Informação Alternativa

Europa

Junho 2006

 

“Cansaço” no Quai d’Orsay, miséria em Gaza

 

Alain Gresh

Le Monde diplomatique

 

É tempo que Israel «mude de disco no que diz respeito às relações com a França. (...) Os franceses adoptam boas posições. Lutam contra o projecto nuclear iraniano, contra o Hezbollah no sul do Líbano, e continuam a ser firmes face ao Hamas. O que podemos esperar mais?» [1]. Não é um defensor ardente da política árabe da França que assim se exprime, mas Tzipi Livni, novo ministro israelita dos negócios estrangeiros, por ocasião da sua visita a Paris em 1 Março de 2006.

 

Compreende-se a sua satisfação. Desde há vários meses, a voz da França tornou-se mais “medida”, colocando ao mesmo nível ocupantes e ocupados. Assim, aquando do assalto do exército israelita contra a prisão de Jerico, em Março de 2006 [2], o porta-voz do ministério dos negócios estrangeiros contentou-se em precisar: «Vimos os despachos das agências a esse respeito. Parece que a situação é um pouco confusa. Tentamos saber mais. É difícil para mim pronunciar-me sem conhecer as circunstâncias exactas nas quais esta operação se produziu». No dia seguinte, não foi realmente mais explícito, recordando que Philippe Douste­‑Blazy conversou com os seus homólogos israelita e palestiniano e «lançou um apelo à contenção e ao espírito de responsabilidade...». Questionado posteriormente, precisou: «Neste assunto, não desejamos distribuir os pontos bons e maus.»

 

Como reconhece um diplomata francês, «temos uma posição mais “equilibrada” que há dois anos, em que criticávamos mais rapidamente os israelitas. Damos menos crédito aos palestinianos, e Abou Mazen [Mahmoud Abbas] desiludiu-nos». Trata-se de um eufemismo.

 

Mesmo face ao levantamento do muro de separação, no entanto condenado pelo Tribunal internacional de Justiça e pelas Nações Unidas, Douste-Blazy mostra-se “equilibrado”: «Ninguém pode querer um muro entre os dois povos. Mas ao mesmo tempo, os israelitas dizem-vos que isso diminuiu em 80% o número de atentados... (...) Por isso, não sou, evidentemente, a favor da barreira de separação à priori, como ninguém é, mesmo eles [os israelitas, sic!]. Mas lá, há já resultados no que diz respeito aos terroristas.» [3]

 

A eleição de uma maioria de deputados do Hamas para o Conselho Legislativo Palestiniano em Janeiro de 2006 provocou uma reacção unânime da França e dos seus parceiros da União Europeia. Foi dirigido um ultimato às novas autoridades: reconhecer Israel; renunciar ao terrorismo; ratificar os acordos de Oslo.

 

Mas estas exigências não deveriam ter sido dirigidas às duas partes? No final de contas, o governo israelita prossegue os seus assassinatos “selectivos”, entrega-se a bombardeamentos contra a população civil que são do âmbito do terrorismo de Estado, acelera a colonização (que a carta do Tribunal Penal Internacional [TPI] define como um «crime de guerra») e recusa a criação de um Estado palestiniano nas fronteiras fixadas pelo direito internacional.

 

Por outro lado, se se quer fazer evoluir o governo palestiniano, não será necessário precisamente negociar com ele? Quando, em 1996, Benyamin Netanyahou, contrário aos acordos de Oslo, foi eleito primeiro­‑ministro na sequência do assassinato de Itzhak Rabin e apresentou o seu novo programa, que incluía «o reforço, o alargamento e o desenvolvimento» da colonização judaica nos «montes Golã, no vale do Jordão, na Judeia, na Samaria e em Gaza» [4], nem a França nem a União Europeia “suspenderam” os seus contactos com ele. Nem decidiram sanções como as tomadas contra o governo palestiniano eleito, com a suspensão da ajuda directa. Decisão politicamente estúpida – desacredita, na opinião de todos os muçulmanos, a ideia da democracia – e moralmente condenável – provoca a fome de um povo “culpado” de ter votado mal.

