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15/04/2006 Viagem guiada ao labirinto europeu em Bruxelas Paulo Fidalgo Visitar o Parlamento Europeu em Bruxelas, como turista político, com
guia, pode ser uma experiência deveras especial. Se o guia for um habilitadíssimo deputado europeu, no caso Miguel
Portas, então torna-se um momento de estimulante debate. Sob a inspiradora atmosfera da sede do Partido da Esquerda Europeia,
um espaço claro, onde pontificam os cartazes artísticos de partidos e
movimentos de vários pontos da Europa, pude novamente colocar‑me a
interrogação primordial dos comunistas, desde que, nos anos 40, a direcção de
Estaline desactivou a Internacional. Num processo negocial inter-aliado pleno
de obscuras motivações, de resto. Porque é que os seguidores do
internacionalismo estão desde então privados de um fórum supranacional de
acção em prol de um mundo novo? Porque é que a mera formação de uma estrutura
europeia de coordenação se revela tão cheia de controvérsia e de
dificuldades? A resposta estará, seguramente, na análise prevalecente na esquerda
sobre o papel da supranacionalidade no processo histórico. Onde muita gente
olha o espaço nacional como o território exclusivo de construção de uma
alternativa. Alternativa que consideram ligada inclusive à crise das
tentativas de construção de um mercado único europeu rebocado pela França e
Alemanha. E tacitamente recusam (ou descrêem), no caso da tal hipotética
crise, que a alternativa esteja no combate à supranacionalidade capitalista
por via de uma supranacionalidade nova, avançada. Encaram apenas o regresso
ao espaço nacional. Para uma parte da esquerda e dos comunistas, a luta por uma
alternativa faz-se pois contra a supranacionalidade capitalista e pela
recentragem nacional do desenvolvimento. É curiosa até a semântica entres os
comunistas que se consideram deputados europeus, e os que se intitulam
representantes nacionais no “parlamento europeu”. Uns dizem-se “deputados
europeus” de origem portuguesa ou checa, outros dizem‑se deputados
“portugueses ou checos” no Parlamento Europeu. A ordem inversa das palavras
traduz de facto uma profunda clivagem no campo comunista. Mesmo sem entrar nas motivações estruturais de tal clivagem, não
deixa de gerar perplexidade o lugar dos seus protagonistas no
arquitectonicamente desinteressante hemiciclo de Bruxelas. É que prevalecem
hoje na direcção da Comissão e das reuniões inter-governamentais pontos de
vista de gestão corrente apenas que não alimentam qualquer novo ímpeto na
criação de um espaço supranacional. A Europa está em gestão corrente, apenas
administra os negócios correntes e vive em parte do esforço de funcionários
europeístas que ainda alimentam a ideia de levar projectos novos por diante.
Somente a Espanha e provavelmente o novo governo italiano, procuram hoje
novos compromissos de desenvolvimento europeu. Se a isto juntarmos as representações nacionalistas reaccionárias,
podemos dizer que o pêndulo da Europa está em fase de movimento retrógrado.
As diversas burguesias, nas suas diversas motivações, parecem portanto enviar‑nos
sinais crípticos do género: “Já chega de Europa!”. E o problema é que o
“nacionalismo” de esquerda acaba por fazer jogo com esse ponto de vista
hegemónico. Ponto de vista esse que ainda por cima converge com os desígnios
da política europeia dos Estados Unidos, que desejam uma Europa com mais
nacionalismos do que um bloco que se afirme num contexto de multipolaridade.
