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Abril 2006 E no entanto... ela move-se Recebi outro dia um email mal encarado. Enfastiava-se com o facto da
esquerda se entusiasmar com o fim do Contrato Primeiro Emprego em França e
com a derrota de Berlusconi. Curiosamente, o internauta não era um daqueles
jovens de direita radical que gastam o seu tempo destilando sobre a esquerda.
É radical, mas situado no extremo oposto do espectro político. Ele acha que
festejar a retirada de uma “lei menor”, quando Villepin e Sarkozy continuam a
governar, é estúpido. E que é mal empregue uma garrafa de champanhe que
celebre a derrota de Berlusconi, quando o vencedor é Prodi. O nosso amigo é
um revolucionário que arquiva as pequenas alegrias com que a História nos
brinda, enquanto não chega o “grande dia”. Terá razão? A QUEDA DE BERLUSCONI VALE BEM UMA MISSA Pois, em Roma não nasceu o primeiro governo dos sovietes do século
XXI. Nem sequer um governo reformista forte, clarificador. O equivalente
histórico que mais se aproxima da futura maioria de centro‑esquerda e
esquerda, foi o governo italiano de 1948, no imediato pós-guerra. Essa
experiência, como se sabe, durou pouco. Como é razoável admitir que esta não
dure, na sua composição actual, o tempo de uma legislatura. Mas da
resistência antifascista e da sua consequência, o governo de 48, resultou, em
Itália, um mapa político no qual se afirmou a esquerda mais influente e
promissora da Europa ocidental. No passado dia 9 de Abril, com outros
protagonistas e plataformas, as duas Itálias formadas no século passado
voltaram a encontrar‑se. E não é o espectro de um ulterior fracasso
que anula a leitura dos resultados: uma substancial alteração na relação de
forças. A queda de Berlusconi vale bem uma missa. Berlusconi não é “um
dirigente da direita como os outros”, seja lá o que isso seja. Ele antecipa e
ensaia um dos futuros possíveis para a política europeia e mundial – aquele
onde a finança, o Estado e o espaço virtual se fundem numa só pessoa e para
seu próprio benefício. O império de Berlusconi precisa do Estado para a sua
perenidade. Como precisa de um partido de tipo unipessoal. Até Berlusconi, o
Estado moderno cuidava dos interesses gerais do capital financeiro e, em
função da pressão social e da relação de forças estabelecida nas urnas, era
mais ou menos permeável aos interesses populares. Com Berlusconi, os
interesses do capital financeiro passaram a confundir-se com os interesses
particulares do primeiro‑ministro, e o Estado passou a ser impermeável
aos movimentos sociais. Dito de outro modo: entre a democracia e o homem
forte da Itália dos últimos anos, existia um insanável conflito de
interesses. Daquela, Berlusconi pretendia apenas os seus votos e porque deles
não se podia libertar. Quando exigiu a recontagem de todos os votos – apesar
de ter sido o seu ministro do Interior quem dirigiu as operações eleitorais –,
ou quando reclamou uma “grande coligação” à alemã, o que o determinou foi a
sua sobrevivência no poder, mesmo que para isso tivesse que subverter todas
as regras do seu próprio jogo. Esta criatura nada deve à tradição europeia
das direitas liberais. É de outra estirpe. Berlusconi é um produto
moderníssimo da crise da política, uma mescla explosiva de ultra-liberalismo,
populismo e uso do Estado em benefício pessoal. O que melhor se lhe assemelha são as antigas burocracias de Leste
reconvertidas ao capitalismo, que usam as posições oficiais que ocupam para
acelerar os seus próprios processos de acumulação primitiva de capital. Nas democracias da globalização capitalista, a privatização de
sectores do Estado destina-se a abrir “novas zonas de lucro arrancadas aos
serviços públicos e aos sistemas de segurança social”, como recentemente
escreveu o insuspeito Michel Rocard. Em Itália, não é “apenas” este programa
que está em causa. Em Itália, Berlusconi reinventa o Estado anterior ao
Contrato Social do pós-guerra, amputado da separação de poderes, manipulado
no espaço virtual e criminalizador das praças e das ruas. Evitar que ganhe asas,
é da mais elementar sanidade mental. Celebrando a sua derrota como uma
vitória democrática. O dia seguinte é outra questão. A esquerda alternativa – que se
reforçou nas urnas – ensaia em Itália um passo que noutros países,
nomeadamente em França e no Brasil, esteve longe dos resultados esperados. A
participação num governo de hegemonia de centro-esquerda, salvaguardando a
autonomia dos movimentos sociais, é um exercício potencialmente
esquizofrénico. Mas nem as experiências referidas são idênticas, nem a
História é um processo de onde a aprendizagem se ausente obrigatoriamente.
