamente a forma como os países membros têm em conta os conselhos que lhes prodigaliza no tocante à política de emprego. Sublinhando que se podem maximizar as vantagens das «políticas activas do mercado de trabalho» integrando-as numa «estratégia completa de activação dos desempregados», a organização congratulasse com o facto de «um numero crescente de países da OCDE já se ter aproximado muito de um sistema deste tipo».

 

Para corresponder às reformas estruturais empreendidas desde 1994 em matéria de indemnização do desemprego, a OCDE publica um quadro sintético das acções que vão no bom caminho. Embora os países membros tenham adoptado medidas um pouco dissemelhantes a respeito do montante dos subsídios de desemprego, o movimento mostra-se nitidamente mais convergente no respeitante ao abaixamento da duração desse subsídio. Uma dezena de países, entre os quais a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Bélgica, a Dinamarca e a Holanda, empreenderam «reformas que vão no sentido da Estratégia de Emprego da OCDE». E rio que diz respeito ao «endurecimento das condições de disponibilidade com vista a um emprego», são ainda melhores as medidas tomadas para «limitar a possibilidade de os desempregados recusarem uma proposta de trabalho por incompatibilidade profissional com essa actividade, com a anterior remuneração e/ou com o lugar de trabalho». Neste capítulo, dentre os trinta países da organização, vinte revelaram ser bons alunos. Os outros puderam recuperar endurecendo os critérios de admissibilidade ao sistema de indemnização, subordinando a concessão de certos subsídios a uma formação profissional ou instaurando prazos de carência. No total, dezassete países podem apregoar menos «desencorajamentos ao trabalho». Mas quatro países terão saído do lote, por terem aplicado ou reforçado a sua respectiva protecção no desemprego: Itália, Grécia, Turquia e Coreia.

 

As recomendações da OCDE sobre a indemnização do desemprego são um dos pilares das políticas do workfare, cujo postulado a organização enunciou e que desde há dez anos não varia: «As recomendações da Estratégia do Emprego de 1994 partiam do princípio de que a concessão de elevados subsídios de desemprego, durante um longo período, podia perturbar o funcionamento do mercado de trabalho». Segundo a doutrina económica dominante, o mercado de trabalho, que espontaneamente deveria conduzir ao pleno emprego, não deve pois ser “perturbado”.

 

AS DELÍCIAS DA OCIOSIDADE

 

Ora, no capítulo das perturbações, «os subsídios de desemprego podem agravar o desemprego de duas maneiras». A primeira remete para a indolência e afectação dos desempregados: «Fazendo com que os desempregados se tornem menos expeditos na procura de um emprego e na aceitação do que lhes for proposto, a indemnização pode prolongar a duração do desemprego ou levar certos beneficiários a retirarem­‑se pura e simplesmente da vida activa». A segunda razão é que a indemnização tende a encarecer o preço do trabalho. Não por causa do montante muito elevado das contribuições para a protecção no desemprego, mas porque os empregadores têm de pagar mais para arrancar os assalariados às delícias da ociosidade quando a esta se acrescenta um rendimento de substituição: «Baixando o custo de oportunidade da inactividade, [as indemnizações de desemprego] podem acentuar as reivindicações salariais dos trabalhadores e, no fim de contas, diminuir a procura de mão-de-obra [das empresas]».

 

O “exército de reserva do capital” (os desempregados), cuja pressão, segundo Marx, consistia em fazer baixar os salários, estaria assim em vias de funcionar às avessas, tornando-se a própria causa do seu próprio desemprego ao fazer subir os salários! Na realidade, porém, foi exactamente o contrário que aconteceu: desde há vinte e cinco anos, o custo relativo do trabalho tem baixado de forma incessante (a proporção dos salários no valor acrescentado regrediu mais de quatro pontos, em média, no conjunto dos países da OCDE), e isso, justamente, devido às pressões exercidos pelo desemprego... Mas que importa? A OCDE faz questão de explicar, aos que pensavam, um pouco ingenuamente, que o sistema de protecção no desemprego existia para socorrer os desempregados, que são os subsídios do desemprego, bem pelo contrário, que criam o desemprego!

