Informação Alternativa

Europa

30/10/2006

 

A islamofobia europeia

 

Lee Sustar

Counterpunch

 

Os políticos europeus de Londres a Moscovo estão a atacar o Islão e os seus imigrantes, legitimando políticas anteriormente limitadas à extrema-direita contrária aos imigrantes.

 

A última operação islamofóbica de alto relevo está a ter lugar na Grã-Bretanha, onde um ministro do Partido Trabalhista anunciou subitamente a 5 de Outubro, num artigo, que se sentia «desconfortável» quando falava com mulheres muçulmanas que usavam o véu que cobre todo o rosto conhecido como niqab, qualificando-o como uma barreira às relações sociais. O primeiro-ministro Tony Blair juntou-se-lhe uns dias mais tarde, chamando ao niqab uma «marca de separação».

 

A intervenção do Partido Trabalhista representa a versão liberal da islamofobia, um complemento da variante de direita, que incluiu o discurso do Papa Benedito que classificou o Islão como uma religião violenta, a invectiva de George W. Bush contra o “islamofascismo”, e a publicação de caricaturas racistas contra o Islão por um jornal dinamarquês de direita.

 

Em Itália, outro destacado liberal, o primeiro-ministro Romano Prodi, seguiu Blair ao falar contra o niqab.

 

Entretanto, as autoridades britânicas relataram vários incidentes em que algumas mulheres foram incomodadas verbalmente por usarem niqab, na sequência dos comentários de Straw. Também houve ataques violentos, incluindo um assalto no dia 21 de Fevereiro levado a cabo por três homens contra muçulmanos que rezavam numa mesquita da cidade de Manchester.

 

No mesmo dia, os mídia de direita amplificaram os ataques de Straw e Blair contra o Islão, com o tablóide Daily Express mostrando em manchete, sob o título garrafal “PROÍBAM!”, uma foto de uma mulher com niqab. Uma professora auxiliar de 24 anos, Aishah Azmi, recebeu uma indemnização de 2.000 dólares num processo julgado num tribunal de trabalho, devido à sua suspensão por usar um niqab na aula – mas as suas queixas de discriminação e acosso não foram atendidas.

 

O pano de fundo de tudo isto é uma série de rusgas e prisões de muçulmanos desde Agosto relacionadas com uma presumível conspiração para sequestrar aviões comerciais britânicos – apesar de não terem efectuado qualquer acto nesse sentido.

 

O papel do Partido Trabalhista no atiçamento da islamofobia deu cobertura política aos neonazis e aos políticos de direita na Europa, que já fizeram do anti-islamismo o seu foco, como uma rápida vista de olhos através do continente torna claro:

 

FRANÇA

 

Quatro bagageiros muçulmanos do aeroporto Charles De Gaulle perderam recentemente os seus postos de trabalho quando um governo local revogou a sua aprovação de segurança.

 

A medida de força veio depois da publicação de um livro – de Philippe de Villiers, candidato da direita pelo partido Movimento pela França (MPF) nas eleições presidenciais do próximo ano – que alega detalhar a “infiltração” muçulmana no aeroporto. «Sou o único político que diz aos franceses a verdade sobre a islamização da França», declarou a um entrevistador no início deste ano.

 

Um sindicato da polícia, próximo do MPF de De Viilliers, pediu recentemente mais armas para combater o que qualificou de “intifada” em curso nos subúrbios cheios de imigrantes muçulmanos, os quais explodiram em tumultos há um ano depois de dois jovens terem morrido enquanto eram perseguidos pela polícia.

 

De Villiers posiciona-se como uma alternativa mais tragável ao líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, o neonazi contrário aos imigrantes que nega o Holocausto e que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2002.

 

A islamofobia tem sido durante anos um lugar comum na política francesa, com partidos dominantes da direita e da esquerda a apoiarem, em 2004, a proibição do hijab nas escolas públicas. A direita dominante também conta com políticas anti-muçulmanas e anti­‑imigrantes para manter o controlo da presidência, pois o ministro do interior, Nicholas Sarkozy, combina a sua política de lei-e-ordem nos subúrbios de Paris com nova legislação de perseguição aos imigrantes indocumentados.

 

ALEMANHA

 

O Partido Nacional Democrático (NPZ) neonazi obteve o seu maior êxito nas eleições do passado mês de Setembro, no Estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, assegurando à extrema-direita da Alemanha a representação em quatro Estados Alemães.

 

Algumas semanas mais tarde, Ronald Pofalla, líder da União Democrata Cristã, o partido da chanceler Angela Merkel, escreveu um artigo afirmando que «actualmente, o problema da violência por motivos religiosos é quase exclusivamente um problema do Islão». No início deste ano, oito dos 16 Estados da Alemanha votaram a proibição do hijab nas escolas públicas.

 

BÉLGICA

 

O Velaams Belang [Interesse Flamengo] da extrema-direita quase obteve o controlo do governo da cidade de Antuérpia em meados de Outubro com uma plataforma abertamente islamofóbica, obtendo 33,5% dos votos, em comparação com  35% recolhidos por uma coligação socialista.

 

BULGÁRIA

 

Volen Siderov, candidato do ultra-nacionalista Ataka (Ataque), superou os demais partidos da direita ao obter, na primeira volta, 22% dos votos na primeira­ volta das eleições presidenciais de 22 de Outubro. Com uma plataforma que propunha a proibição dos partidos turcos e perseguição do povo Roma, conhecido como ciganos, Siderov disputará uma segunda volta contra o presidente cessante, Georgi Parvanov, do Partido Socialista.

 

RÚSSIA

 

A ascendente extrema­‑direita e nazi mobiliza-se por detrás do Movimento Contra a Imigração Ilegal – e a política da organização obteve recentemente a aprovação do presidente russo Vladimir Putin.

 

Depois de rusgas e deportações em massa de georgianos após o escândalo da espionagem russa na antiga república da URSS, Putin fez um discurso no qual declarou que os russos estão a ser «aterrorizados» por bandos de «criminosos» dos países muçulmanos das antigas repúblicas da URSS na Ásia Central, do Cáucaso e da numerosa população muçulmana da própria Rússia.

 

A islamofobia substituiu o anti-semitismo como foco da extrema-direita europeia, segundo Glyn Ford, membro britânico do parlamento Europeu e autor de um livro sobre o neofascismo na Europa. «A Europa corre o perigo de os seus partidos da extrema-direita passarem a fazer parte da corrente dominante», disse, acrescentando: «a islamofobia converteu-se no preconceito da actualidade, mas a ameaça da extrema-direita é real e encontra-se em toda a União Europeia».

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