Para já, os movimentos sociais disporão de melhores condições para arrancar
ao futuro governo os compromissos que estabeleceu com o eleitorado. Mais
tarde se verá se foi o governo contaminado pelo conflito social, ou se foi
este a sufocar na relação com o novo poder. Mas que os ares de Itália estão
bem mais frescos e desanuviados, só um cego não vê. DO VALOR DO NÃO FRANCÊS Um governo permeável às reivindicações não é condição sine qua
non da obtenção de vitórias. O movimento francês prova que estas podem
ser arrancadas a um governo hostil – quando a alternativa de que este dispõe
é ceder ou cair. Mas só excepcionalmente esta situação se proporciona. Por
outro lado, as tradições de luta adquiridas ao longo de centenas de anos têm
singularidades nacionais. A França é o país da revolução que inventou a
democracia moderna; é ainda o país da Comuna e o da primeira frente popular;
e é Maio de 68. Na França, a tradição é a dos embates frontais, mais do que a
do Contrato Social negociado. Claro que tem o seu Contrato. Mas até nisso foi
original: chegou a ele através da Frente Popular. Agora bate-se contra a sua
subversão do modo que conhece – usando, para lá do voto, a rua, as ocupações
e os bloqueios. Na verdade, a França é o único país da Europa onde todos os
governos têm medo e respeito pela rua. Isto não faz dos gauleses gente avessa às reformas, como gostam de
teorizar os comentadores liberais. A França é simplesmente um país vacinado
contra o receituário neo-liberal em voga. Mas há mais: de 20 em 20 anos, os filhos dos pais das revoltas
anteriores aprendem a democracia onde ela se revela como descoberta
inesquecível. A França popular renasce, ciclicamente, na rua, e é aí que se formam
as novas gerações. Claro que existem diferenças entre as crises de 1968, 1986
e 2006. Nostálgicos da revolução e cínicos arrependidos, dirão que boa só foi
a primeira das datas; que a segunda e a terceira foram sindicais,
materialistas e, no limite, egoístas e individualistas. É não perceber nada
da vida nos momentos de convulsão. O “sê realista, exige o impossível” de 68,
não deixou de ser uma aventura pelos lugares da individualidade na acção
colectiva. Do mesmo modo, a aparente modéstia dos sonhos de 1986 e 2006 – a
retirada de “leis menores” – não impediram o país de se reconhecer na acção
dos seus jovens. Com uma novidade significativa neste último caso: o
movimento organizado dos trabalhadores cedeu a primazia aos estudantes, e
entre uns e outros estabeleceu‑se uma aliança inter-geracional de
proporções inéditas. Desvalorizar a vitória alcançada – quando os movimentos
sociais carregam doses cavalares de derrotas e desmoralização – mais do que
uma infantilidade, é sintoma de senilidade. A EUROPA DESORIENTADA Desde o choque do chumbo francês e holandês ao Tratado
Constitucional, que as direitas europeias se dividem sobre o caminho a
seguir. De momento, a tendência dominante é para não esticar a corda. A
fractura exposta nos referendos refreou os entusiasmos dos círculos
dirigentes europeus. Mais tarde, o empate nas eleições alemãs e a
constituição de um governo de bloco central neste país, consolidou esta
tendência de “liberalismo temperado”, de resto, hegemónica em Bruxelas. O
primeiro sinal de desaceleração, foi o compromisso no projecto de Directiva
para a liberalização dos serviços. Face à versão inicial, as alterações do PE
e que a Comissão aceitou, são substantivas. Elas traduzem a cadeia de apertos
em que Bruxelas se encontrava – pressionada por uma liderança sindical
moderada que exigia resultados visíveis, sob pena de ficar refém dos sectores
radicalizados que animaram o protesto laboral. A divisão na direita francesa, ante a força do movimento anti-CPE,
expressa outra dimensão desta novidade – a emergência do medo nas classes
dirigentes. Há, de facto, uma tendência nova e pesada que atravessa a Europa.
Revelada no movimento anti-guerra, consolidou-se nos últimos três anos no
conflito social. Essa tendência começa a resolver a sua principal urgência –
a obtenção de resultados palpáveis. Mas está ainda longe de ter tradução
consistente na esfera política. De momento, esta emergência dos “de baixo” induz o realinhamento centrista das políticas europeias e dos principais governos. Mas a força das “grandes coligações” é a sua fraqueza. Temperar o liberalismo é uma “missão impossível” que reduz a política aos mínimos que todos os governos possam subscrever. Dominante em Bruxelas, esta tendência pode ainda durar, apesar de traduzir, como nenhuma outra, o impasse europeu. Por isso, não se pode subestimar o potencial das direitas radicais e eurocépticas, que têm em G. W. Bush o seu referente externo. Reforçadas na Europa do Norte e no Leste, influenciam governos e fazem da política anti‑imigrantes e do “choque de civilizações” a sua plataforma de identidade. Com o advento de um novo capítulo na guerra preventiva podem recuperar da derrota de Itália. Na Europa, estão em gestação realinhamentos de natureza tectónica. E há vulcões ainda em actividade... |