 

Também não vale a pena insistirmos no facto de a teoria do workfare se dissolver se a mergulharmos na realidade durante mais de cinco segundos. Com efeito, a própria OCDE é pródiga na publicação de gráficos mostrando que “a taxa marginal de imposição” dum beneficiário do subsídio de desemprego no momento em que ele volta a encontrar trabalho se situa entre 80 e 100 por cento (o que significa, no papel, que o essencial do aumento dos seus rendimentos quando volta a ter trabalho é contrabalançado pela diminuição dos seus diversos subsídios e pelo aumento dos impostos). O apelo ao bom senso é evidente: como podemos nós não pensar que os desempregados são desencorajados a ter novamente emprego, quando calculamos com eles a parca vantagem financeira que nisso poderão ter?

 

O problema é que este bom senso é assimétrico. De facto, a verdadeira curiosidade consistiria em querermos saber como é que em França, por exemplo, 25 por cento dos assalariados (sublinhamos: um quarto da população assalariada) “optou” por trabalhar por um rendimento mensal médio (ou correspondente a uma base mensal) inferior a 1,14 vezes o SMIC [11]... quando não teria praticamente nada a perder se se deixasse ficar até atingir o jackpot da assistência. Se a teoria do workfare fosse de facto operante, haveria actualmente em França, não 2 milhões de desempregados oficiais, mas 7 milhões de desempregados voluntários! Em vez de louvar os céus por esta teoria não funcionar, o que a OCDE faz é esmerar a sua estratégia para fazer aceitar mais facilmente as suas prioridades. Porque o que importa é a doutrina.

 

PORTUGAL E ESPANHA: OS BONS ALUNOS

 

Pergunta-se então a organização: corno fazer aceitar reformas do mercado de trabalho que corresponderiam aos interesses dos assalariados e dos desempregados mas que eles não querem? As recomendações feitas aos governos dos povos tumultuosos são sublinhadas a negro e a itálico no relatório: é preciso proceder a «reformas parciais: reformar marginalmente para pôr em aplicação ulteriores e mais profundas mudanças de política». A ofensiva tem pois de passar pelos flancos e minar os contrafortes mais frágeis do sistema salarial, reservando para um segundo assalto o “núcleo duro”: «Para se evitarem conflitos com os principais grupos de interesses, os governos, num primeiro tempo, podem introduzir reformas à margem do “núcleo duro” do mercado de trabalho, sem verdadeiramente tocarem nas estruturas institucionais de que beneficiam os trabalhadores. Isso tende a reforçar a dualidade do mercado de trabalho, permitindo depois obter progressivamente o apoio da opinião publica a reformas mais fundamentais das instituições e políticas do mercado de trabalho».

 

A organização dá o exemplo da Espanha e de Portugal, onde esta estratégia foi posta em prática com êxito. Em Portugal, em particular, foram liberalizados o trabalho temporário e os contratos de duração determinada, antes de serem alargados aos contratos de duração indeterminada os motivos válidos de despedimento e de ser abolida a autorização prévia dos despedimentos colectivos.

 

Essa batalha bem organizada, conclui a OCDE, «colocou provavelmente os trabalhadores titulares de um contrato permanente em posição de fraqueza para se oporem às reformas, na medida em que os trabalhadores temporários e desempregados eram relativamente numerosos». Nesta estratégia duma abordagem pelos flancos, visando romper a frente de combate através das linhas de menor resistência, é fácil perceber que o mais eficaz consiste em atacar primeiro os próprios desempregados.

 

O racional é amigo do bem: «As reformas estruturais, que começam por gerar custos antes de produzirem benefícios, podem tropeçar numa menor oposição política se o peso da mudança política for suportado, numa primeira fase, pelos desempregados. Estes, com efeito, são menos susceptíveis do que os empregadores ou os assalariados de constituir uma maioria política capaz de bloquear a reforma, na medida em que são menos numerosos e amiúde menos organizados». As análises da OCDE ficam muito caras aos contribuintes, mas são muito francas.