Ouviu-se dizer com todas as letras que hoje pontificam na Comissão Europeia
“os americanos”. Desde logo pela mão do nosso inefável Durão Barroso. Quanto
mais americanizada a Comissão Europeia, menos Europa haverá, foi em certa
medida uma possível conclusão daquelas conversas nas bancadas do Parlamento
Europeu. É verdade que havia uma força motriz pró-europeia da parte
hegemónica do capitalismo europeu na época de Jacques Delors. Hoje, diz-nos
Miguel Portas, essa força motriz parece menos empenhada em novos
aprofundamentos, seja porque o nível de regulação alcançado é satisfatório,
seja porque a conquista de novas regulações e mercados se descentrou do
espaço europeu em favor de interesses mais globalizados. O grande capital,
nomeadamente francês e alemão, estará mais preocupado com a OMC e nos acordos
com os espaços emergentes da China, Índia, África do Sul e Brasil, do que em
alcançar níveis mais amplos de integração na Europa, é a sugestão por detrás
do comentário informal do nosso guia. Esta é uma tese que carece porém de
muita demonstração. Uma hipótese alternativa é a de admitir que a
globalização intensificou rivalidades tais que movimentos supranacionais na
Europa ameaçam as trincheiras entretanto fixadas nas guerras comerciais e económicas
inter‑capitalistas. A ser verdade qualquer das teorias, a deslocação do foco capitalista
deixaria livre o espaço político para as burguesias que temem demasiadas
integrações, e consideram a sua reprodução e sobrevivência como ligadas ao
encarniçamento nacional. E fazem-no, admitem os do nosso grupo de turistas
políticos, com o olhar numa aliança “nacional” com os próprios trabalhadores,
naquela ideia de que o nível de vida, de emprego, e os lucros, se ligam
predominantemente com o proteccionismo nacional. É aquela ideia de que o
nacionalismo dos lastimáveis patrões do vale do Ave e o nacionalismo dos
trabalhadores respectivos, convergem para barrar o caminho às invasões da
China – em vez de se barrar o caminho ao capital. Esta construção de uma grande
coligação nacional entre burguesia e trabalhadores, deixa preocupados os que
se colocam no campo internacionalista. A que poderá levar a paragem e
retrocesso da política e da economia para o espaço nacional? A todos pareceu,
incluindo ao nosso anfitrião, que esta estratégia da aranha que quer
aprisionar os trabalhadores no nacionalismo vai dar novos dissabores e iludir
os problemas da construção de uma alternativa anti‑capitalista. Que
estará sempre ligada, para os internacionalistas, a um «acto súbito das
principais nações dominantes» (Karl Marx na Ideologia Alemã). A verdade aritmética é que os que se pronunciam por uma organização
supranacional, democratizada, e empenhada numa vasta remodelação, a favor de
um modelo de convergência e coesão social, pouco mais de 100 deputados
conseguem ocasionalmente reunir, entre comunistas, socialistas e alguns
liberais. Nos setecentos e muitos que por lá andam. Assim sendo, como deve colocar-se a linha do Partido da Esquerda,
cuja fundação foi entusiasticamente apoiada pela Renovação Comunista? Faz
sentido baixar a guarda em relação ao nacionalismo? Considerar impossível
vencer a perspectiva de que a salvação estará no regresso ao espaço nacional?
Pelos vistos, os comunistas andam a trabalhar noutros cenários bem mais
ofensivos. É de realçar, por um lado, que o espaço nacional existe e é nele
que se ganham também as batalhas da supranacionalidade e se combatem as
ideias chauvinistas. Assim o mostram as eleições italianas, onde o combate à
direita eurocéptica e populista constituiu uma importante vitória dos nossos
camaradas em prol do relançamento de um projecto democrático de Europa. Por
outro, o problema, em termos simples, pode colocar-se assim: se a burguesia
não tem unhas para conduzir um processo de efectiva supranacionalidade porque
afinal não tem condições para superar o seu apego ao espaço nacional, para os
marxistas indissociável do próprio capitalismo, então, que assumam os povos o
estandarte da construção de uma nova realidade política e económica supranacional.
O regresso ao espaço nacional é, digamos, inseparável de mais capitalismo; a
aposta supranacional está cada vez mais dependente da energia das forças que
querem construir uma alternativa. A ofensiva comunista e da esquerda
europeias, liga‑se assim cada vez mais a um programa político onde a
retoma do europeísmo, em novos moldes, vai ocupar um lugar central nas
futuras eleições europeias. Uma consequência da mudança de actores e papéis em curso é a de
saber o que fazer ao chamado tratado constitucional. As direitas e governos
nacionais não dão grandes mostras de quererem pegar naquilo. Os social‑democratas
andam a aprontar calendários que todos consideram irrealistas. E a esquerda? Será que admite concorrer a eleições na perspectiva de refundar um
processo constitucional na Europa? Com democracia, participação popular? Foi com estas interrogações que saímos do Parlamento em passo estugado para alcançar uma reconfortante bica ali ao pé. |