 

No entanto, várias vezes, nomeadamente aquando da sua viagem à Arábia Saudita no mês de Março de 2006, Jacques Chirac condenou o princípio das sanções. «Sou, pela minha parte, hostil às sanções em geral e, em especial, neste caso, porque não vejo porque se adoptariam sanções cujas consequências seriam suportadas essencialmente pelo povo palestiniano». O presidente francês pronunciou-se a favor de um mecanismo que permitiria “contornar” as barreiras fixadas pela União Europeia, com o acordo da França... Para além de que isso levará tempo, é duvidoso que tal mecanismo ponha termo à deterioração da situação no terreno.

 

Esta mudança de orientação da política francesa em relação aos palestinianos é acompanhada de um reforço sem precedentes das relações com Israel. É Dominique de Villepin quem, logo que chega ao Quais d’Orsay, na Primavera de 2002, toma a iniciativa. A partir de Julho, é criado um grupo de alto nível, presidido conjuntamente por Yehuda Lancry, um antigo embaixador israelita em Paris, e David Khayat, oncologista, amigo pessoal de Villepin. Ninguém acredita nisso realmente.

 

E no entanto... Uma lista de conclusões é estabelecida em Paris a 16 de Setembro de 2003. Resulta num colóquio entre intelectuais, num Fórum franco­‑israelita das cidades germinadas, num Alto Conselho científico e num Fórum franco­‑israelita para a juventude, bem como na instauração da associação de prefiguração da fundação França-Israel. Em meados de Maio de 2006 abre-se uma grande temporada francesa em Israel. As cooperações económica e militar intensificam-se [5].

 

Este degelo é acompanhado pelo estreitamento das relações políticas. No Outono de 2003, quando Chirac escolhe Gérard Araud como embaixador em Israel, em detrimento de outro candidato que conhece a região, mas que é considerado como demasiado favorável aos árabes, o novo representante recebe instruções muito claras: restaurar as relações com Telavive. Será necessário algum tempo, alguns abalos, mas a visita de Ariel Sharon a Paris em Julho de 2005 confirma que uma nova página está voltada. A morte de Yasser Arafat, em Novembro de 2004, suprimiu o último obstáculo. Doravante, em Paris, esquece-se a Palestina. «A região conhece tantos outros problemas, do Iraque ao Líbano», sublinha um diplomata que reconhece certo «cansaço» face ao processo.

 

«O nosso problema», explica um diplomata árabe, «não é que a França tenha desenvolvido boas relações com Israel. Pelo contrário... Mas ela não se serve delas para fazer avançar o processo de paz». E, com efeito, o problema palestiniano é doravante relegado para a último posição da agenda do diálogo bilateral. Paris, certamente, mantém as suas posições de princípio sobre a criação de um Estado palestiniano independente, mas será que isso tem ainda importância?

 

A construção do eléctrico de Jerusalém ilustra as novas prioridades da França. Duas empresas (Alstom [6] e Connex) venceram o concurso para este projecto. Como único detalhe embaraçoso, o seu itinerário passa por territórios ocupados: liga Jerusalém-Ocidental a duas colónias judaicas de Jerusalém-Leste, Psgat Zeev e French Hill, que Paris considera, até prova em contrário, “ilegais”. Questionada por um deputado, Brigitte Girardin, ministr para a cooperação, desenvolvimento e francofonia, explica: «O Estado francês não dispõe de nenhum poder de imposição ou de constrangimento que lhe permita levar as empresas francesas que participaram num concurso internacional a retirar­‑se de um mercado...»

 

Pura língua de pau. Por um lado, o governo nunca se privou de “aconselhar” às empresas que renunciem a projectos (fê-lo ainda recentemente proibindo à Total que conclua acordos com a Síria). Por outro lado, o contrato foi assinado, a 17 de Julho de 2005, na presença do embaixador da França, Araud, e nos gabinetes do primeiro­‑ministro Sharon. O boletim da embaixada da França saúda a «cerimónia oficial» de assinatura.