 

Mas a validade da doutrina do workfare estende-se para além dos desígnios estratégicos que ela contribui para armar ideologicamente. Uma teoria do desemprego que postula o carácter voluntário do desemprego, fazendo virtualmente de cada desempregado um “falso desempregado”, tem certamente carácter funcional quando a impotência dos poderes públicos deixa as pessoas entregues aos seus próprios pavores [12]. Nestes tempos de crescente insegurança económica e social e de institucionalização da precariedade, o pavor que inspira a perspectiva da queda, da desqualificação e por fim da pobreza encontra parcialmente o seu exorcismo na instituição imaginária duma alteridade radical e culpada dos que se sentem mergulhar na indignidade. Com efeito, se a desgraça tivesse a delicadeza de seleccionar as suas presas com base no estigma de um comprovado erro moral (como a preguiça ou a indolência), a maior parte de nós poderia sentir­‑se bastante protegida. Coisa que bem útil seria ao sabermos, como lembra Emmanuel Pierru, que «um em cada dois trabalhadores já passou pelo desemprego»...

 

Uma litania de tiradas e admoestações sentenciosas dos nossos políticos dirigidas aos desempregados deram crédito à tese do desemprego voluntário. Será necessário insistirmos no suspeito papel que a comunicação social por vezes tem na orquestração de temíveis rumores que visam lançar a confusão entre os ocasionais gabirus que se aproveitam do subsídio de desemprego (eles existem, obviamente), os patenteados autores de fraudes (como evitá-los?) e o grande banditismo (sem dúvida inquietante)? Talvez valha a pena determo­‑nos um pouco nesta questão, tanto mais que a opinião pública, segundo parece, se deixa às vezes ludibriar.

 

Seja como for, será sempre motivo de espanto que essas pequenas fraudes e truques chamem mais a atenção do que as enormes economias que o sistema de protecção no desemprego obtém ao indemnizar apenas 60 por cento dos desempregados [13]. Por outro lado, supondo até que 10 por cento das despesas com subsídios de desemprego decorram de abonos indevidos (faço notar que nunca ninguém referiu uma estimativa tão elevada) [14], dificilmente se atingiria uma perda dos organismos de protecção no desemprego na proporção de 3 mil milhões de euros anuais – ou seja, de um montante muito inferior ao da fraude fiscal que se regista em França, ,avaliada em 50 mil milhões de euros por ano [15]. Curiosamente, tudo parece menos grave quando alguém rouba o Estado. É certo, sem dúvida, que os ladrões não são os mesmos.

 

Quando a academia decretou a morte de Keynes, no fim dos anos 70, e a ambição de edificar um welfare state foi convidada a fazer-lhe um cortejo fúnebre até ao túmulo, a visão do mundo que se lhe substituiu foi baptizada workfare. A grande ideia que assim surgiu corresponde a sustentar o seguinte: para socorrer os pobres, o melhor é não lhes dar ajuda. Com efeito, o welfare state foi considerado culpado de haver tecido uma rede de instituições excessivamente protectoras dos assalariados, desempregados e pobres. A bem dizer, foi quanto bastou para explicar todos os males de que sofriam as economias ocidentais na parte final dos Gloriosos Trinta Anos (1945-1975) [16]. Como as pessoas de poucas posses se fartaram de ganhar dinheiro, coadjuvadas por um longo período de pleno emprego, foram elas que acabaram por levar o capitalismo à beira do abismo, visto o seu poder de negociação ter deformado em seu proveito a partilha do valor acrescentado... Em consequência, a rentabilidade do capital caiu a pique e a produtividade declinou, por causa dos entraves opostos às necessidades de flexibilidade, modernização do aparelho industrial e reestruturação das grandes multinacionais.

