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Europa |
08/11/2006
Imigração e ideologia de guerra Mamadou Ba De cimeira em cimeira,
a União Europeia vai cimentando a externalização das suas fronteiras,
esboçada no famigerado conceito Schengen e depois aperfeiçoada pelas suas
variadíssimas normativas e recomendações. A UE consolida a sua militarização
e delega nos governos dos países limítrofes a repressão dos candidatos à
imigração. A fobia securitária e a
fúria da guerra contagiaram todos os campos de reflexão e de actuação
política dos dirigentes europeus sobre as questões de imigração. Da retórica
política à semântica jurídico-administrativa. Veja-se o amontoado de
expressões de guerra que povoam os discursos políticos dos dirigentes
europeus e as normas jurídicas e administrativas sobre esta questão: «guerra
ao terrorismo», «combate ao tráfico humano», «combate à prostituição», «combate
à imigração clandestina», «combate ao crime organizado», «combate às máfias»,
«reforço da vigilância terrestre e marítima», «apetrechamento do controlo
aéreo e da garantia da segurança e da manutenção da ordem pública», «capacitação
das forças policiais face às novas ameaças emanadas da imigração clandestina
e do terrorismo e subsequente necessidade de estreitamento da cooperação
policial e estratégica», «necessidade da introdução da biometria para uma
melhor capacidade de detecção e prevenção do crime organizado ligado à
intensificação dos fluxos migratórios que potenciam o crime organizado e o
terrorismo transnacional», etc. O léxico da ideologia
da guerra materializou-se desde 2004 na Agência Europeia de Controlo de
Fronteiras, mais conhecida em Bruxelas por “Frontex”. Este mecanismo misto,
composto por forças policiais e militares, tem servido de pretexto para a
NATO alargar a sua presença estratégica no continente africano, descendo cada
vez mais a sul do Atlântico. Prova disso foram as recentes manobras da NATO
em Cabo Verde. Aliás, desde os dramáticos acontecimentos de Ceuta e Melilla,
deu-se um passo importante para transformar a Frontex no principal
instrumento de repressão contra os imigrantes. Portugal aderiu
servilmente à Frontex, disponibilizando uma corveta para participar na
vigilância marítima e patrulhando a costa atlântica. Em Julho passado, em
Marrocos, o Ministro da Administração Interna, à margem da cimeira da
chantagem europeia sobre países africanos, apressou-se a justificar a adesão
de Portugal, alegando que «o objectivo é alargar o programa Frontex para a
Mauritânia e Senegal até às fronteiras marítimas de Cabo Verde», porque «a UE
não pode limitar-se a fechar uma das fronteiras, permitindo que haja desvio das
rotas da imigração ilegal, de forma a entrar por outra via». A afirmação de força é,
como sempre foi, a ferramenta essencial para o domínio e a exploração do
mundo – a imigração é apenas um dos campos para onde ela se estende. O império não se
contenta de controlar a exploração, a transformação e a comercialização das
matérias-primas que saqueia. Necessita de sugar o que de mais importante
resta aos países do hemisfério sul, os seus recursos humanos. Está na moda a
imigração selectiva, dita de excelência, onde só contam como reais candidatos
os quadros com melhor formação intelectual, artística e desportiva. É a
pseudo meritocracia ao serviço do capitalismo! Esta excelência não
impedirá esta mão-de-obra de se tornar arma de arremesso na chantagem contra
os trabalhadores europeus, para instituir mais salários baixos, maior
precariedade e quase total ausência de protecção social por recusar por esta
via qualquer hipótese de redistribuição. E é exactamente o que
reafirmava Aminata Traoré, membro da Caravana
da Dignidade Contra o Arame Farpado da Injustiça e da Indiferença [pdf]:
«Aqueles que são obrigados a exilarem-se estão umas vezes à procura de
trabalho, outras vezes de asilo, de uma simples protecção. Estas duas
categorias de desesperados partilham o mesmo destino; porque precisamente, a
mundialização neoliberal é uma guerra permanente contra os pobres e os
espoliados. Os acontecimentos dramáticos de Ceuta e Melilla e as
insuportáveis cenas de afogamento de centenas de jovens nas costas atlânticas
e mediterrâneas depois da blindagem do eixo Marrocos‑Espanha, são
factos que não põem apenas a nu a pobreza do hemisfério sul, mas sobretudo a
continuação da pilhagem que o empobrece cada vez mais, destilando o medo e o
ódio. A amplitude dos fluxos não é senão a expressão do agravamento deste
vergonhoso processo na era do liberalismo globalizado». A função principal da
fronteira não será tanto delimitar, mas sim de diferenciar. Abordar a
constitucionalização da cidadania europeia através do prisma das suas
fronteiras reais ou simbólicas e arreigada na doutrina neoliberal, é
subtilmente admitir a hipótese de que a pertença à comunidade política não
contempla os cidadãos imigrantes. Este sonho de uma Europa pura opõe a
homogeneidade do nós puro à diferença do outro que viria ou viveria fora das
tais reais ou simbólicas fronteiras. Espantosa é a prontidão
com a qual o social-liberalismo se apoderou desta funesta ideologia em
matéria de imigração, invocando hipocritamente o realismo político e a ordem
pública. Não espanta que Sócrates também tenha encontrado como principal
argumento para uma mudança legislativa nesta matéria a linguagem da guerra.
Se restam dúvidas, consulte-se o projecto-lei do governo, onde estão
plasmadas as razões para a alteração do actual quadro jurídico. |