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Europa |
20/07/2006
O escândalo dos voos da
CIA Ilda
Figueiredo Na sequência de
denúncias internacionais e das conclusões de um inquérito do Conselho da
Europa sobre a utilização de países europeus pela CIA para o transporte e a
detenção ilegal de prisioneiros, após a inadmissível invasão do Iraque pelos
EUA e seus aliados europeus, o Parlamento Europeu aprovou, recentemente, por
maioria, um relatório intercalar, apresentado pelo deputado italiano Cláudio
Fava, em nome da Comissão Temporária sobre a alegada utilização pela CIA de
países europeus para o transporte e detenção ilegal de prisioneiros. Embora seja ainda um
documento parcelar, dado que os trabalhos da Comissão vão continuar,
sabendo-se que vários países não forneceram os documentos que tinham prometido,
que a NATO recusou à Comissão Temporária o acesso ao texto integral da
decisão do seu Conselho, adoptada em 4 de Outubro de 2001, relativa à
aplicação do artigo 5º do Tratado de Washington, e que também não foram
disponibilizados os acordos de entendimento entre os EUA e os países
europeus, há já constatações significativas que importa ter em conta. No referido relatório
intercalar afirma-se, por exemplo, que, com base em provas apresentadas à
Comissão Temporária, se é levado a crer que os serviços da CIA ou outros
serviços norte-americanos tenham sido directamente responsáveis pelo
sequestro, afastamento, rapto e detenção ilegais de suspeitos de terrorismo
no território dos Estados-membros da União Europeia e dos países em processo
de adesão e candidatos à adesão, assim como pela entrega extraordinária de,
entre outros, cidadãos ou residentes europeus, o que constitui grave violação
do direito internacional e dos direitos humanos fundamentais. Recorde-se,
como faz a referida Comissão Temporária, que estas condenáveis entregas
extraordinárias visam fazer com que os suspeitos não sejam submetidos a
processos, mas transferidos para países terceiros, a fim de serem
interrogados, incluindo sob tortura, e detidos em instalações controladas
pelos EUA ou por autoridades locais. Entre os casos
referidos no Relatório de Fava, destacam-se: – o sequestro pela CIA
do cidadão alemão Kahaled el Masri, que esteve preso no Afeganistão de
Janeiro a Maio de 2004, e que, durante esse período, foi tratado de forma
degradante e desumana, o qual, antes disso, terá estado preso ilegalmente na
antiga República Jugoslava da Macedónia de onde foi transportado para o
Afeganistão em 23/24 de Janeiro de 2004; – o rapto e
transferência para a Baía de Guantánamo de seis cidadãos e/ou residentes
bósnios de origem argelina, contrariando a decisão provisória vinculativa da
Câmara dos Direitos do Homem para a Bósnia Herzegovina e apesar da decisão do
Supremo Tribunal Bósnio de libertar os suspeitos. Saliente-se que, neste
caso, o relatório insiste na necessidade de prosseguir as investigações para
esclarecer o papel que tiveram os militares dos EUA que faziam parte da Força
Multinacional de Estabilização (SFOR), sob o comando da NATO; – insiste no
prosseguimento das investigações para esclarecer a alegada existência de um
estabelecimento de detenção secreto no Kosovo e o possível envolvimento de
forças da KFOR na detenção ilegal de suspeitos de terrorismo; – considera que deve
ser clarificado o conteúdo do acordo assinado em Atenas, em 22 de Janeiro de
2003, em que se refere o uso crescente das instalações europeias de trânsito
para facilitar o regresso de pessoas não admissíveis. Para além do que já se
escreveu, o Parlamento Europeu considera que «muitos dos voos por aeronaves
da CIA ou fretados por esta, que utilizaram o espaço aéreo e os aeroportos de
Estados-membros e de países em processo de adesão e candidatos, implicaram
repetidas violações da Convenção de Chicago, por não terem cumprido a
obrigação de obterem a autorização prevista no artigo 3.º daquela Convenção
relativa a aeronaves do Estado». Mesmo que, num caso ou outro, tenhamos reservas e até oposição a propostas pontuais que este relatório intercalar contém, avaliamos positivamente o seu conteúdo global por ser um contributo para o esclarecimento das políticas imperiais dos EUA e dos seus métodos ilegais, seja utilizando a CIA, seja a NATO e/ou os países cujos governos aceitam passivamente a submissão a práticas violadoras do direito internacional e dos mais elementares direitos humanos. |