Informação Alternativa

Europa

28/06/2006

 

«A dinâmica da verdade está em marcha»

        Entrevista ao senador suíço Dick Marty, director das investigações

do Conselho da Europa sobre as actividades ilegais da CIA na Europa –

 

A. C.

El País; traduzido de Rebelión

 

O senador suíço Dick Marty (1945) encontra-se no centro do furacão desde que no passado Dezembro assumiu a responsabilidade de dirigir as investigações do Conselho da Europa sobre as actividades ilegais da CIA no Velho Continente. Ontem, os 46 Estados membros do organismo de direitos humanos aprovaram o seu trabalho, que conclui que os sequestros e traslados de suspeitos de terrorismo foram possíveis graças à cumplicidade dos Governos europeus. Durante uma entrevista com El País, Marty pede aos países europeus que investiguem o que ocorreu no seu território, e põe especial ênfase no caso da Polónia – país acusado de albergar uma prisão secreta –, a cujo Governo exige «uma investigação transparente».

 

Alguns governos criticam a sua investigação e acusam-no de não ter provas suficientes em que fundamentar as suas acusações.

 

Há governos, como os da Bósnia ou Suécia, que eles próprios o reconheceram [ter participado nos sequestros]. Não são questões inventadas o que ocorreu na Europa. Em Itália, a Procuradoria de Milão reconstruiu todos os factos [o sequestro de Abu Omar às mãos da CIA] e identificou a vintena de agentes que participaram na operação. Em troca, em países como a Polónia ou  Roménia, expressar a mera possibilidade de que ocorreu algo é considerado um atentado à sua honra, e é um erro. Há agentes da CIA que falaram de Roménia e da Polónia, mas os polacos dizem que não têm dados sobre os voos da CIA que aterrizaram em Szymany [base aérea no norte do país, próxima a um grande complexo da espionagem polaco]. A Polónia tem que fazer uma investigação transparente sobre o que faziam os aviões em Szymany e não em Varsóvia, por exemplo.

 

Os Estados europeus mostraram-se dispostos a colaborar na sua investigação?

 

Os governos responderam às minhas perguntas. Alguns fizeram­‑no muito rapidamente e de forma completa; outros, nos últimos dias, e outros não responderam. Os que responderam imediatamente foram os que não tinham nada a ocultar, ou onde não tinha ocorrido nada; outros tiveram evidentes problemas no momento de responder.

 

Que países tiveram problemas?

 

Não houve problemas particulares. Em Espanha, desde logo, não houve centros de detenção secreta. Mas os circuitos de detenção passavam por Espanha antes ou após se ter produzido a entrega. Os aviões passavam com tripulantes para se prepararem para a entrega [operação na qual a CIA sequestra um suspeito e o translada a um país terceiro para o interrogar sem garantias judiciais] ou para descansar após a entrega. É muito positivo que os juízes espanhóis vão investigar, é a maneira de conhecer a verdade.

 

Você falou hoje da participação dos serviços de espionagem europeus nas entregas. Além do caso do sequestro de Abu Omar em Itália e do de seis pessoas na Bósnia que acabaram em Guantánamo, que outros serviços de espionagem estão implicados?

 

Há questões importantes que se colocam à Alemanha com o caso de El Masri [Khaled, cidadão alemão sequestrado na Macedónia e confinado no Afeganistão, onde assegura ter sido torturado]. Ali há duas investigações em curso, uma da justiça e outra parlamentar. É o que pretendo, que nos diferentes países se faça o necessário para descobrir o que se passou, porque é a melhor maneira de evitar que suceda de novo.

 

Pensa que algum dia os factos sairão à luz?

 

A dinâmica da verdade está em marcha. Cedo conheceremos novos elementos. Os que têm informação falam quando vêem que se começa a conhecer a verdade.

 

Refere-se a gente da própria CIA?

 

Sim, mas também dos serviços de espionagem europeus.

 

Até que ponto os depoimentos de alguns dos sequestrados lhe permitem afirmar que a CIA praticava entregas de maneira sistémica na Europa?

 

95% dos voos da CIA eram utilizados para questões logísticas, mas os depoimentos demonstraram que também há circuitos de entregas, com características próprias. Que saem de Washington, passam por Palma de Mallorca..., passam pela Polónia e voltam passados 15 dias. Pudemos comprovar que El Masri e Binyan Mohamed [cidadão etíope detido no aeroporto de Karachi no seu regresso ao Reino Unido, e actualmente sob custódia dos EUA em Guantánamo] seguiram a mesma rota no mesmo período. Se nós, com os nossos pequenos meios, pudemos chegar a estas conclusões, os governos se quisessem poderiam descobrir uma infinidade de coisas.

 

Washington justifica as entregas porque considera que as novas ameaças terroristas requerem novas formas de as combater. Pensa que a questão dos voos secretos da CIA vai fazer com que a Europa também re­elabore a sua política antiterrorista?

 

Não, estes procedimentos são totalmente contrários à nossa cultura jurídica. A Europa já praticou as entregas extraordinárias; por exemplo, no caso do terrorista Carlos, que foi sequestrado, mas foi levado ante um tribunal, e essa é a grande diferença. Não entendemos por que os EUA não se querem ater ao sistema jurídico. A Europa enfrentou o terrorismo. Espanha, Alemanha, França... obtiveram resultados excelentes na luta antiterrorista baseada na justiça. A justiça pode ser dura e eficaz; então, por que é preciso fazer desaparecer as pessoas? Por que é preciso empregar métodos de ganguesteres que no fim dão a razão aos terroristas? Os terroristas querem destruir o nosso sistema de valores, e no final somos nós os primeiros a atirá‑los borda fora.