 

Num discurso pronunciado em Herzliya, no dia 16 de Dezembro de 2004, Nicolas Sarkozy, ministro do Interior, saúda o investimento francês no eléctrico: «Não há, creio, melhor ilustração da intensidade da nossa cooperação». É verdade que na mesma alocução Sarkozy evocava o combate comum conduzido pelos «nossos soldados» em 1956, aquando da triste expedição colonial contra o Egipto de Nasser para “recuperar” o canal do Suez, combate que prossegue graças à acção dos «nossos serviços de informação»...

 

Nesta mudança de orientação, a vontade de se aproximar dos Estados Unidos, que lançaram uma grande campanha a partir de 2002 sobre “a França, país anti-semita”, também pesou bastante. Os líderes e os responsáveis dos vários partidos políticos irão procurar reabilitar­‑se e obter a caução das grandes organizações judaicas americanas. Aquando da sua viagem a Nova Iorque, em Setembro de 2003, o presidente Chirac faz-se acompanhar por representantes de organizações judaicas francesas para encontrar os seus homólogos americanos.

 

Estas organizações não se privam de resto de intervir directamente na França e de exportar para ela o seu saber­‑fazer. Assim, a União dos Patrões e dos Profissionais Judaicos da França (UPJF) recebe uma ajuda material do Congresso Judaico Americano, que tinha apelado ao boicote do Festival de Cannes em Maio de 2002. Conhecida pelas suas posições extremistas, a UPJF - na criação da qual participou a secretária de Estado para os direitos das vítimas, Nicole Guedj – realizou em 30 de Março de 2006 um jantar de gala na presença do deputado da UMP Eric Raoult, do socialista Julien Dray e do chefe de gabinete de Sarkozy, a quem foi concedido o prémio de político do ano [7]. «Assistimos a uma comunitarização da política externa francesa», inquieta­‑se um diplomata.

 

Assim, o Comité Judaico Americano organizou uma viagem de uma vintena de deputados franceses a Israel, conduzidos por François Fillon, conselheiro próximo de Sarkozy. Na sequência de entrevistas com os participantes, a agência Guysen Israel News notava que o que tinha impressionado mais é que «Israel e a França – como democracias parlamentares – estão numa mesma posição face ao Islão» [8].

 

Quatro razões, muito diferentes, contribuem por conseguinte para a inflexão da política francesa. Uma vontade de se aproximar dos Estados Unidos; “um cansaço” em relação à “causa palestiniana”, a qual se esquece que está no cerne de todas as confrontações no Médio Oriente; a convicção de que “nós” fazemos frente, com Israel, a um mesmo inimigo, o Islão; por fim, uma vontade de ganhar as boas graças da comunidade judaica organizada (que representa apenas uma minoria dos judeus da França), sob o risco de dar crédito à ideia de um “lóbi judaico” e de alimentar um anti-semitismo já bem real.

 

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[1] Yedioth Aharonoth, Telavive, retomado na revista de imprensa feita pela embaixada de França em Israel, 3 de Março de 2006.

[2] Esta prisão, onde estavam presos responsáveis da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), estava colocada sob a protecção de observadores britânicos e americanos que desapareceram oportunamente no dia do assalto.

[3] LCI, 3 de Fevereiro de 2006.

[4] Citações tiradas do artigo de Patrice Claude, Le Monde, 19 de Junho de 1996.

[5] Em Junho de 2004, a França anunciou um contrato para a compra à Israel Aircraft Industries de um demonstrador de drone [veículo aéreo não tripulado], por um montante de 300 milhões de dólares.

[6] Na época, o Estado era accionista de 21% mas, em Abril de 2006, cedeu a sua parte à Bouygues.

[7] Sobre as ingerências das organizações judaicas americanas e as controvérsias que suscitam, ler Marc Perelman, “Israeli envoy vexed by role of US Jews in France”, Forward, Nova Iorque, 27 de Agosto de 2004. Poder­‑se­‑á, por outro lado, ler o artigo sobre o modo como as organizações judaicas americanas ajudam na “formação” de quadros da União dos Estudantes Judaicos da França (UEJF), Jewish Week, Nova Iorque, 10 de Março de 2005.

[8] 5 de Fevereiro de 2006.

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