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29/03/2006 A França, aqui tão perto João Teixeira Lopes Público; retirado de bloco.org A nova direita neo-conservadora olha com indisfarçável mal-estar
para as manifestações que juntam, em França, centenas de milhares de
estudantes e trabalhadores contra um símbolo da precariedade: o chamado
Contrato Primeiro Emprego (CPE). Percebe-se bem a razão. Esta nova direita é
a guarda‑avançada dos grandes interesses económicos que, à escala
multinacional, pretendem, ainda com maior intensidade do que até ao momento,
despedir, desregulamentar, flexibilizar e criar uma ideologia que torne estes
pressupostos numa espécie de “núcleo‑duro” indiscutível – um
pensamento único, alicerçado na mentira da fatalidade – só pode ser assim,
não há outra forma, o Estado social não aguenta a promoção de empregos
estáveis e socialmente contratualizados. A questão é bem outra: vivemos em sociedades produtoras de exclusão
em larga escala. Cresce, como uma onda, o contigente dos “supranumerários”,
dos “excedentários”, dos “resíduos sociais”, multiplicando‑se, do
mesmo modo, políticas sociais que apenas visam criar uma ténue almofada
social (há sempre o medo de que estale a “coesão social”, como agora estalou,
em França...) que transforma cidadãos em “utentes” ou “assistidos”. Ignora‑se,
a maior parte das vezes, o papel socializador do trabalho, estruturador de
rotinas, mobilizador de sociabilidades, fonte de estatuto e dignidade
sociais. Faz-se por esquecer que a instalação na precariedade e nos
intermináveis circuitos da formação profissional de má qualidade,
frequentemente não avaliada e não acreditada, a par da multiplicação dos
lugares intermitentes e provisórios do subemprego, dos part‑times, da economia
informal e subterrânea, da desvalorização dos diplomas com o aumento do
desemprego sobrequalificado dos licenciados nos conduz a uma situação
insuportável. É insuportável, para os jovens trabalhadores franceses – como o
será para os portugueses – imaginarem-se enquanto gerações bloqueadas, sem
futuro, à mercê da soberania de um empregador que a todo o momento os pode
despedir, interromper um trajecto, impedir qualquer sentido para a vida. José Manuel Fernandes (JMF) e Helena Matos são dois dos exímios
representantes desta nova direita global, com fortes raízes na administração
norte-americana e agora confortavelmente instalada no Palácio de Belém,
vanguarda que logo se ergue quando alguém ousa perturbar o inexorável caminho
do capitalismo selvagem para o fim da história. Ambos consideram o
comportamento dos jovens franceses como mais um sinal da degenerescência de
um povo e de uma Nação. JMF chega mesmo a ponto de avaliar a grandeza das nações
pela sua pujança bélica: pois se os franceses, a partir de Napoleão, perderam
guerras e batalhas, o que se pode esperar de gente como esta? Helena Matos,
por seu lado, mistura o que intelectualmente não pode ser misturado, ao
indignar‑se por os jovens franceses ousarem protestar de barriga cheia
quando há imigrantes a morrerem quando tentam alcançar por mar a Europa.
Cometem um erro gravíssimo do ponto de vista da análise intelectual:
essencializam o “espírito” de um país, resvalam para uma espécie de ontologia
ou metafísica das nações, “congelam” aquilo que é múltiplo, plural e dinâmico
– a identidade. É o mesmo que dizer que os portugueses são, por natureza,
preguiçosos, ou desenrascados ou improdutivos, ignorando os processos
históricos, sociais e culturais que estão na génese de uma suposta “identidade
nacional”. E esquecem‑se, ainda, que é em nome do direito ao futuro
pessoal e comum que se erguem os cidadãos. Alfredo Bruto da Costa – ex-ministro católico do governo Pintassilgo – põe o dedo na ferida ao afirmar: «A verdadeira desigualdade tem origem antes da redistribuição, primeiro na repartição da riqueza e depois na repartição primária do rendimento, isto é, na que resulta directamente da actividade económica». Por outras palavras, são as políticas ultraliberais que têm gerado, nos últimos trinta anos, o aumento das desigualdades sociais e da pobreza. Porque não funcionam elas? Será necessário esperar ainda mais para as avaliar? JMF tem a resposta: ainda há «imobilismos», o governo socialista pode ir mais longe, é difícil (?!) despedir em Portugal. Percebe-se o seu papel: evitar hesitações, atiçar os ímpetos desreguladores do Governo PS que, em determinadas matérias, pretende ultrapassar o inigualável Bagão. Mas será possível viver em sociedades assim? Será possível viver? Os franceses deram a resposta. |