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29/06/2006 Os vassalos Anabela Fino A pretexto da recente visita de George W. Bush à Europa, o director
do Instituto de Defesa Nacional, João Marques de Almeida (JMA), brindou os
leitores do Diário Económico, edição de 26 de Junho, com um curioso
artigo em que exprime a sua preocupação com «uma atitude mental comum a
muitos europeus» e que rotula de «extremamente perigosa». Nessa atitude, diz,
mistura-se «má-fé, desonestidade intelectual, e irresponsabilidade política»,
combinação explosiva que a não ser combatida inviabilizará a «reconciliação
transatlântica». Ilustrando a tese, JMA analisa a questão de Guantánamo, tendo o
cuidado de sublinhar que deixa de lado a «má-fé de alguns», ocupando-se
apenas da argumentação dos que «têm boas intenções». Reconhecendo que «seria
desejável que a prisão fosse encerrada», o articulista manifesta a sua
perplexidade pelo facto de nunca ter visto abordada a questão que considera
«crucial», a saber, «o que fazer com os prisioneiros?». Após várias considerações, onde ressalta a origem dos presos e a
notória diferença entre a situação dos europeus – cujos países «se
comprometeram a arranjar uma solução legal» –, e os do resto do mundo – que
JMA alega não serem desejados nos respectivos países, onde de resto nem
sequer querem regressar porque aí os espera «a morte» –, depois disto,
dizia-se, JMA conclui que não é possível encerrar Guantánamo enquanto não se
souber o que fazer com os presos. Neste discurso, que se supõe imbuído de boa-fé, honestidade
intelectual e responsabilidade política, não se questiona por um momento
sequer a legitimidade das prisões, a ausência de acusação formal e de direito
à defesa, as condições de detenção (incluindo a tortura) e, para se começar
do princípio, o facto de os EUA terem optado por escolher como local de prisão
um território que estando ocupado pelos EUA não é território norte‑americano,
pelo que dá lugar ao expediente de duvidosa legalidade de não facultar aos
presos – que também não são considerados prisioneiros de guerra, o que os
colocaria sob a alçada da Convenção de Genebra – as condições de defesa que
teriam em solo americano. Na sua boa-fé, honestidade intelectual e responsabilidade política,
JMA aponta como solução do imbróglio a criação de um Tribunal Especial (mais
um) sob a alçada da ONU, mas também nada diz sobre o facto de os EUA – tão
propensos a julgar o mundo – se arrogarem o direito de não se submeterem a
nenhum tribunal internacional. Ainda segundo JMA, a indispensável «reconciliação transatlântica»
passa igualmente por uma nova abordagem sobre outra momentosa questão, os
voos da CIA, cujos reconhece que se realizaram e que tiveram o aval dos
países europeus. Nesta matéria, o que espanta o director do Instituto de
Defesa Nacional é que os críticos não entendam que os «privilégios e as
conquistas do modo de vida ocidental» estão ameaçados e têm de ser
defendidos. Tamanha incompreensão, diz, resulta de a Europa viver hoje «com
um tremendo défice de realismo», o que JMA considera «o mais perigoso de
todos os défices». Mesmo correndo o risco de sermos rotulados de «má-fé», palpita-nos que não é bem a «reconciliação transatlântica» o que JMA nos propõe. Soa mais, realisticamente falando, a vassalagem. E isso sim, merece ser combatido. |