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09/02/2007
A venda espanhola de 1.200 blindados a Marrocos agrava a situação no Magreb José Daniel Fierro Na passada terça-feira,
activistas de várias ONGs denunciaram em frente às portas do Congresso o fracasso
que pressupõe o projecto de lei sobre o comércio de armas, actualmente em tramite
parlamentar. Para a Amnistia Internacional, a Intermón Oxfam e a Greenpeace,
o projecto é insuficiente e deveria incorporar mecanismos que permitissem ao
Parlamento controlar a acção do governo nestes temas. Em concreto, a nova lei
deveria exigir ao executivo informações claras e detalhadas sobre as exportações
de armas que se efectuem e, também, sobre as pendentes de se realizar para
poder intervir, no caso disso ser necessário, e conseguir paralisá‑las. Neste sentido, o
ministro da Indústria, Turismo e Comércio, Joan Clos, defendeu-se ao afirmar
que o sistema espanhol de controle do comércio de armas é «sumamente exigente
e rigoroso» e que o novo projecto incrementará esse controle, facilitando a
informação sobre o uso final do produto e a identidade do usuário. Destacou que, antes de
autorizar uma venda, o governo verificará se o comprador é um país em
conflito, se viola os direitos humanos ou se está sumido na pobreza, casos em
que não se dará aprovação. No entanto, e para
corroborar as intenções do executivo de Zapatero, nesta mesma semana foi
divulgada a venda a Marrocos de um importante lote de equipamento militar a
um regime acusado de graves violações em matéria de direitos humanos e que
virá a incrementar a tensão na zona e a ameaça de novos confrontos contra o
povo saarauí. ESFORÇOS BÉLICOS COM
MARROCOS, REVÉS PARA A PAZ Em concreto, o governo
dotará o exército marroquino de 1.200 novos blindados com equipamento
sofisticado (metralhadoras, mísseis anti‑veículo, lança‑granadas)
e mais de 800 veículos militares que poderão ser usados como apoio logístico
em caso de guerra. Isso pressupõe um sério
obstáculo aos esforços do novo secretário geral de Nações Unidas, Ban
Ki-moon, e do seu recém nomeado enviado especial para o Saara, o britânico
Julian Harston, porquanto este armamento dificultará a busca de uma paz justa
e duradoura no Norte de África, ao potenciar a maquinaria bélica de um dos
implicados. Estes blindados, além
do mais, poderiam encontrar finalmente o seu destino no território do Saara
Ocidental, ocupado por Marrocos desde 1975 e a tão só 80 milhas das Ilhas
Canárias. Esta nova contribuição
espanhola para a “paz” no Magreb foi pactuada em segredo em Novembro do ano passado,
segundo assegurou Ignacio Cembrero do diário El País. Os contratos assinados nessa data com a Administração
da Defesa Nacional de Marrocos (equivalente ao Ministério da Defesa)
constituem a mais importante operação deste tipo com o país vizinho nos
últimos anos, segundo fontes do sector citados pelo jornal. Juntamente com os
veículos militares – cujo custo, segundo os especialistas, pode superar os
160 milhões de euros –, também se acordou a venda de 10 barcos patrulha a
Marrocos para a vigilância da sua costa. Neste caso, o encaixe poderia
atingir os 35 milhões. Para ter uma ideia do
que implicam estes contratos, basta recordar que o total das exportações
espanholas de material bélico em 2005 (último ano de que há estatísticas
oficiais) atingiram os 419,45 milhões de euros. Esta injustificada
decisão é tomada justamente no momento em que as Nações Unidas se encontram imersas
na aprovação de um texto para a regulação da venda de armas com sérias
restrições a países em conflitos armados e/ou nos quais não se respeitam os
direitos humanos, como é o caso do regime marroquino, que foi novamente
condenado na semana passada no último relatório da Amnistia Internacional. Para Bahia M. H. Awah,
jornalista e escritor saarauí, esta venda de armamento também é um gesto
hostil para com o estado argelino – defensor do direito do povo saarauí –,
país chave política e economicamente no continente africano. Este mal-estar
poderia conduzir a uma revisão dos acordos com o Estado espanhol, e o
presidente argelino, Abdelaziz Buteflika, já advertiu o seu homólogo espanhol
na recente reunião mantida entre ambos. OUTROS “INVESTIMENTOS
HUMANITÁRIOS” Sem contar ainda com os
dados de 2006, os últimos dados oficiais indicam que as vendas espanholas de
armas e material bélico atingiram os 420 milhões de euros (544 milhões de dólares)
e tiveram como destino 48 países, entre eles muitos em conflito ou nos quais
se violam os direitos básicos. Foi um resultado recorde, pois em 2004 as
vendas ascenderam a 405 milhões, 383 milhões em 2003, 274 milhões em 2002,
231 milhões em 2001 e 138 milhões de euros em 2000. Entre os principais
clientes encontram-se Colômbia, Israel, Marrocos, China, Arábia Saudita,
Índia, Sri Lanka, Indonésia, Filipinas e Sudão, entre outros. Aos quatro
primeiros, por exemplo, foram vendidas bombas, torpedos, foguetes e mísseis. Mas o negócio discorda
da ética pacifista e actualmente as 180 empresas espanholas dedicadas à
indústria militar (segundo um relatório da Escola de Cultura de Paz) centram
a sua atenção no aumento das vendas e, obviamente, dos lucros. Tampouco se põe fim ao
fabrico e venda das chamadas “bombas de fragmentação”. No final de Dezembro,
a Greenpeace emitiu um comunicado no qual informava que «Espanha é um dos
países que possui e fabrica bombas de fragmentação», as quais disparam
centenas de pequenos explosivos sem qualquer precisão e, por conseguinte, o seu
uso deveria estar proibido em áreas povoadas por civis. «Várias empresas do
nosso país fabricam-nas, ainda que a falta de transparência torne impossível
saber onde as vendem», acrescentava o texto. Este tipo de armas
preocupam especialmente aqueles que têm alguma sensibilidade sobre os desastres
da guerra, pois são mais perigosas que as minas anti‑pessoais, já que
uma boa parte delas não explodem e mantêm‑se latentes durante muito
tempo. Um caso paradigmático é o do Laos, onde as pessoas continuam a morrer
actualmente como consequência das bombas de fragmentação utilizadas numa
guerra que terminou há 30 anos. |