 

A própria inflação foi vista como o resultado das políticas monetárias keynesianas “laxistas”, que serviam para dissimular a realidade dum desemprego estrutural subjacente mantendo o pleno emprego graças a golpes de ilusão monetária. Quando por fim foi atacada a origem do mal (as políticas keynesianas inflacionistas), a realidade do desemprego estrutural surgiu às claras e as suas causas teóricas foram validadas ex post através de uma espécie de prova do pudim (a prova de que o pudim existe reside no facto de ele se comer). De nada valia, portanto, estimular a procura enquanto os recursos produtivos, em especial os trabalhadores, recusassem vender-se ao preço do mercado.

 

O essencial dos nossos males provinha de problemas da oferta. E em primeiro plano, da oferta de trabalho. O inimigo tornou-se então o conjunto das instituições protectoras do sistema salarial (direito do trabalho, segurança social, subsídio de desemprego, ajudas sociais, etc.), as quais, ao libertarem os trabalhadores da insegurança económica, lhes permitiram vender-se por elevado preço, deprimindo a procura de trabalho das empresas e criando, do mesmo passo, o desemprego. Vinte e cinco anos depois, ainda daqui não saímos.

 

MAO INSPIRA OS LIBERAIS

 

Em O triunfo dos porcos (Animal farm), o célebre romance de George Orwell, sempre que uma desgraça cai sobre a colectividade dos animais – a qual levou a cabo a sua revolução proletária expulsando os proprietários da quinta –, ouve-se o velho cavalo de tiro, Malabar, erguer o seu grito redentor: «Vou trabalhar mais!» E o moinho da quinta, várias vezes destruído, é logo reconstruído, graças à mobilização do ardor contra a adversidade. Ao trabalho, Malabar!

 

Mas a economia capitalista não é a quinta dos animais, nem é uma economia agrícola que se assemelhe, mesmo vagamente, à conquista do Oeste. Não basta uma pessoa pegar na pá e na picareta, armar-se com a obtusa coragem de um Malabar ou com o orgulho dum pioneiro irlandês para se ir pôr a assobiar à entrada dos grandes estaleiros de obras ou das belas fábricas e ver o emprego surgir em quantidade. A fórmula de Mao – “uma boca, dois braços” –, espantosa por constituir o pilar da concepção ortodoxa do emprego, é aplicável quando existem vastas extensões de terras sem anteriores direitos de propriedade [17] que só pedem para ser fertilizadas pelo labor dos homens.

 

Mas, para compreendermos uma sociedade capitalista, esta fórmula não tem utilidade nenhuma. Tal como não é pelo facto de alguém estudar que se cria empregos qualificados, nem é por alguém se pôr à cata de cogumelos que eles vão crescer, nem é por alguém querer ficar apaixonado que surgem lindas raparigas ou belos mocetões (embora, neste caso...), também não é o facto de alguém se pôr à procura de emprego que cria emprego! “Deixemos os desempregados em paz!” deveria ser a única máxima respeitável quando o nível da procura efectiva e o apetite de acumulação dos empresários se mostram insuficientes para que se realize a esperança de toda a população encontrar trabalho.

 

A boa fé poderia mesmo levar a admitir, quando o emprego falta, e face ao amoralismo dos prelados defensores do trabalho penoso, que a racionalidade económica mais bem pensada exige que se proclame a instituição do desemprego voluntário. De facto, quando a penúria se instala, mais vale frustrar os que têm menos necessidade desse “bem” tão desejado. Desde há dois séculos, entregámos as chaves da casa à economia de empresa privada, para o bem e para o mal. Quando surge o mal (o “bem” aconteceu às vezes, quando o mundo capitalista desenvolvido era keynesiano-fordiano), a razão “liberal” no verdadeiro sentido da palavra exigiria que se moderasse ao máximo o duro esforço da colectividade, deixando os indivíduos “escolher” quem deve estar desempregado e quem deve ocupar um emprego. Não é precisamente esta a orientação que se está a esboçar...

 

Desde há muito tempo, os povos sabem que é graças ao produto dos seus impostos que são enviados para a guerra. A novidade radical agora surgida é que, ao financiarem a OCDE, eles erguem exércitos contra si mesmos.

 

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* Economista, docente na Universidade de Lille I. Autor de Pas de pitié pour les gueux, Raisons d’agir, Paris, 2000.

 

[1] Sobre o relatório de 1994 da OCDE, ler Serge Halimi, Les chantiers de la démolition sociale, Le Monde diplomatique, Julho de 1994.

[2] Todas as citações relativas à OCDE são extraídas de Perspectives de l’emploi de l’OCDE (2006). Stimuler l’emploi et les revenus, Paris, 2006.

[3] Chama-se “recalculados” aos desempregados cujos subsídios baixaram na sequência do acordo assinado, a 20 de Dezembro de 2002, pelas organizações patronais e três sindicatos (CFDT, CFTC, CGC). Pela primeira vez, as medidas teriam aplicação retroactiva. Depois de vários meses de luta, os recalculados conseguiram que os seus direitos fossem restabelecidos.

[4] Artigos 9.º e 10.º da Convenção entre o Estado, a UNEDIC e a ANPE, relativa à aplicação do plano de apoio ao regresso ao emprego, de 23 de Abril de 2001.

[5] Circular (pdf) da Delegação Geral do Emprego e da Formação Profissinal n.º 2005-33, de 3 de Setembro de 2005, relativa à reforma de acompanhamento da procura de emprego.

[6] Le sursaut. Vers une nouvelle croissance pour la France, sob a presidência de Michel Camdessus, La Documentation Française, Paris, 2004. Ler também a análise deste relatório no Le Monde diplomatique, Janeiro de 2005.

[7] Michel Dollé, “Il reste encore des trappes à l’inactivité”, Les Echos, Paris, 17 de Janeiro de 2002.

[8] John Kenneth Galbraith, L’art d’ignorer les pauvres [ed. brasileira: A arte de ignorar os pobres], Le Monde diplomatique, Outubro de 2005.

[9] Linha directriz 19, decisão do Conselho de 12 de Julho de 2005, Journal officiel de l’Union européennne (2005/600/CE), Luxemburgo, 6 de Agosto de 2005.

[10] Recomendações do Conselho respeitantes à aplicação das políticas de emprego dos Estados membros, 14 de Outubro de 2004, Journal officiel de l’Union européennne (2004/741/CE), Luxemburgo, 29 de Outubro de 2004.

[11] INSEE, Les salaires en France, Paris, 2005.

[12] Falando das reacções dos seus contemporâneos perante a ameaça do desemprego ou do RMI, uma pessoa beneficiaria do RMI explica: «Faz-lhes muito medo pensar que podem vir a ficar nesta situação, enerva­‑lhes a cabeça. Faz tanto medo que o melhor é não se acreditar que pode acontecer». Citado em Emmanuel Pierrat, Guerre aux chômeurs ou guerre au chômage?, Éditions do Croquant, Bellecombe­‑en­‑Bauges, 2005, p. 121.

[13] Números da ASSEDIC, Julho de 2006 (http://info.assedic.fr/unistatis).

[14] No primeiro semestre de 2006, foram pronunciadas 23.000 sanções contra desempregados «que não cumprem as suas obrigações», o que corresponderia, no máximo, a 2 por cento de desempregados “sancionados”, ao ritmo anual. Além disso, uma parte dessas sanções é objecto de contestação; ver a Nota do Ministério do Trabalho francês, intitulada “Balanço da reforma do acompanhamento da procura de emprego”, 31 de Outubro de 2006 (nota da edição portuguesa).

[15] Estimativa do Sindicato Nacional Unificado dos Impostos (www.snui.fr).

[16] Ler, a este respeito, John Kenneth Galbraith, Voyage dans le temps économique, Seuil, Paris, 1995, e também Keith Dixon, Les évangélistes du marche, Raisons d’Agir, Paris, 1998 [Os evangelistas do mercado, Celta, Oeiras, 1999].

[17] Deixemos aqui de lado, como sempre, os índios...